O canto de Juraildes

Juraildes da Cruz começou a despontar em festivais de música em 1976, mesmo ano em que Xangai lançava seu primeiro disco. Sua estreia fonográfica só aconteceria em 1990, com O cheiro da terra.

O baiano é um dos maiores intérpretes do tocantinense, responsável pela popularização de seu talvez maior hit, Nóis é jeca mais é joia – título de um disco que dividiram, lançado pela Kuarup em 2005 –, uma crítica a nosso complexo de vira-latas, com seu refrão direto: “se farinha fosse americana, mandioca importada/ banquete de bacana era farinhada”. A música venceu o Prêmio Sharp (hoje Prêmio da Música Brasileira) em 1998, na categoria melhor música regional.

Outras composições de destaque de Juraildes da Cruz são Dodói (gravada por Titane em Sá Rainha, de 2000), Quem ama perdoa (lançada por Genésio Tocantins e regravada por Xangai em seu disco mais recente), e Meninos (gravada por Dércio e Doroty Marques no antológico Monjolear, disco infantil de 1996), que parece traduzir sua sina: “quero acordar com os passarinhos/ cantar uma canção com o sabiá”, diz um trecho da letra.

Versátil, sua música pode tanto trazer crítica social quanto cantar o cotidiano de camponeses ou o amor, o mais universal dos temas. Tudo isto certamente comparecerá ao repertório de sua apresentação no próximo domingo (7), às 16h, no Sarau Sereno Cultura e Arte (Rua das Perçoeiras, 100, Quintas do São João), em São José de Ribamar, com ingressos popularíssimos a apenas R$ 10,00. A primeira visita do artista ao Maranhão aconteceu há mais de 10 anos. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação
Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação

É a primeira vez que você vem ao Maranhão?
Não, a primeira vez foi em 2005, pela Funarte [a Fundação Nacional de Artes, órgão vinculado ao Ministério da Cultura].

Naquela ocasião você chegou a passear, conhecer algo?
Dessa vez que eu estive aí pela Funarte não tive a oportunidade de passear, conhecer o Maranhão, por que foi bem rápido.

Nessa vinda agora, com mais tempo, pretende conhecer? E da música do Maranhão, você já foi apresentado a algum nome? Há alguém de quem se lembre?
Não sei se dará tempo, mas será uma boa oportunidade. Conheço Zeca Tocantins, Carlinhos Veloz, Zeca Baleiro…

Você começou a carreira na mesma época em que Xangai, no entanto tem uma discografia menor. A que você credita isso?
Eu não comecei a carreira na mesma época; eu comecei muitos anos atrás, em 1976, 78, em festivais, participei do festival da Tupi, onde participaram vários ícones da música popular brasileira, na época começando, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, até o Caetano Veloso participou desse festival, Jackson do Pandeiro estava lá. Nós tivemos a oportunidade de participar desse festival, então aí que a gente começou. Eu comecei mesmo a partir de meu primeiro disco, que foi em 1990. O primeiro disco do Xangai foi em 1976 e o meu primeiro foi em 1990, então há uma caminhada já bem longa do Xangai, bem anterior à minha.

Suas músicas mais conhecidas foram gravadas por Xangai, Genésio Tocantins e Titane. O que estes parceiros e intérpretes significam para você?
O Genésio Tocantins foi meu primeiro parceiro, a gente trabalhou juntos, passamos por vários festivais. Xangai foi meu maior incentivador, admira meu trabalho, grava músicas minhas até hoje, e a Titane também gravou uma música, Dodói, são pessoas assim, que ajudaram a semear a semente de Juraildes da Cruz.

Qual a base do repertório desta sua apresentação em São José de Ribamar?
A base do repertório são algumas músicas mais conhecidas. Como é um público mais específico, tem músicas novas, músicas de reflexão, músicas com uma leitura de nosso tempo, nossa sociedade, e também ligadas ao lado espiritual.

Sua Nóis é jeca mais é jóia venceu o Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Passado algum tempo e após o sucesso da música, o brasileiro parece ainda não ter se livrado de seu complexo de vira-latas. Por que você acha que o brasileiro aprecia tanto e tenta imitar o que vem dali, às vezes pouco se importando com artistas e obras mais interessantes?
Na verdade, os maiores meios de comunicação do Brasil são, nada mais, nada menos, do que uma central dos Estados Unidos em nosso país. Como já dizia Elomar, a maior ogiva nuclear que os Estados Unidos lançou no mundo não foi a bomba atômica, e sim o cinema, onde eles colocam, através do cinema, sua cultura, seu jeito de ser, a sua aparentemente melhor maneira, a melhor moda, entende? Então o Brasil não é diferente de outros países que são minados em sua cultura, em seus costumes, pela força da mídia internacional. O que parece que vem de fora sempre será mais bonito para quem não tem uma informação, quem ainda é provinciano, no sentido de valorizar sua cultura. Então, vamos sempre ter essa, melhor não dizer sempre, um dia poderemos ser mais originais e valorizar mais o nosso quintal, o que é nosso, o que é Brasil.

Você falou sobre a interferência americana na soberania nacional. Como avalia o atual momento político vivido pelo Brasil?
O momento mostra um Brasil exposto, com todas as fraturas possíveis expostas, uma casa totalmente arrombada, sem dono e por isso mesmo sucateada de todos os lados. Realmente é o fundo do poço, só há uma alternativa: emergir, renascer. Acho complicado, pois não temos peças de reposição confiáveis. O ideal seria que novos no poder representassem mudanças, transformação pra melhor e que não fosse apenas um novo jeito de continuar sangrando o país.

Lembrando que este governo é machista, ano passado você venceu um concurso de músicas sobre a lei Maria da Penha. É uma preocupação tua, em teu trabalho, trazer sempre uma mensagem importante, de cunho social?
Meu pensamento tem uma função crítica também, é com se [eu] fosse um sentinela, observador dos acontecimentos. O compositor tem essa oportunidade de retratar a sociedade e tornar acessível, trazer de forma mais clara o que está oculto aos olhos da multidão.

*

Ouça Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz), com o autor:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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