Single dá pistas do novo disco de Marcos Magah

Cantor lança duas faixas em show nesta sexta-feira (21) no Odeon; disco novo sai em agosto

O cantor e compositor Marcos Magah lança nesta sexta-feira (21), às 21h, em show no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o single Devolva meus discos do Odair José/ Tito (O que morreu esmagado por uma geladeira). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.

As faixas não estarão no repertório de O homem que virou circo, terceiro disco de Magah, que será lançado em agosto. “Estas duas músicas indicam um caminho do que vai ser esse álbum. Eu não gosto de me repetir. Eu lanço uma coisa, eu não revisito. Esse single indica por que caminho nós vamos mais ou menos andar”, adianta.

Magah classifica Tito, parceria com o poeta Celso Borges, que participa da faixa, como “um xaxado psicodélico”. A música conta a história real de um homem que, como entrega o subtítulo, morreu esmagado por uma geladeira. Já Devolva meus discos do Odair José marca a estreia de Magah como intérprete – a música é uma parceria de Inácio Araújo e Leide Ana Caldas, de Os Carabinas, banda que abre a noite – que terá ainda discotecagem de Hugo Bodansky.

Para Magah, trata-se de “um típico clichê brega clássico”, dando mais pistas do que vem por aí. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

"Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo". Foto: Marco Aurélio
“Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo”. Foto: Marco Aurélio

Você vai lançar um single, com duas músicas, revivendo a tradição de antigamente, dos compactos, neste caso antecedendo um disco cheio. Como você avalia esta, digamos, volta às origens da indústria fonográfica?
Eu acho que o vinil é uma espécie de “a volta dos que não foram”. O vinil nunca foi totalmente abandonado. Eu, particularmente, sou colecionador de vinil. Agora, falando concretamente sobre essa coisa de ele estar vindo e as pessoas se interessando, comprando, a indústria lançando, eu acho que a indústria está tentando no meio dessa confusão toda em que se transformaram as gravadoras e o mercado de música, tentando se reinventar, tentando encontrar um jeito de que isso possa continuar sendo consumido. Eu, quando vi aquele negócio de cd, nunca comprei essa ideia, tudo muito pequenininho, a parte gráfica perde muito. Eu sabia que o vinil, como um grande guerreiro, ia continuar vivendo. Eu acho maravilhosa essa volta do vinil, acho fantástico.

Tito é um personagem verídico e sua morte, esmagado por uma geladeira, de fato ocorreu. Gostaria que você comentasse um pouco este personagem, a ideia da homenagem e a parceria e participação especial do poeta Celso Borges.
Eu só falo o que eu vi. Tito, de fato, morreu esmagado por uma geladeira, por mais absurdo que isso possa parecer. Era um cara que trabalhava lá em Bacabal, em caminhão de mudanças. É uma cena meio maluca, surreal. As pessoas acham que uma pessoa não pode ser esmagada por uma geladeira. Claro que pode. Uma geladeira velha, sem gás, ela pesa. A geladeira da minha vó, pelo amor de Deus, eram uns quatro homens para carregar. Brinca também com esse universo, das coisas antigas que eu via na casa da minha vó. É uma homenagem minha ao Tito, um cara por quem eu tinha muito carinho, e ele por mim. A geladeira também pode ser vista como a realidade, essa realidade dura que a gente vive, que te esmaga. Todo dia a gente morre esmagado pela geladeira da realidade, uma realidade cada vez mais monstruosa, onde a vida se mostra cada vez mais dura, as pessoas mais duras, tudo está mais duro. A sensação dessa coisa do politicamente correto parece querer botar uma fleuma, uma pluma por cima disso, mas a realidade é muito complicada. A realidade é a geladeira, caindo por cima da gente todo dia. Eu comecei a pensar nessa música em São Paulo, quando eu estava com Celso. Celso Borges tem se mostrado um parceiro, é o parceiro mais ativo que eu tenho hoje, é a pessoa com quem mais eu faço música, com quem mais eu bato papo, peço ajuda, encho o saco dele. A gente começou a pensar em São Paulo. Chegando aqui, perto de gravar, a gente finalizou. Hoje a gente se chama de Tito um quando olha o outro [risos], “e aí, Tito? E aí, Tito?”. Celso é um parceiro, um amigo querido que eu fiz. Eu era um fã, que virou amigo, que virou parceiro. Já dá pra bater a biela com um pouquinho de orgulho [risos].

Devolva meus discos do Odair José também é, então, autobiográfica? Há algo de inspiração buarqueana aí, com o cantor sendo o teu Neruda?
Na verdade Devolva os meus discos do Odair José é a primeira vez que eu gravo uma canção que não é minha, de todo, de eu pegar e fazer tudo. O Inácio e a Leide certo dia me mostraram essa música no apartamento deles. Eu produzo muito, pra gravar música dos outros é complicado. Mas quando eu ouvi, eu falei: “ei, eu vou gravar essa música”, e eles não acreditaram. Eu peguei e gravei. É uma composição da Leide e do Inácio. É uma brincadeira com o Chico Buarque, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu” [de Trocando em miúdos, parceria com Francis Hime]. É uma brincadeira que na verdade é uma sacanagem com o Chico Buarque, uma provocação.

Você se encontrou com Odair José recentemente, quando ele passou por São Luís para um show. Ele aprovou a homenagem e gravou imagens para um clipe teu. Conte um pouco mais desse encontro.
A gente se encontrou aqui em São Luís, ficamos de papo, foi uma experiência maravilhosa. Odair é um ser humano que vive em outro nível. Tu aprende tanto convivendo com um cara com uma alma como aquela ali. Odair é um ídolo, eu fiquei impressionado com o ser humano, com a figura dele. Parecia que eu tinha encontrado uma entidade. Nossa conversa foi muito sincera e muito aberta, por que nenhum dos dois está disposto a pagar de artista chilique [risos]. Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo, quem me conhece sabe disso, e Odair com toda sua grandeza não tem isso. Foi ótimo! O que mais me impressionou, além da figura dele, foi o fato de ele dizer pra mim que já conhecia meu trabalho, que gostava, e que adorou a música do Odair José, ele disse que morria de rir da parte do Neruda. Como ele já conhecia meu trabalho, a conversa andou por outro nível. Ele falou que ia no youtube escutar, eu fiquei lisonjeado. Eu lembrei de mim aquele molequezinho que amava Odair José, e de repente eu estava do lado do cara. Ele ficou feliz com a homenagem. Em relação ao clipe nós estamos vendo isso. Isso e outras novidades que talvez venham por aí. Eu acredito que o Odair vá participar, sim. A gente vai fazer um clipe lindo em homenagem a esse gigante da música brasileira. Foi um encontro espiritual [risos], digamos assim.

É a primeira vez que Wellyson [Melo, produtor de Z de vingança] toca contigo em palco, não é?
É a primeira vez. Os meninos ficaram maravilhados com a técnica dele. Os meninos da banda estão tipo assim: “pô, esse cara é desse planeta?”. Ele está tocando teclados e efeitos. Ele toca todos os instrumentos, pra tu ter uma ideia. É a primeira vez que a gente toca junto, assim. Ele vai estar também no show do dia 6 [de maio], do Marcelo Nova [Magah abrirá o show do roqueiro baiano no Fanzine Rock Bar]. Ele veio para o Maranhão e está louco para se incorporar ao negócio da banda. “Magah, eu não quero só gravar, eu quero tocar contigo!”. É um gigante, é como se ele passasse um verniz naquela loucura toda. É um arranjador, de fato, um cara com uma formação. Não sei o que esse cara viu no meu som, até hoje eu sou encabulado com isso.

Cláudio Lima lança em maio disco novo, Rosa dos ventos, com duas músicas tuas. É um dos grandes cantores brasileiros em atividade. O que significa para você tê-lo como intérprete?
Claudio Lima é um dos grandes cantores brasileiros. Está lançando um álbum fantástico, eu tenho escutado direto. Pra mim é uma honra. Quando eu escuto ele cantando minhas músicas eu fico feliz pra caramba. É um grande amigo. É um cantor fantástico, eu tenho a maior admiração, como intérprete, como pessoa. Quero que ele cante mais músicas minhas. E vem aí um discaço. Claudio está com um trabalho fora de série na mão. Vamos aguardar!

Odair José foi censurado pela ditadura militar brasileira. Recentemente a banda Alafia, ao se apresentar no Cultura Livre, na TV Cultura, sem o consentimento da idealizadora, curadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli, teve trecho de uma música em que criticam Doria e Alckmin, censurado. Como você avalia o atual momento político e cultural brasileiro?
Eu vejo o passado, com o seu lado mais nefasto, visitando o presente. A gente está vivendo uma época, coisas que talvez há quatro, cinco anos, nós não imaginássemos que fossem voltar. A História é assim, não é retilínea, é uma cobra que se esgueira e às vezes morde o próprio rabo. A gente está vivendo esse mar revolto, essa confusão toda dentro da política, às vezes vendo artista sendo censurado, em pleno 2017. Eu sempre fui muito [interrompe-se], quando eu escutava “nós temos uma democracia constituída, e tal, tal, tal, sedimentada, com bases sólidas”, eu nunca acreditei muito nesse discurso. Você não pega 30 anos de ditadura, que acabou engessando essas instituições políticas de maneira geral e vê amadurecerem assim. Esses 30 anos de ditadura ainda não foram vencidos. Então a gente fica vendo essas voltas, uns Bolsonaros, uns oportunistas, esses momentos de crise, a História tem provado isso pra nós, de discursos mais conservadores, acabam voltando e dando um viés para a História inimaginável. Essa da censura é terrível. Existe um lado que eu vejo como importante e salutar da questão: a polarização do discurso. Eu acho que dessa confusão toda vão sair coisas melhores, vamos amadurecer essa polarização. Eu acredito no atrito, tem que ter o atrito para que as coisas avancem, se não fica todo mundo escovando o dente de todo mundo. Eu acredito que desse atrito a gente pode colher frutos e avançar como sociedade, e aí sim, de fato, sedimentar valores humanitários, tentar levar a humanidade pra frente. A polarização do discurso às vezes é necessária. A gente fica preocupado, como artista, como cidadão, a gente está de olho e não pode esquecer que somos partes ativas da História, precisamos estar ligados. Mar revolto, mar revolto total. Vamos torcer para que daí consigamos avançar de fato. Em todas as áreas, não só na artística. A gente vê um judiciário completamente maluco e capenga, confusão política dos infernos, é um momento realmente complicado. Mas eu acho que o caos é o prenúncio de um novo tempo.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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