A poética ímpar de Hiroshima, meu amor

Hiroshima, meu amor. Cartaz. Reprodução
Hiroshima, meu amor. Cartaz. Reprodução

Até hoje, passados mais de 70 anos da tragédia que se abateu sobre a cidade, a simples menção da palavra Hiroshima remete à sua destruição por uma bomba atômica americana durante a segunda guerra mundial.

Quase 60 anos após seu lançamento, diversas salas brasileiras exibem uma versão restaurada de Hiroshima, meu amor [Hiroshima, mon amour; drama, França, 1959, 90 min., preto e branco; em cartaz em São Luís no Cine Praia Grande, sessões às 15h, exceto sexta e domingo], clássico de Alain Resnais que marcou sua estreia na ficção, quando já tinha um número considerável de documentários curtas-metragens no currículo.

Hiroshima, meu amor é uma espécie de metáfora documental: abre com dois corpos entrelaçados, ora cobertos de poeira (atômica?), ora de chuva (ácida?), passeando depois pela paisagem destruída da cidade-fênix japonesa e pelos corredores de um museu, que exibe os horrores da guerra e particularmente da destruição de Hiroshima, o que inclui escalpos de vítimas da bomba.

O encontro dos amantes, interpretados por Emmanuelle Riva e Eiji Okada, começa com a narração dela para os horrores presenciados e as negativas dele para tudo o que ela diz ter visto – “você não viu nada em Hiroshima”, ele repete várias vezes.

Ela é uma atriz francesa que está em Hiroshima para gravar um filme sobre a paz, cerca de 15 anos após o bombardeio. Ele, um arquiteto que nasceu e trabalha na cidade. Ambos casados, só têm seus nomes revelados no último diálogo.

Com roteiro da escritora francesa Marguerite Duras, o filme gira em torno deste encontro fugaz, levando o espectador a um jogo de lembrança e esquecimento entre acontecimentos do presente e do passado, sem facilidades por parte do diretor.

Enquanto ele tenta convencê-la a ficar mais uns dias em Hiroshima, ela conta como perdeu seu primeiro amor – verdadeiro? Único? –, justamente um soldado alemão, mais ou menos na mesma época em que Hiroshima foi destruída. A conversa mostra como, de uma forma ou de outra, suas vidas foram atingidas pela guerra.

Apesar das negativas iniciais do protagonista masculino estamos diante da encruzilhada entre memória e esquecimento, justiça ou resignação. Impossível não traçar um paralelo com o Brasil de décadas depois, pensando na impunidade irrestrita e vigente de agentes da ditadura militar.

Mestre que correu em paralelo aos da Nouvelle Vague francesa, Alain Resnais, em Hiroshima, meu amor, extrapola os limites do cinema, aliando-o a outras linguagens, tendo a música (de George Delerue e Giovanni Fusco) papel destacado, além das expressões artísticas observadas no museu.

Ao usar um fortuito caso de amor para tratar de temas tão duros, legou à humanidade um filme de poética ímpar. Após quase seis décadas de lançado, segue valendo a pena ser visto e creio que assim o será para sempre.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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