Verdade e fantasia: João do Vale para crianças

O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.

Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.

João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.

Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiroPisa na fulô e a já citada Minha história.

João – O menino cantador. Capa. Reprodução

Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.

“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.

A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.

Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.

A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.

Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.

Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.

Serviço

A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA

Exceção e regra em Encruzilhada

Encruzilhada. Capa. Reprodução

 

Marcelo D’Salete é uma exceção: um quadrinista negro de sucesso no Brasil. Sua obra é regra: sua ficção documenta a realidade cotidiana de periferias das grandes cidades e o massacre diário da juventude negra e pobre. Mas sua obra é, ao mesmo tempo, exceção, já que não é qualquer artista que se interessa por abordar tais temas sob tais perspectivas, dando voz aos oprimidos.

A violência policial já não nos choca, pois está estampada nas edições diárias dos jornais impressos ou circula em sites e grupos de whatsapp. D’Salete no entanto não alivia: o traço sujo traduz a vida sofrida dos que habitam a periferia e vivem sob o jugo dos agentes da lei – que em geral desrespeitam-na. “Com polícia a gente fica quieto” é o mantra repetido por uma personagem em Risco, história inédita que se soma à reedição de Encruzilhada [Veneta, 2016, 160 p.], originalmente lançado em 2011.

São cinco histórias que não causariam estranhamento a quem acompanha o noticiário, sobretudo através de programas policialescos sensacionalistas – redundância intencional –, em que sangue é sinônimo de audiência. São Paulo está perfeitamente traduzida no preto e branco – e cinza – dos quadrinhos de D’Salete, cujos grafites, espalhados por paredes e muros, e marcas, por outdoors, neons e embalagens, garantem autenticidade às narrativas, jogando o consumismo (e o capitalismo) no cerne da questão urbana e sua onda de violência, que atinge “trabalhadores, ladrões, policiais, camelôs” e usuários de crack.

As histórias de Encruzilhada – a grafia do título na capa do álbum não por acaso evoca um picho – não são fábulas com moral; antes evocam uma amarga realidade, causando incômodo e propondo reflexões, exceto a quem já perdeu qualquer grau de humanidade ou sensibilidade, anestesiado pela “normalidade” do status quo, justamente contra o que mira a arte consciente de D’Salete.

Beleza a norte, sul, leste e oeste

Foto: ZR (27/5/2017)
Foto: ZR (27/5/2017)

 

Ao contrário de shows em que, em geral, o uso de celulares e câmeras é proibido (em vão) pela produção, a plateia que assistiu Claudio Lima sábado passado (27), no Cine Teatro da Cidade de São Luís, foi das mais educadas que vi em muito tempo. E a colheita de imagens e posterior postagem nas redes sociais foram incentivadas, logo no texto de abertura, que anunciou a subida do cantor ao palco.

“Coloquem seus celulares no silencioso, mas não os desliguem: fotografem e filmem e postem nas redes sociais”, dizia o texto. Em seguida, solicitou, para gargalhadas da plateia: “este show está sendo gravado. Guardem manifestações como “lindo! Gostoso! Arrasou, qualhira!”, para os intervalos das músicas”. Pedido pronta e educadamente atendido.

Gritos de “lindo!”, “gostoso!” e “viado!” foram ouvidos ao fim da primeira música, Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz). “Tá bom, gente! Já chega!”, pediu Claudio Lima entre a timidez ensaiada e o domínio absoluto da cena – sua performance nunca é exagerada, a serviço tão somente de sua voz, de dar ênfase ao que canta.

O show de lançamento de Rosa dos ventos coroava de forma brilhante uma ideia acalentada há ao menos cinco anos. O show seguiu à risca o roteiro do disco, à exceção de Lástima (Giovanne Chaves), que cantou sentado, acompanhado apenas pelo teclado de Rui Mário.

A inclusão da inédita comprova o que Claudio Lima disse em entrevistas de divulgação do show: já está catando repertório para um próximo disco. Em Rosa dos ventos gravou apenas nomes maranhenses – incluindo ele, em seu début como compositor – e quase apenas inéditas, a exceção justamente a faixa-título, já registrada pelo compositor, Bruno Batista – “mas eu cantei antes”, também frisou em diversas entrevistas, lembrando os prêmios de melhor música e melhor intérprete que ele e Bruno levaram, respectivamente, no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que em 2012 celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense.

Claudio Lima, que a exemplo de seus discos anteriores, assina o projeto gráfico de Rosa dos ventos, também era autor do belo cenário em que desfilou o repertório do disco, acompanhado por Eduardo Patrício (programações eletrônicas, bateria e percussão), Pablo Habibe (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Memel (guitarra), João Neto (flauta) e Rui Mário (teclado e sanfona).

Em Eu não sou refém da maioria (Claudio Lima) trouxe ao palco o bailarino Luciano Teixeira que, a princípio enrolado numa bandeira do Brasil, foi literalmente até o chão coreografando o funk. “É uma honra, pra mim, pra vocês, pra toda a equipe, podermos fazer arte em tempos tão sombrios”, disse o cantor em determinada altura do espetáculo. Fervorosamente aplaudido após cada música, não foi diferente após o comentário.

Após São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (letra de Celso Borges sobre melodia de Michael Rilley), Claudio Lima tornou a brincar com a plateia: “não precisam pedir bis. Ele já está institucionalizado. A gente vai sair e volta pra fazer”. Voltaram aos gritos de “mais um, mais um!”, prontamente atendido. Cantou Bis (Cesar Teixeira), de onde tirou o verso que dá título a seu disco anterior, Cada mesa é um palco (2006). Foi o único momento em que o cantor e os seis músicos estiveram todos juntos no palco ao mesmo tempo, quando Claudio Lima os apresentou ao público.

O disco e a figura escolhida para título apontam em todas as direções, norte, sul, leste, oeste. Rosa dos ventos, disco e show, e Claudio Lima aglutinam e distribuem beleza. Seu público não é refém da maioria e justamente por isso estava ali.

*

Roteiro do show

1) Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz)
2) Salomé minha dor (Fernando Abreu/ Marcos Magah)
3) Não seja burra, baby (Walquiria Almeida/ Claudio Lima)
4) Caminhos ocultos (Der wegweiser) (Franz Schubert/ Claudio Lima)
5) Pingão (Tiago Máci)
6) Parapapá (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
7) Esmolas (Bruno Batista)
8) Não sou refém da maioria (Claudio Lima)
9) Melodia sentimental (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
10) Lástima (Giovanne Chaves)
11) Só me resta regar tuas petúnias (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
12) Falta flauta (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
13) Nem os cadáveres sobreviverão (Marcos Magah/ Acsa Serafim)
14) Rosa dos ventos (Bruno Batista)
15) São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (Celso Borges/ Michael Rilley)

Bis

16) Bis (Cesar Teixeira)

Lúcia Santos: lúcida e lúdica

Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução
Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução

 

Os remédios tarja preta, de uso controlado mediante receita médica, estão, no imaginário coletivo, associados aos “malucos” que os usam legal ou ilegalmente. A expressão é quase sinônimo de loucura, barra pesada, proibição.

Na capa e no título (e apenas ali) do novo livro de poemas de Lúcia Santos, Nu frontal com tarja [Reformatório, 2016, 125 p.], no entanto, é justamente o contrário. O conteúdo – 102 poemas, como anunciado na capa – é pura lucidez, ludicidade e desnudamento.

Aguardado sucessor de Uma gueixa pra Bashô (2006), inteiramente dedicado ao haicai, Nu frontal com tarja demonstra um amadurecimento da poeta – uma das mais importantes em atividade no Brasil –, sem no entanto, abandonar algumas características de seu fazer poético: a concisão, certa ginga e a musicalidade.

Dividido em três partes, Nu frontal com tarja traz, em A tesoura de Dalila, poemas curtos e/ou rimados; em MudOlhar, poemas em prosa; e em Além Dali, poemas seus musicados por nomes como Kléber Albuquerque, Adolar Marin, Nosly, Dudu Caribé, Pedro Moreno e o irmão Zeca Baleiro, entre outros.

Os títulos das seções, aliás, já dão um rasante em suas referências, que continuam a escorrer por seus poemas, umas mais óbvias, outras menos: mitologia (Penélope, Narciso, Prometeu), religião (Jesus, Madalena), cinema (François Truffaut, Gerard Depardieu), moda (Dior), música (bossa nova, rock’n roll, punk, Maria Callas, Maurice Ravel) e poesia (Matsuo Bashô, Glauco Mattoso, que assina o texto da quarta capa).

“Seu estilo se presta bem ao haicai que, como a temática se desnuda sem pejo nem nojo, funciona à guisa de autêntico epigrama”, sentencia o poeta Glauco Mattoso no texto da quarta capa, em que recomenda ainda: “Continue lúcida e lúdica, Lúcia, nesse pique, pois”. Não é mero jogo de palavras. Ela retribui no poema Ironia crônica: “minha sátira seria/ toda prosa/ ao olhar invejoso/ se ao invés de glaucomatosa/ eu fosse Glauco Mattoso”.

O poema sem título “entre-me/ alma corpo e membro/ como primavera namora setembro” é das delicadezas de que Lúcia Santos é capaz, feminíssima voz. Como em Jogo de cena: “não subestime meu poder de fogo/ sou centroavante linha dura/ quando meu time entrar em campo/ você vai se surpreender com meu jogo/ de cintura”. A poeta é sempre dona da situação. Não entrega o ouro ao bandido, mas não tem nada a esconder. Em Punk, por exemplo, critica a ditadura da felicidade (apregoada sobretudo nas redes sociais) e da sociedade de consumo: “fuck it/ a vida não é um fake book/ comercial de margarina/ pose e look// mesmo fina/ a dita dura da felicidade/ só entra com vaselina”.

Quem não quiser tornar-se o personagem de Deslocado – “perdeu os melhores filmes de sua vida/ vasculhando a empoeirada estante da comédia romântica” – precisa ler este quarto livro de Lúcia Santos. Acompanhe-a nesta viagem. Última parada, poema final, é boa síntese: “fim de linha/ finda viagem/ navios queimados/ desembarco na vida real// agora é que são elas/ agora aqui sou eu/ sem velas”.

Dupla homenagem a Papete

Divulgação
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O lp Bandeira de aço, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira em 1978, catalisava experiências sonoras iniciadas anos antes pela turma que fundou em 1972 o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), em torno do qual orbitavam os “compositores do Maranhão” (inscrição que vinha abaixo do nome do intérprete na capa do disco) gravados por Papete.

As tais experiências contribuíram para a aceitação, pelas elites, de uma estética da cultura popular do Maranhão, que transitavam entre o sacro (a religiosidade, sobretudo do período junino) e o profano (as festas regadas a álcool), como de resto as festividades juninas – várias toadas registradas por Papete são clássicos cantados até hoje a plenos pulmões, por multidões, que muitas vezes sequer sabem os nomes de seus compositores.

A partir de Bandeira de aço Papete tornou-se uma espécie de embaixador da cultura popular do Maranhão mundo afora. O (ex-)publicitário Marcus Pereira, responsável por um mapeamento musicultural do Brasil de suma importância, creditou-lhe a tarefa de interpretar o conjunto de composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe, que acabou configurando-se um divisor de águas na música produzida no Maranhão.

Bandeira de aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico”, atestou Flávio Reis, professor do departamento de sociologia e antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no artigo Antes da MPM (Vias de Fato, setembro/2011).

Maranhense de Bacabal, cantor e multi-instrumentista, Papete foi reconhecido internacionalmente como um dos maiores percussionistas de todos os tempos. Deixou seu nome em fichas técnicas de discos de artistas como Almir Sater, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Dominguinhos, Eduardo Gudin, Erasmo Dibell, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a entrevistadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Verônica Ferriani, entre muitos outros.

Às vésperas do período junino, Papete nos deixou há um ano. Hoje, em São Luís, receberá duas homenagens – entre o sacro e o profano, digamos: hoje (26), às 19h, na Igreja Bom Pastor (Praça da Igreja do Renascença), será celebrada a missa de um ano pelo falecimento de José de Ribamar Viana (seu nome de batismo). E a partir das 20h, na Casa de Iaiá (Rua São Conrado, 71, Olho d’Água), diversos artistas e amigos se reúnem para celebrar sua obra e memória, em Um show para Papete, que reúne Alberto Trabulsi, Marconi Rezende, Milla Camões, Tássia Campos e Tutuca Viana, além da DJ Vanessa Serra. Os ingressos custam R$ 20,00.

Divulgação
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Modelo vivo, de Laerte, o último grande trabalho de Toninho Mendes

Modelo vivo. Capa. Reprodução
Modelo vivo. Capa. Reprodução

 

Falecido em janeiro passado, Toninho Mendes “nos anos 1980, elevou as expressões gráficas do underground ao palco principal da cultura e mudou a história dos quadrinhos nacionais. Um mundo de referências anárquicas passava a contaminar o jornalismo, as HQs, o debate comportamental e político”, como anotou em seu obituário o jornalista Jotabê Medeiros.

A Circo Editorial, fundada por Toninho Mendes na década de 1980, publicou nomes como Angeli (Chiclete com banana), Laerte (Piratas do Tietê), Glauco (Geraldão) e Luiz Gê, entre outros. Sua última grande contribuição para a cultura nacional foi a organização de Modelo vivo [Barricada, 2016, 88 p.; R$ 49,00], mais recente álbum de Laerte.

Os tempos são outros – ou serão os mesmos? – e por isso é importante ver as coisas em perspectiva: Modelo vivo é uma antologia que demonstra a importância de Laerte não apenas para os quadrinhos nacionais. Seus mais de 40 anos dedicados ao traço demonstram que o humor pode sintetizar cenários, traduzir conjunturas e ainda fazer rir – não o riso fácil e inconsequente.

A obra se completa com uma série de ilustrações de corpos nus, algo deixado em segundo plano por Laerte ao longo de sua trajetória. “Desenhar gente é uma das maneiras mais fecundas de fazer desenhos, porque nos usamos inteiramente na ação de desenhar”, afirma no texto de apresentação de Modelo vivo. “Fiz isso menos do que gostaria”, continua.

Os desenhos a que Laerte se refere foram feitos ao longo de um curso livre organizado por ela e seu filho Rafael Coutinho, em 2013 – a cartunista é vista em ação no ótimo Laerte-se, documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, disponível no Netflix.

O advento das redes sociais facilitou bastante a vida de quem deseja acompanhar o trabalho de artistas que admira. Laerte continua colaborando com a Folha de S. Paulo. Para quem, ainda assim, ainda não conhece o trabalho da cartunista, Modelo vivo é uma boa porta de entrada.

O álbum passeia sobretudo por esta produção mais underground, reunindo tiras e HQs publicadas em revistas e fanzines como Cachalote (1994, editada por Laerte, Adão Iturrusgarai e Miriam Lust, que depois daria nomes ao álbum de Rafael Coutinho, filho de Laerte, com roteiro de Daniel Galera), Circo (1987), Geraldão (1988 e 89), Chiclete com banana (1988 e 89) e Piratas do Tietê (1991), além de uma inédita, realizada em 2000.

Para quem conhece (e acompanha) o trabalho de Laerte, algumas histórias soarão clássicas, como A volta dos palhaços mudos, Penas, Aquele cara e O míssil, na qual a colaboração de Toninho Mendes é creditada. As duas últimas, atualíssimas, dialogam com o estado policialesco do Brasil sob o golpe desde 2016.

Toninho Mendes não imaginava que a organização de Modelo vivo seria seu último grande trabalho, mas não poderia haver despedida em melhor estilo: “o melhor de” Laerte, uma artista ainda absolutamente necessária.

Entre o cômico e o trágico, a prosa inteligente de Sebastião Nunes

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução
Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

 

Não deve ser fácil a vida de ficcionistas na república da delação premiada. É difícil concorrer com o enredo que se descortina no Brasil, sobretudo desde há pouco mais de um ano.

No texto de apresentação de Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo [Edições Dubolsinho, 2017, 176 p.], novo livro de Sebastião Nunes, o jornalista e poeta Fabrício Marques aponta Joaquim Silvério dos Reis como o patrono da delação premiada. Não à toa o traidor é personagem de um dos contos do livro: Quando Tiradentes arrancou um dente a Joaquim Silvério e o que aconteceu depois. O autor classifica os textos como crônicas, mas já que, como diria Mário de Andrade, “conto é tudo a que chamamos conto”, opto por esta classificação.

Os textos do volume são todos dedicados a encontros improváveis, a maioria absoluta fruto da fértil imaginação do escritor mineiro, um dos mais originais de nossas letras. Foram originalmente publicados em 2015 no jornal online GGN – ele continua colaborando periodicamente com o portal, quem sabe em breve não pinta um volume dois?

Escritor, editor e artista gráfico, Sebastião Nunes é responsável por tudo no volume, desde a invenção dos encontros, passando pela diagramação e ilustração das histórias, reunidas em volume da editora Dubolsinho, brava e resistente como o autor, um dos cotistas-fundadores de uma experiência fundamental para a (boa) literatura brasileira.

O escritor já desferiu petardos certeiros contra nossas ridículas publicidade e classe média, em livros tão fundamentais quanto pouco conhecidos: Somos todos assassinos e Decálogo da classe média.

Sebastião Nunes coloca seu arsenal a serviço das ideias que quer transmitir. Suas personagens são pinçadas de diversos campos artísticos, de literatura a música, passando por pintura, cinema e dança, além de mitologia, política e crime, áreas que mais do que nunca andam se atritando. Sua erudição – conhece a fundo diversos episódios da história do Brasil e do mundo – não aparece de forma gratuita nem torna enfadonhas suas narrativas, prestando-se a garantir-lhes verossimilhança.

A grande maioria das histórias é hilariante, com o sorriso do leitor penetrando na imaginação do escritor diante da (im)probabilidade de esta ou aquela cena ter mesmo acontecido. Por vezes nos pegamos pensando no quão reais são determinados diálogos. Ou poderiam ser.

Em O jantar de José Olympio em homenagem a Guimarães Rosa, o famoso editor, ao erguer uma taça para brindar, busca provocar uma intriga entre Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, presentes ao evento. Em Machado de Assis recebe, na ABL, o poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, este não fala em poesia, mas conta uma piada de brasileiro que faz rir confrades da Academia e leitores de Começa a envelhecer a mulher mais bonita do mundo.

Poucos são os momentos trágicos do livro, como em Machado de Assis colhe versos no túmulo de Carolina, O poeta Carlos Drummond de Andrade se despede da filha morta, Debaixo do pijama azul, uma camisa do Fluminense respingada de vômito, que acompanha os últimos dias de vida dos escritores maranhenses Coelho Neto e Humberto de Campos, e “Em que logar irás passar a infancia, tragicamente anonymo, a feder?!…”, em que o poeta Augusto dos Anjos lamenta a perda do filho.

O “rir pra não chorar”, o “seria trágico se não fosse cômico” da realidade atual também comparece à prosa elegante de Sebastião Nunes. Na seara política, Pedro Malasartes decide ser prefeito, com todas as regalias e vantagens da função, e JK, Chateaubriand e Zé Maria Alckmin divagam sobre a construção de Brasília.

Talvez seja fácil ser ficcionista no Brasil, onde abunda matéria-prima. O problema é que nem todo ficcionista se chama Sebastião Nunes (ou Nuvens).

Disco de banda integrada por Guilherme Arantes ganha reedição

Moto Perpétuo. Capa. Reprodução
Moto Perpétuo. Capa. Reprodução

 

Lançado originalmente em 1974, o único disco do Moto Perpétuo, que leva apenas o nome da banda, acaba de ganhar nova reedição em cd. O grupo, que tinha entre os membros Guilherme Arantes (teclado e vocal) antes da carreira solo, se completava com Gerson Tatini (contrabaixo e vocais), Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocal) e os já falecidos Egydio Conde (guitarra solo e vocais) eDiógenes Burani (percussão e vocais).

Do quinteto, somente Guilherme Arantes alcançou sucesso de público, em carreira solo. Cláudio Lucci tocou em Façanhas (1991), de Arrigo Barnabé, e no disco de José Miguel Wisnik que leva seu nome (1992), e pôs a voz (coro) no discos A light at the end of the tunel (1992), de Celso Pixinga, e Ópera do malandro – ao vivo (2003), coletivo sobre a obra de Chico Buarque; Conde tocou em Ligação (1983), de Guilherme Arantes; e Burani tocou em Build up (1970), de Rita Lee, e nos antológicos Ou não (1973) e Revolver (1975), de Walter Franco.

O som progressivo do Moto Perpétuo dialoga com bandas como O Som Nosso de Cada Dia – que também chegou a ter Egydio Conde como integrante –, Som Imaginário e A Barca do Sol. A sonoridade do álbum também dá pistas do que viriam a ser os primeiros discos solos de Guilherme Arantes – que assina sozinho nove das 11 faixas de Moto Perpétuo.

Ao contrário do que possa indicar o título, no entanto, o álbum é curto: tem pouco mais de 37 minutos. A ideia da peça sem fim faz sentido, no diálogo da última faixa, Turba, com a primeira, Mal o sol. Aquela encerra: “bom dia, café com leite/ bom dia planalto/ que diabo o cinza desse asfalto”; enquanto esta começa: “A partir da cama num hotel de fronteira/ olhos de água céu e missa/ ao calor do dia ou à sua certeza/ mal o sol amarelecera no céu”.

Laerteficando

 

Laerte é uma das mais instigantes artistas brasileiras em todos os tempos. Em mais de 40 anos de carreira, sua obra, diversa, sempre dá o que pensar, sobretudo no campo político – identificada com a esquerda, já percorreu uma ditadura militar, diversos passaralhos e agora o golpe em curso no Brasil. Está sempre em mutação. Ou melhor dizendo: em evolução.

Artista e obra confundem-se, sobretudo a partir de quando ela revelou-se crossdresser. O grande trunfo de Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva [documentário, Brasil, 2017, 100 min.], primeiro longa-metragem brasileiro do Netflix, é justamente não tentar explicá-la, nem rotulá-la. O que redundaria em simplificá-la.

É Laerte na intimidade, entre um cotidiano prosaico – brincar com os netos, as gatas, passar café, a reforma da casa, visitas ao filho Rafael Coutinho –, lembranças da infância, pontuadas por vídeos caseiros, o trabalho – a artista desenha diante das câmeras e algumas tiras e cartuns clássicos aparecem – e o corpo – ensaios fotográficos, compra de roupas e depilações são também mostrados, sem exageros ou sensacionalismo.

Além de desenhista consagrada – e sempre decisiva – já há algum tempo Laerte arrisca-se na televisão: apresenta o Transando com Laerte no Canal Brasil, programete de entrevistas de 15 minutos. Em Laerte-se, ela experimenta o outro lado. Percebemos certa timidez, não ensaiada. O filme começa com uma troca de e-mails entre ela e Eliane Brum, ela tentando fugir de uma sessão de gravações, até que a documentarista convence-a de que não era adiar que ia deixá-la mais à vontade.

E é assim que a encontramos, em geral, ao longo da hora e 40 de documentário: sentada no sofá de casa, conversando, ou entre pincéis e lápis, usados em diferentes tipos de papel ou no corpo – lápis de sobrancelha, delineador, batom.

Ao depoimento de Laerte somam-se trechos de entrevistas, debates, protestos e a Ocupação dedicada à sua obra, no Itaú Cultural, em que ela desfila suas opiniões – também em construção. Além de em evolução, estamos diante de uma artista em descoberta, em autodescoberta, sempre honesta: “eu demorei a fazer isso. Foram 60 anos. Que risco eu corro a esta altura?”, indaga(-se) numa passagem.

Ao transgredir convenções e levar sua própria vida para suas tiras e cartuns – vide o personagem Hugo/Muriel –, além de em evolução, Laerte tornou-se também uma artista em experimentação. Mesmo que ela considere tardio ou fácil, talvez por pura modéstia, é ousado, sim. São alarmantes os índices de violência contra mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e Laerte, com sua atitude, mesmo sem querer, acaba se transformando em ícone da luta por empoderamento destes segmentos.

Em Laerte-se também não se tenta santificar sua protagonista: ela reconhece, por exemplo, sem perder o bom humor, que permeia o filme, já ter protagonizado alguma hostilidade a homossexuais, do que hoje se arrepende e se envergonha, para voltarmos ao quesito evolução.

Já imagino o discurso preconceituoso e raivoso dos que preferem ter excrescências como mito, mas ao contrário do que algumas mentes doentias possam imaginar, o imperativo do título não indica uma aula de como mudar de gênero ou coisa que o valha. Laerte-se é uma aula de diversidade, transgressão, afeto e bom humor. Basta estarmos dispostos a aprender um pouco.

As lâminas despidas de Nuno Ramos

Uma das peças de Só lâmina, com os versos "igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso"
Uma das peças de Só lâmina, com os versos “igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso”

 

Nuno Ramos é um dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade. E além de artista, um pensador das artes. Artista plástico, compositor (assina 11 das 12 faixas de Pedaço duma asa, de Mariana Aydar) e ensaísta, para citarmos apenas algumas de suas multiplicidades – em nenhuma delas ele se contenta em ser “meia boca”.

Ele não vem à São Luís, mas o Sesc/MA inaugurou hoje (18), em sua Galeria de Artes na Praça Deodoro (Centro), a exposição Só lâmina, baseada no poema Uma faca só lâmina, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, de 1955, e dedicado ao também diplomata Vinicius de Morais.

As 10 telas de Só lâmina são de 2007. Oito medem 1,55×0,75 e duas medem 1x1m. Nuno Ramos usa espelho/vidro, metal, pelúcia e tinta a óleo para compor os desenhos em relevo, que simulam a violência do movimento da lâmina, como a rasgar a delicadeza humana – como no poema que evoca.

Nas placas de metal, trechos dos versos cabralinos. “Das mais surpreendentes/ é a vida de tal faca:/ faca ou qualquer metáfora,/ pode ser cultivada./ E mais surpreendente/ ainda é sua cultura:/ medra não do que come/ porém do que jejua.”, diz um trecho do poema.

Nuno Ramos não se contenta com o bidimensional das telas. Só lâmina se completa com a escultura sonora Carolina, colagem sonora de palavras do cotidiano, trechos de músicas e poemas ditos pelos atores Gero Camilo e Marat Descartes por mais de duas horas, além do vídeo Luz negra, de pouco mais de 10 minutos, realizado em parceria com o artista Eduardo Climachauska, o Clima, cujo experimento é tocar sob a terra Juízo final, de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho, compositor cuja vida e obra já foi tema de ensaio de Nuno Ramos (publicado na edição inaugural da revista serrote [IMS, março/2009], teve trechos aproveitados no encarte de Rei vadio, disco de Rômulo Fróes dedicado ao repertório do sambista). A morte que permeia toda a obra do homenageado é vista (e ouvida) por outra perspectiva.

Em cartaz até 14 de julho, Só lâmina pode ser visitada gratuitamente das 9 às 11h e das 14 às 17h, em dias úteis. O poema de João Cabral começa: “Assim como uma bala/ enterrada no corpo,/ fazendo mais espesso/ um dos lados do morto;/ assim como uma bala/ do chumbo mais pesado,/ no músculo de um homem/ pesando-o mais de um lado;”; e termina: “por fim à realidade,/ prima, e tão violenta/ que ao tentar apreendê-la/ toda imagem rebenta”.

Clique sobre os verbos para VER Luz negra, LER e/ou OUVIR Carolina.

Dylan Dog terá três edições publicadas este ano no Brasil

A primeira, Retorno ao crepúsculo, já está nas bancas

Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução
Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução

Os 30 anos da primeira publicação de Dylan Dog passaram em brancas nuvens no Brasil em 2016. A novata editora Lorentz busca agora corrigir o erro e promete três histórias do “investigador do pesadelo” para este ano. A primeira, Retorno ao crepúsculo, publicada originalmente na Itália em junho de 1991 (no número 57 da hq), já está nas bancas.

O roteiro é de Tiziano Sclavi, criador do personagem, e arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, e a história se passa em Inverary, cidade localizada na Zona do Crepúsculo, um lugar em que ninguém envelhece ou morre, onde todos os dias são absolutamente iguais.

Dylan Dog deixou de ser publicado no Brasil em 2006, como lembra Júlio Schneider no posfácio – ele que também traduz esta hq, que mistura terror e bom humor, seja nas piadas infames de Groucho, o assistente de Dylan Dog, que homenageia o xará Marx, seja no pânico de Edgar Allan Poe, que também se assombra com a Zona do Crepúsculo.

Se hoje Dylan Dog anda forçadamente esquecido, eis uma importante contribuição para mudar este quadro. O personagem chegou a protagonizar a fumetti – como são chamadas as revistas em quadrinhos na Itália – mais vendida na terra de Umberto Eco, intelectual falecido ano passado, que chegou a declarar: “posso ler a Bíblia, Homero e Dylan Dog por dias e dias”. Não à toa ele próprio virou personagem em uma hq do detetive cujo charme reside também em dirigir um modesto fusca.

Aberta ontem, Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até dia 20 em São Luís

Foi aberta ontem (15), às 19h30, em São Luís a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos (antes Mostra Cinema e Direitos Humanos no Mundo e antes ainda Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul), em sessão concorrida – havia gente em pé e sentada nas laterais do Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), superando a capacidade da sala, de 120 lugares.

Houve discotecagem e coquetel no hall do Odylo antes da abertura da sala, onde já haviam sido realizadas, ontem, duas sessões vespertinas, exibindo curtas-metragens – a Mostrinha é uma novidade da programação deste ano, com filmes voltados para o público infantil.

Na solenidade de abertura, falas de Janet Rockenbach, curadora da Mostra, Nat Maciel, produtora local, e Francisco Gonçalves, secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular. A primeira disse ter assistido entre 160 a 180 filmes, número que pode ser considerado baixo, mesmo em se tratando da produção restrita ao tema da Mostra – Direitos Humanos, de modo geral, e particularmente, Gênero, questão abordada na Mostra Temática. A homenageada desta edição é a cineasta Laiz Bodansky, que tem sete filmes exibidos na Mostra Homenagem.

É mais uma evidência do descaso do governo ilegítimo de Michel Temer para com o assunto. Entre os vários motivos para número baixo de inscrições pode estar o período curto para que realizadores inscrevessem seus trabalhos no edital público lançado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania em novembro passado – quando normalmente, nas 10 edições anteriores, a Mostra já estava acontecendo.

A Mostra começou em 2006, ainda durante o primeiro mandato do presidente Lula, à época abrangendo apenas algumas capitais. Seguiu acontecendo anualmente, sempre entre outubro e dezembro, período próximo ao aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 10 de dezembro), inserindo-se nas comemorações da efeméride, tendo atingido todas as capitais. 2016, após a destituição da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, foi o primeiro ano em que a mostra não foi realizada, voltando agora, descolada do calendário original – 18 de maio é o Dia nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, alusão ao assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, em Vitória/ES, em 1973, como contada pelo maranhense José Louzeiro no romance-reportagem Araceli, meu amor [reeditado pela Prumo em 2013].

Em suas falas durante a solenidade de abertura, Nat Maciel e Francisco Gonçalves lembraram o conturbado momento político vivido pelo Brasil. “É preciso que este cinema esteja cheio em todas as sessões, de modo que não possa haver o argumento de que a gente não merece a Mostra por que ninguém vem ver os filmes”, argumentou ela. Ao fim da fala dele, que lembrou a onda de ódio que toma conta não só das redes sociais, ouviram-se uns poucos gritos de “Fora, Temer!”. Depois a plateia aplaudiu uma performance de dublagem de uma drag queen.

Depois que te vi. Frame. Reprodução
Depois que te vi. Frame. Reprodução

A sessão de abertura exibiu o hilariante Depois que te vi [Brasil, 2016, 16 min.], de Vinicius Saramago, que aborda a vida de Gustavo, autista que trabalha como caixa e entregador na farmácia do tio, de sua vida pacata e seu cotidiano autômato até a descoberta de uma grande paixão. O autismo é abordado com bom humor para delírio da plateia.

Na sequência, completou a noite o documentário De que lado me olhas [Brasil, 2014, 15 min.], de Ana Carolina de Azevedo e Helena Sassi, com depoimentos de adolescentes transexuais. Tema importante e urgente, o filme ousa no conteúdo, mas a forma é batida, com sua sequência de personagens reais.

Menos mal não ter sido encerrada por um governo que vem se esforçando por retrocessos e cassação de direitos, a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até o dia 20 de maio, no Cine Praia Grande. A entrada é gratuita em todas as sessões e a programação completa pode ser conferida no site da Mostra.

Em tempo, uma curiosidade: entre realizadores, patrocinadores e apoiadores no material de divulgação da Mostra não vemos a marca do Ministério da Cultura.

Claudio Lima: um artista único

[release]

Em seu terceiro disco, cantor revela-se também compositor. Rosa dos ventos será lançado em show no próximo dia 27 de maio

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução
Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

POR ZEMA RIBEIRO

Cada disco de Claudio Lima é único. O artista não repete fórmulas, se arrisca, ousa, nunca se acomoda em uma zona de conforto. É um dos mais talentosos cantores brasileiros em atividade. A cada disco, cuida de cada detalhe: da seleção de repertório – só canta o que lhe emociona – ao projeto gráfico: artista talentoso também nessa seara, já emprestou seus dotes a discos de Bruno Batista e Cecília Leite.

Isto talvez explique o grande intervalo entre um trabalho e outro: cinco anos de Claudio Lima (2001), a estreia, a Cada mesa é um palco (2006), dividido com Rubens Salles, pianista baiano radicado nos Estados Unidos, e mais de 10 entre o segundo e este Rosa dos ventos (2017), que lançará em show no próximo dia 27 de maio (sábado), às 20h30, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro) – os ingressos antecipados custam R$ 20,00, à venda na Livraria Leitura (São Luís Shopping); no dia do espetáculo, R$ 30,00, na bilheteria do teatro.

A história de Rosa dos ventos, o disco, começa em 2012, quando Claudio Lima levou para casa o troféu de melhor intérprete no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense. A composição de Bruno Batista, que gravou-a em seu (2013), levou a estatueta de melhor música e com o dinheiro do prêmio, Claudio Lima começou a arquitetar o novo álbum, cuja realização se completou com o patrocínio do Centro Elétrico através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Em Rosa dos ventos o artista debuta como compositor: sozinho ou em parceria, assina metade das 14 faixas, alicerçadas pelas bases eletrônicas de Eduardo Patrício, com quem divide a produção musical. A ele, com seus loops, efeitos sonoros, sintetizadores, baixo, marimba e programação de xilofone, somam-se João Simas (guitarra, baixo, teclado e loops de bateria), Pablo Habibe (guitarra e violão), Rui Mário (sanfona, piano e violoncelo), Roberto Chinês (cavaquinho e bandolim) e João Neto (flauta).

Há poema de Walquiria Almeida musicado (Não seja burra baby), versão de Franz Schubert (Der wegweiser virou Caminhos ocultos), o funk Não sou refém da maioria, cuja mensagem pode ser uma espécie de cartão de visitas do cantor, além de parcerias com Mário Tommazo (Parapapá e Melodia sentimental) e Marcos Tadeu (Só me resta regar tuas petúnias e Falta flauta).

O cantor em retrato de Alison Veras
O cantor em retrato de Alison Veras

Antenado, Claudio Lima reúne ao menos três gerações de compositores maranhenses na ativa, atestando a si mesmo como um “pescador de pérolas”, expressão que não à toa já intitulou disco de outro grande cantor brasileiro.

Rosa dos ventos abre e fecha com o olhar poético sui generis de Celso Borges sobre a cultura popular e a capital maranhense: a toada Boi tarja preta (parceria com Alê Muniz), em que dessacraliza o bumba meu boi, e a pedra de responsa São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae), versão para o clássico Shaperville, de Michael Riley.

Marcos Magah também comparece com duas músicas ao repertório: Salomé minha dor (parceria com o poeta Fernando Abreu) e Nem os cadáveres sobreviverão (com Acsa Serafim), ambas já testadas (e aprovadas pelo público) em shows de Claudio Lima. Quem também lhe fornece um par de pepitas é Bruno Batista: Esmolas e a faixa-título. O repertório se completa com o samba Pingão, de Tiago Máci, recheado de ludovicensidade, crítica social e fina ironia.

Claudio Lima faz música e é impossível rotulá-lo além disso. Sobre a demora deste Rosa dos ventos o que se pode dizer é que valeu a pena esperar. Ele afirma já ter repertório e já estar trabalhando no próximo disco, mas a letra de Não sou refém da maioria pode responder a eventuais cobranças mais apressadas: “não me queiram enquadrar/ em nenhum padrão vulgar/ onde eu tenha que concordar/ o meu molde se quebrou”.

Não é apenas cada disco de Claudio Lima que é único: ele próprio o é.

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Clique aqui para ouvir Rosa dos ventos, o novo disco de Claudio Lima.

Graphic novel mergulha na vida e obra de Carolina Maria de Jesus

Carolina. Capa. Reprodução
Carolina. Capa. Reprodução

 

O professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença causou polêmica ao ecoar recentemente racismo, machismo e classicismo acadêmico em um evento em homenagem a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. Para ele, a principal obra da ex-favelada e ex-catadora não é literatura – o livro está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp. O professor foi rebatido pelos poetas Ramon Mello e Elisa Lucinda, que saíram em defesa da escritora e de seu legado, já reconhecido por nomes como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector – que esteve na noite de autógrafos de seu livro de estreia, em 1960.

“A menina Bitita, mineira de Sacramento, arrombou a porta estreita e branca da elitista literatura brasileira ao tornar-se Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. O livro, quando lançado em agosto de 1960 em sucessivas edições, alcançou a marca de 100 mil exemplares vendidos em poucos meses, superando em vendas naquele ano, Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado, e foi publicado em 40 países e 14 línguas”. Assim a professora Sirlene Barbosa inicia o artigo que serve de posfácio a Carolina [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 39,90], graphic novel biográfica da escritora, com pesquisa e argumento dela e roteiro e desenhos de João Pinheiro.

Ele já havia dedicado graphic novels a biografias de escritores antes: Kerouac [Devir, 2011] e Burroughs [2015, Veneta]. Uma característica de seu trabalho é seu traço versátil adaptar-se às realidades de seus personagens reais: o preto e branco de Carolina parece imitar carvão ao dar o tom certo à miséria humana vivida pela escritora e seus vizinhos de favela do Canindé – onde hoje está localizado o estádio da Portuguesa de Desportos.

Carolina Maria de Jesus foi personagem complexa e por vezes contraditória. Enfrentou preconceitos os mais diversos: por ser negra, pobre, mulher. Aliás, passados 40 anos de sua morte, continua enfrentando, como demonstra o episódio envolvendo o professor. Sirlene Barbosa e João Pinheiro mergulham profundamente na tragédia humana que lhe cerca, mostrando a realidade nua e crua e por vezes cruel. Muitas vezes a escritora foi vítima de preconceito entre seus iguais, isto é, os vizinhos de barracos no Canindé.

A narrativa de Carolina é bastante apoiada em Quarto de despejo: diário de uma favelada, que teve a primeira edição publicada por iniciativa do jornalista Audálio Dantas, que descobriu a escritora meio que por acaso ao cobrir uma pauta para a então Folha da Noite: Carolina ameaçava tornar seus vizinhos personagens do livro que estava escrevendo, reagindo à antipatia deles, para quem ela não passava de uma pobre solteirona metida e fedorenta – às vezes faltava dinheiro para comprar sabão e não foram poucas as vezes em que passou fome junto com os filhos.

“Não são ratos, não são abutres…”, “… são gente”, dizem os quadrinhos a certa altura, apresentando a paisagem violenta por todos os ângulos: desagregação familiar, violência contra a mulher, abuso de álcool e a disputa entre humanos e animais por comida, evocando o poema O bicho (1947), de Manuel Bandeira: “Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ (…)/ o bicho, meu Deus, era um homem”.

Carolina passeia pela vida e obra da escritora que lhe batiza, certamente ajudando a jogar luzes sobre aquela e angariar novos leitores para esta, que segue sendo apontada como influência: Quarto de despejo: diário de uma favelada foi o primeiro livro lido pela também escritora, negra e mineira Conceição Evaristo, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) este ano e atualmente é tema de uma Ocupação no Itaú Cultural.

O canto de Juraildes

Juraildes da Cruz começou a despontar em festivais de música em 1976, mesmo ano em que Xangai lançava seu primeiro disco. Sua estreia fonográfica só aconteceria em 1990, com O cheiro da terra.

O baiano é um dos maiores intérpretes do tocantinense, responsável pela popularização de seu talvez maior hit, Nóis é jeca mais é joia – título de um disco que dividiram, lançado pela Kuarup em 2005 –, uma crítica a nosso complexo de vira-latas, com seu refrão direto: “se farinha fosse americana, mandioca importada/ banquete de bacana era farinhada”. A música venceu o Prêmio Sharp (hoje Prêmio da Música Brasileira) em 1998, na categoria melhor música regional.

Outras composições de destaque de Juraildes da Cruz são Dodói (gravada por Titane em Sá Rainha, de 2000), Quem ama perdoa (lançada por Genésio Tocantins e regravada por Xangai em seu disco mais recente), e Meninos (gravada por Dércio e Doroty Marques no antológico Monjolear, disco infantil de 1996), que parece traduzir sua sina: “quero acordar com os passarinhos/ cantar uma canção com o sabiá”, diz um trecho da letra.

Versátil, sua música pode tanto trazer crítica social quanto cantar o cotidiano de camponeses ou o amor, o mais universal dos temas. Tudo isto certamente comparecerá ao repertório de sua apresentação no próximo domingo (7), às 16h, no Sarau Sereno Cultura e Arte (Rua das Perçoeiras, 100, Quintas do São João), em São José de Ribamar, com ingressos popularíssimos a apenas R$ 10,00. A primeira visita do artista ao Maranhão aconteceu há mais de 10 anos. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação
Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação

É a primeira vez que você vem ao Maranhão?
Não, a primeira vez foi em 2005, pela Funarte [a Fundação Nacional de Artes, órgão vinculado ao Ministério da Cultura].

Naquela ocasião você chegou a passear, conhecer algo?
Dessa vez que eu estive aí pela Funarte não tive a oportunidade de passear, conhecer o Maranhão, por que foi bem rápido.

Nessa vinda agora, com mais tempo, pretende conhecer? E da música do Maranhão, você já foi apresentado a algum nome? Há alguém de quem se lembre?
Não sei se dará tempo, mas será uma boa oportunidade. Conheço Zeca Tocantins, Carlinhos Veloz, Zeca Baleiro…

Você começou a carreira na mesma época em que Xangai, no entanto tem uma discografia menor. A que você credita isso?
Eu não comecei a carreira na mesma época; eu comecei muitos anos atrás, em 1976, 78, em festivais, participei do festival da Tupi, onde participaram vários ícones da música popular brasileira, na época começando, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, até o Caetano Veloso participou desse festival, Jackson do Pandeiro estava lá. Nós tivemos a oportunidade de participar desse festival, então aí que a gente começou. Eu comecei mesmo a partir de meu primeiro disco, que foi em 1990. O primeiro disco do Xangai foi em 1976 e o meu primeiro foi em 1990, então há uma caminhada já bem longa do Xangai, bem anterior à minha.

Suas músicas mais conhecidas foram gravadas por Xangai, Genésio Tocantins e Titane. O que estes parceiros e intérpretes significam para você?
O Genésio Tocantins foi meu primeiro parceiro, a gente trabalhou juntos, passamos por vários festivais. Xangai foi meu maior incentivador, admira meu trabalho, grava músicas minhas até hoje, e a Titane também gravou uma música, Dodói, são pessoas assim, que ajudaram a semear a semente de Juraildes da Cruz.

Qual a base do repertório desta sua apresentação em São José de Ribamar?
A base do repertório são algumas músicas mais conhecidas. Como é um público mais específico, tem músicas novas, músicas de reflexão, músicas com uma leitura de nosso tempo, nossa sociedade, e também ligadas ao lado espiritual.

Sua Nóis é jeca mais é jóia venceu o Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Passado algum tempo e após o sucesso da música, o brasileiro parece ainda não ter se livrado de seu complexo de vira-latas. Por que você acha que o brasileiro aprecia tanto e tenta imitar o que vem dali, às vezes pouco se importando com artistas e obras mais interessantes?
Na verdade, os maiores meios de comunicação do Brasil são, nada mais, nada menos, do que uma central dos Estados Unidos em nosso país. Como já dizia Elomar, a maior ogiva nuclear que os Estados Unidos lançou no mundo não foi a bomba atômica, e sim o cinema, onde eles colocam, através do cinema, sua cultura, seu jeito de ser, a sua aparentemente melhor maneira, a melhor moda, entende? Então o Brasil não é diferente de outros países que são minados em sua cultura, em seus costumes, pela força da mídia internacional. O que parece que vem de fora sempre será mais bonito para quem não tem uma informação, quem ainda é provinciano, no sentido de valorizar sua cultura. Então, vamos sempre ter essa, melhor não dizer sempre, um dia poderemos ser mais originais e valorizar mais o nosso quintal, o que é nosso, o que é Brasil.

Você falou sobre a interferência americana na soberania nacional. Como avalia o atual momento político vivido pelo Brasil?
O momento mostra um Brasil exposto, com todas as fraturas possíveis expostas, uma casa totalmente arrombada, sem dono e por isso mesmo sucateada de todos os lados. Realmente é o fundo do poço, só há uma alternativa: emergir, renascer. Acho complicado, pois não temos peças de reposição confiáveis. O ideal seria que novos no poder representassem mudanças, transformação pra melhor e que não fosse apenas um novo jeito de continuar sangrando o país.

Lembrando que este governo é machista, ano passado você venceu um concurso de músicas sobre a lei Maria da Penha. É uma preocupação tua, em teu trabalho, trazer sempre uma mensagem importante, de cunho social?
Meu pensamento tem uma função crítica também, é com se [eu] fosse um sentinela, observador dos acontecimentos. O compositor tem essa oportunidade de retratar a sociedade e tornar acessível, trazer de forma mais clara o que está oculto aos olhos da multidão.

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Ouça Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz), com o autor: