Espanto de ex-ilhado

Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução
Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução

 

Novo livro do poeta Dyl Pires, Éguas! [Pitomba!, 2017, 60 p.; R$ 20,00] é completamente distinto do Poema Sujo de Ferreira Gullar, mas é impossível não associá-los, longe de querer cair na comparação preguiçosa de que aquele é o Poema Sujo do século XXI ou coisa que o valha. Neste sentido são absolutamente distintos.

O Poema Sujo foi escrito ao longo de cinco meses em Buenos Aires, Argentina. Éguas! levou pouco menos de um mês, durante um período de férias do autor em São Luís, evocando a Ilha de sua infância e adolescência. Num e noutro a ilha pulsa, viva.

Ambos têm São Luís como cenário-personagem e foram escritos durante o exílio: forçado, no caso de Gullar, perseguido pela ditadura militar; voluntário, no caso de Dyl, radicado há quase década em São Paulo. Publicados em livro, ambos parecem ter sido feitos para a declamação em voz alta e têm a leitura em seu nascedouro.

O Poema Sujo chegou ao Brasil em uma fita k7 com a voz de Gullar e foi apresentado a um seleto grupo pelo diplomata Vinicius de Moraes. Antes de ser publicado Éguas! teve leituras em rodas de amigos e gente interessada em poesia, ocasiões em que o autor colheu e incorporou sugestões – experiência seguida também pelo editor Bruno Azevêdo, cujo work in progress exposto nas redes sociais também acatou sugestões ao resultado final do bonito projeto gráfico, um padrão de sua editora, ouso dizer.

Ao longo da última semana, já com a obra em mãos, sua voz e visão originais materializadas em papel, Dyl Pires realizou diversas leituras, espécies de avant-premières da noite de autógrafos que faz hoje (8), às 19h, no Chico Discos (Rua dos Afogados, 289-A, altos, Centro) – com Samarone Marinho, que lança Ser quando.

Tipicamente maranhense a expressão que dá título ao livro é “uma interjeição, um anúncio de que o extraordinário irrompeu no cotidiano”, anota Matheus Gato em “A dor real é ser ilha”, espécie de posfácio (cujo título é um verso) do livro-poema. De espanto a interjeição se reconfigura em admiração, quando descobrimos estar diante do melhor livro de Dyl Pires, flanando com o autor por ruas, culturas, episódios, gente viva e saudosa que homenageia.

“dizer do si mesmo da cidade que está em/ Cláudio Costa/ Mondego/ Binho Dushinka/ Jesus Santos/ como um grito primitivo do sonho”, erige o poema-monumento aos vivos, tributando também quem já se foi: “escorrem pelas carrancas da Fonte do Ribeirão/ servindo-se daquelas máscaras/ para se reapresentarem à ilha/ são eles/ João Alexandrino/ Padre Mohana/ Cipriana/ João do Vale/ Reinaldo Faray/ Valdelino Cécio/ Pierre Barroso/ Beto Bittencourt/ Cristóvão Alô Brasil/ Lopes Bogea/ Ambrósio Amorim/ Serginho Fontenele/ Zuza/ Wagner Alhadef/ Roberto Lameiras/ Jorge Babalaô/ Lauro Leite/ Rosclim/ Rui/ Carioca/ Terezinha de Jesus Rodrigues/ Eliane Ribeiro/ Terezinha Jansen/ Josemar/ Antônio Vieira/ Mestre Felipe/ Dona Teté/ Nelson Brito/ Rafael Bavaresco/ Marco Cruz/ Faustina/ Michol/ César Maranhão/ Mestre Leonardo/ Mestre Apolônio/ Fidel/ Seu Adalberto/ Moema/ Jackson Pires/ Ubiratan Teixeira/ Magno Aires/ Omar Cutrim/ Humberto do Maracanã/ José Chagas/ Herbeth Fontenele/ Nauro Machado/ Guilherme Teles/ Norberto Fabian Castellano/ Ana Duarte/ Lara Sena/ Ângela Gullar/ Aldo Leite/ Ferreira Gullar”, perdas sentidas pelo poeta e pela cidade-musa.

Imediatamente à frente anota: “as ausências são o lugar/ de onde melhor ainda se vê o futuro”. Com seu olhar de turista-estrangeiro-exilado, Dyl Pires afasta o risco de qualquer pieguice que acomete grande parte das obras de arte que se arriscam a cantar a cidade.

Dyl Pires eterniza momentos fugazes em seu livro-poema, como quando narra: “Dylson Bessa Junior/ endiabrado em sua cadeira de rodas/ desceu a Rua do Egito chutado/ como se quisesse fazer do perigo/ um cardume de morte e ressurreição/ e esquentar a primeira estrela vista aquela noite/ as mãos que o empurravam negociavam/ o arame farpado da fé com o destino/ naquela noite todos foram dormir em paz/ embora tenham sonhado com o céu/ de escuras estrelas das axilas de deus/ hoje de pensar dá medo”.

Seu personagem tornado criança, sem noção do perigo na Rua do Egito, dialoga com as crianças na Rua de Nazaré em uma fotografia de Pierre Verger de 1948 que ilustra o volume – a outra imagem do francês mostra crianças brincando na Fonte do Ribeirão. Talvez ser poeta signifique justamente isso: voltar a ser criança e, portanto, à capacidade de espanto. Por essas e outras, Éguas! já nasce clássico.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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