Agora sabemos por onde anda Belchior

O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução
O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução

 

“Se você vier me perguntar por onde andei/ (…)/ de olhos abertos lhe direi”: que falta faz um Belchior nestes tempos tenebrosos que vive o Brasil. Desaparecido há alguns anos, o bardo cearense faleceu esta madrugada em Santa Cruz do Sul/RS, destino final deste “jovem que desce do norte pra cidade grande”, “há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa”

O bigode mais importante da música brasileira já estava afastado de palcos e estúdios há alguns anos, mas é fato que sua obra nunca o deixou desaparecer por completo – o que não acontecerá nem agora, quando de sua subida – e nunca deixou de traduzir o Brasil à perfeição, “amar e mudar as coisas me interessa mais”.

“O passado é uma roupa que não nos serve mais”, mas parece que teimamos em usar, mesmo rota e apertada, que o diga o golpe em curso, que falta faz a mira do sobralense apontada para este estado de coisas, atendendo ao pedido de hashtags e blocos de carnaval: fora, Temer! Volta, Belchior! “Com fé em Deus, um dia/ ganha a loteria/ pra voltar pro norte”.

“O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias”, declarou o governador do Ceará Camilo Santana (PT) em uma rede social.

“Nossos ídolos ainda são os mesmos” e sexta-feira passada, quando Gildomar Marinho, radicado no Ceará, subiu ao palco para uma canja durante a apresentação de Wilson Zara no Buriteco Café, pedi-lhe que tocasse Conheço meu lugar, a minha preferida (escolha difícil) do repertório de Belchior: “o que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”.

Triste, me pego tentando sorrir de obituaristas que ainda caem na velha piada do quilométrico nome falso que Antonio Carlos Belchior (só isso!) inventou em entrevista à turma do Pasquim.

Mas “não há motivo para festa/ a hora é esta/ eu não sei rir à toa”. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco” que gasta os poucos trocados com discos, livros e jornais. Agora sabemos por onde anda Belchior. Sua volta pode ser impossível. Sua permanência, não: “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”.

Que venham as homenagens, a mais aguardada, certamente, o lançamento da biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, do jornalista Jotabê Medeiros, setembro que vem. “Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo)/ Desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto/ E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto/ Que a terra lhe seja leve”.

O horizonte musical comum de Kleber Albuquerque e Rubi

Contraveneno. Capa. Reprodução
Contraveneno. Capa. Reprodução

 

Os caminhos musicais de Kleber Albuquerque e Rubi começaram a se cruzar há 20 anos, quando o segundo ouviu o primeiro disco do primeiro e foi procurar o lendário Mário Manga (ex-Premeditando o Breque) para produzir também seu disco de estreia.

Suas estradas continuaram se cruzando ao longo da carreira, com um participando de discos do outro (Kleber é um dos principais compositores do repertório de Rubi), além da participação comum em trabalhos de artistas como Zé Modesto.

No fim do ano passado estrearam o show Contraveneno, batizado por parceria de Kleber com Flávvio Alves, poeta-produtor à frente da Sete Sóis, que lança os discos da dupla, e com que passaram por São Luís em outubro passado. O show virou disco. Era o horizonte comum que faltava em suas trilhas.

O clima intimista e delicado do show foi transposto para o registro, gravado ao vivo no estúdio Parede Meia. Rubi (voz e violão requinto) e Kleber Albuquerque (voz e violão), que assina o projeto gráfico do disco, são acompanhados por Mário Manga (violoncelo) e Rovilson Pascoal (guitarra e violão).

Kleber Albuquerque é um dos mais sensíveis e talentosos compositores de sua geração e Rubi está entre os melhores cantores do Brasil, quando se conjugam suas qualidades vocais e a seleção de repertório.

Poderiam ter optado por fazer um disco com o melhor destes 20 anos, mas talvez isso soasse óbvio demais. Entre as músicas de seus repertórios a mais conhecida é Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes), já gravada por ambos: “Deu meu coração de ficar dolorido/ arrasado num profundo pranto/ deu meu coração de falar esperanto/ na esperança de ser compreendido”, diz a letra.

Procura no Google e Geração (ambas de Kleber Albuquerque) completam a parte mais conhecida do repertório, ao lado do choro Cerol e da faixa-título, gravadas no disco Outras canções de desvio, de Flávvio Alves, parceiro de Kleber Albuquerque em ambas.

O gosto pela chamada música caipira é outra praia comum da dupla, evidenciada pelos registros plangentes de Castelo de amor (Nenzico/ Creone/ Barrerito), do Trio Parada Dura, que abre o disco, e Eta nóis (Luli/ Lucina).

Kleber e Rubi mostram que suas antenas captam ainda sinais tão distantes quanto os do pernambucano Juliano Holanda (de quem gravam Sem tempo) e a argentina Maria Elena Walsh (Como la cigarra).

A quem não conhece o trabalho de Kleber Albuquerque e Rubi, Contraveneno é ótima porta de entrada. A quem já conhece, há provas de que a safra de inéditas mantém o nível que pavimentou suas estradas – comuns: a caymmiana Milonga da noite preta e o hilariante reggae Papai Noel tomou gardenal (ambas de Kleber Albuquerque), que conta as aventuras de um bom velhinho que se cansa dos sininhos de natal e se aventura por outros ritmos na Jamaica e no Brasil.

Do repertório do Premeditando o Breque, Lava rápido (Wandi Doratiotto) fecha Contraveneno. Uma homenagem aos vanguardistas-paulistas, competentemente representados no disco por Mário Manga. Muito justa: afinal de contas, foi com ele que tudo começou.

Inusitado e emocionante

Graphic novel de estreia de Fabien Toulmé traz abordagem sui generis da síndrome de down a partir da experiência real do autor

Não era você que eu esperava. Capa. Reprodução
Não era você que eu esperava. Capa. Reprodução

Não era você que eu esperava [Ce n’est pas toi que j’attendais. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 2017, 254 p.; R$ 44,90], de Fabien Toulmé, é a mais emocionante graphic novel que leio em muito tempo. O traço aparentemente simples dá conta de repassar, com riqueza de detalhes, a história verídica do desenhista e os dramas em torno de uma filha com síndrome de down.

A história acompanha a vida aventureira do francês Toulmé e sua esposa brasileira Patrícia, com a filha Louise, da gravidez aos três primeiros anos de sua segunda filha, Julia, e aborda a situação com um delicioso misto de bom humor e crueldade (desde o título) – humano, demasiadamente humano.

Toulmé morou no Brasil, onde iniciou o pré-natal de Julia. Chega a criticar o sistema brasileiro de saúde pública no auge de sua revolta com “o que o destino lhe reservou” – o que ele só descobriria após o parto, apesar de todos os exames e o excessivo zelo ao longo da gestação.

Não era você que eu esperava é bastante didático sobre a síndrome de down, com este aprendizado incorporado à trama, no que Toulmé é bastante hábil: o que aprendemos é pelo relato das buscas dele por mais informações após o diagnóstico da condição de sua filha. Duas lições básicas, de cara: quem quer tranquilidade não visita fóruns de internet sobre estes temas (ou quaisquer outros); e não adianta se preocupar muito com o futuro: de um jeito ou de outro, ele virá.

De alguém completamente inábil em lidar com pessoas com deficiência – o álbum abre com uma cena de bullying – a alguém que passa a se revoltar com piadas envolvendo o tema, Toulmé aborda esta sua formação sem hipocrisia, numa estreia monumental.

Martírio é talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil

Martírio. Frame. Reprodução
Martírio. Frame. Reprodução

 

Um policial é assassinado e causa comoção em membros da bancada ruralista, após a viralização de um vídeo em que agoniza dizendo-se amigo de indígenas. Os conflitos entre Guarani-Kaiowas registram um placar de ao menos 50 lideranças indígenas assassinadas ao longo dos últimos 30 anos contra três policiais, embora a questão não seja relativizar ou hierarquizar a importância de vidas.

Martírio. Cartaz. Reprodução
Martírio. Cartaz. Reprodução

Nada é excessivo nas quase três horas de Martírio [Brasil, 2017, 160 min.], documentário em que o antropólogo e indigenista francês radicado no Brasil Vincent Carelli – narrador da película –, Ernesto de Carvalho e Tita registram a luta por terra da população indígena sul-mato-grossense, entre os rios Paraná e Paraguai. O filme amealhou entre outros prêmios os de melhor longa-metragem (especial do júri e do júri popular) no 49º. Festival de Brasília e melhor documentário (do público) na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo.

É talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil. Embora se concentre nos Guarani-Kaiowas e nos últimos 30 anos de História, cobre mais de 100 anos de luta indígena (as reivindicações pouco mudam, variando o grau de violência empregado contra os povos originários), abordando desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o decreto de Getúlio Vargas que institui 19 de abril como Dia do Índio, espécie de “prêmio de consolação” pelo “embranquecimento” promovido pelo Estado, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), durante a ditadura militar, e a fatídica guarda indígena, quando indígenas recebiam treinamento militar para a prática de torturas, até a Assembleia Constituinte, que só garantiu aos indígenas o papel de sujeitos de direitos graças às suas mobilizações.

Vincent Carelli tem cerca de 40 anos de atividade indigenista e Martírio é um filme fartamente documentado – afirmação que pode soar redundante, já que estamos tratando de um documentário. Isto é: vai além da colheita de depoimentos de indígenas – alvo de críticas aos antropólogos e seus laudos pelos ruralistas e simpatizantes de plantão – mostrando a realidade nua, crua e quase sempre sangrenta. Tudo lhe serve de fonte: de documentos históricos a imagens de arquivos de emissoras de tevê, passando por filmagens dos próprios indígenas, com câmeras e celulares – para espanto de alguns, que os imaginam como se ainda estivéssemos em 1500. Em determinados momentos o espectador se vê no meio de um conflito, inclusive entre a religiosidade e o modo de viver indígena e o capitalismo.

Sem muito esforço, Martírio mostra também o que há de mais retrógrado no Congresso Nacional, ao exibir trechos de reuniões de empresários do agronegócio e da bancada ruralista, formada por alguns daqueles ou seus lobistas, em sua sanha pela retirada dos direitos dos indígenas, sem poupar munição verborrágica contra antropólogos, organizações internacionais, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – braço da Igreja Católica para a questão indígena –, e até mesmo a Funai, órgão do governo que pretendem desmantelar para mudar as responsabilidades pela demarcação de terras indígenas.

O documentário é, como são os bons filmes do gênero, uma espécie de longa reportagem, em que os diretores demonstram que a questão indígena é um problema complexo e, longe de ser responsabilidade exclusiva dos governos federais do Partido dos Trabalhadores, mostra o quão pouco foi feito nos mandatos de Lula e Dilma, situação que piora após sua destituição pelo golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Martírio acompanhou o drama que levou a região e a etinia a um dos mais altos índices mundiais de suicídio – entre os indígenas Guarani-Kaiowas, ocasião em que muitos usuários adotaram o sobrenome indígena em seus perfis em redes sociais, embora o problema exista desde muito antes da invenção do facebook.

Martírio integra a programação da Sessão Vitrine Petrobrás e está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 15h20 (de terça a sexta-feira). Os ingressos da Sessão Vitrine Petrobrás custam R$ 12,00 (meia entrada: R$ 6,00).

Single dá pistas do novo disco de Marcos Magah

Cantor lança duas faixas em show nesta sexta-feira (21) no Odeon; disco novo sai em agosto

O cantor e compositor Marcos Magah lança nesta sexta-feira (21), às 21h, em show no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o single Devolva meus discos do Odair José/ Tito (O que morreu esmagado por uma geladeira). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.

As faixas não estarão no repertório de O homem que virou circo, terceiro disco de Magah, que será lançado em agosto. “Estas duas músicas indicam um caminho do que vai ser esse álbum. Eu não gosto de me repetir. Eu lanço uma coisa, eu não revisito. Esse single indica por que caminho nós vamos mais ou menos andar”, adianta.

Magah classifica Tito, parceria com o poeta Celso Borges, que participa da faixa, como “um xaxado psicodélico”. A música conta a história real de um homem que, como entrega o subtítulo, morreu esmagado por uma geladeira. Já Devolva meus discos do Odair José marca a estreia de Magah como intérprete – a música é uma parceria de Inácio Araújo e Leide Ana Caldas, de Os Carabinas, banda que abre a noite – que terá ainda discotecagem de Hugo Bodansky.

Para Magah, trata-se de “um típico clichê brega clássico”, dando mais pistas do que vem por aí. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

"Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo". Foto: Marco Aurélio
“Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo”. Foto: Marco Aurélio

Você vai lançar um single, com duas músicas, revivendo a tradição de antigamente, dos compactos, neste caso antecedendo um disco cheio. Como você avalia esta, digamos, volta às origens da indústria fonográfica?
Eu acho que o vinil é uma espécie de “a volta dos que não foram”. O vinil nunca foi totalmente abandonado. Eu, particularmente, sou colecionador de vinil. Agora, falando concretamente sobre essa coisa de ele estar vindo e as pessoas se interessando, comprando, a indústria lançando, eu acho que a indústria está tentando no meio dessa confusão toda em que se transformaram as gravadoras e o mercado de música, tentando se reinventar, tentando encontrar um jeito de que isso possa continuar sendo consumido. Eu, quando vi aquele negócio de cd, nunca comprei essa ideia, tudo muito pequenininho, a parte gráfica perde muito. Eu sabia que o vinil, como um grande guerreiro, ia continuar vivendo. Eu acho maravilhosa essa volta do vinil, acho fantástico.

Tito é um personagem verídico e sua morte, esmagado por uma geladeira, de fato ocorreu. Gostaria que você comentasse um pouco este personagem, a ideia da homenagem e a parceria e participação especial do poeta Celso Borges.
Eu só falo o que eu vi. Tito, de fato, morreu esmagado por uma geladeira, por mais absurdo que isso possa parecer. Era um cara que trabalhava lá em Bacabal, em caminhão de mudanças. É uma cena meio maluca, surreal. As pessoas acham que uma pessoa não pode ser esmagada por uma geladeira. Claro que pode. Uma geladeira velha, sem gás, ela pesa. A geladeira da minha vó, pelo amor de Deus, eram uns quatro homens para carregar. Brinca também com esse universo, das coisas antigas que eu via na casa da minha vó. É uma homenagem minha ao Tito, um cara por quem eu tinha muito carinho, e ele por mim. A geladeira também pode ser vista como a realidade, essa realidade dura que a gente vive, que te esmaga. Todo dia a gente morre esmagado pela geladeira da realidade, uma realidade cada vez mais monstruosa, onde a vida se mostra cada vez mais dura, as pessoas mais duras, tudo está mais duro. A sensação dessa coisa do politicamente correto parece querer botar uma fleuma, uma pluma por cima disso, mas a realidade é muito complicada. A realidade é a geladeira, caindo por cima da gente todo dia. Eu comecei a pensar nessa música em São Paulo, quando eu estava com Celso. Celso Borges tem se mostrado um parceiro, é o parceiro mais ativo que eu tenho hoje, é a pessoa com quem mais eu faço música, com quem mais eu bato papo, peço ajuda, encho o saco dele. A gente começou a pensar em São Paulo. Chegando aqui, perto de gravar, a gente finalizou. Hoje a gente se chama de Tito um quando olha o outro [risos], “e aí, Tito? E aí, Tito?”. Celso é um parceiro, um amigo querido que eu fiz. Eu era um fã, que virou amigo, que virou parceiro. Já dá pra bater a biela com um pouquinho de orgulho [risos].

Devolva meus discos do Odair José também é, então, autobiográfica? Há algo de inspiração buarqueana aí, com o cantor sendo o teu Neruda?
Na verdade Devolva os meus discos do Odair José é a primeira vez que eu gravo uma canção que não é minha, de todo, de eu pegar e fazer tudo. O Inácio e a Leide certo dia me mostraram essa música no apartamento deles. Eu produzo muito, pra gravar música dos outros é complicado. Mas quando eu ouvi, eu falei: “ei, eu vou gravar essa música”, e eles não acreditaram. Eu peguei e gravei. É uma composição da Leide e do Inácio. É uma brincadeira com o Chico Buarque, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu” [de Trocando em miúdos, parceria com Francis Hime]. É uma brincadeira que na verdade é uma sacanagem com o Chico Buarque, uma provocação.

Você se encontrou com Odair José recentemente, quando ele passou por São Luís para um show. Ele aprovou a homenagem e gravou imagens para um clipe teu. Conte um pouco mais desse encontro.
A gente se encontrou aqui em São Luís, ficamos de papo, foi uma experiência maravilhosa. Odair é um ser humano que vive em outro nível. Tu aprende tanto convivendo com um cara com uma alma como aquela ali. Odair é um ídolo, eu fiquei impressionado com o ser humano, com a figura dele. Parecia que eu tinha encontrado uma entidade. Nossa conversa foi muito sincera e muito aberta, por que nenhum dos dois está disposto a pagar de artista chilique [risos]. Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo, quem me conhece sabe disso, e Odair com toda sua grandeza não tem isso. Foi ótimo! O que mais me impressionou, além da figura dele, foi o fato de ele dizer pra mim que já conhecia meu trabalho, que gostava, e que adorou a música do Odair José, ele disse que morria de rir da parte do Neruda. Como ele já conhecia meu trabalho, a conversa andou por outro nível. Ele falou que ia no youtube escutar, eu fiquei lisonjeado. Eu lembrei de mim aquele molequezinho que amava Odair José, e de repente eu estava do lado do cara. Ele ficou feliz com a homenagem. Em relação ao clipe nós estamos vendo isso. Isso e outras novidades que talvez venham por aí. Eu acredito que o Odair vá participar, sim. A gente vai fazer um clipe lindo em homenagem a esse gigante da música brasileira. Foi um encontro espiritual [risos], digamos assim.

É a primeira vez que Wellyson [Melo, produtor de Z de vingança] toca contigo em palco, não é?
É a primeira vez. Os meninos ficaram maravilhados com a técnica dele. Os meninos da banda estão tipo assim: “pô, esse cara é desse planeta?”. Ele está tocando teclados e efeitos. Ele toca todos os instrumentos, pra tu ter uma ideia. É a primeira vez que a gente toca junto, assim. Ele vai estar também no show do dia 6 [de maio], do Marcelo Nova [Magah abrirá o show do roqueiro baiano no Fanzine Rock Bar]. Ele veio para o Maranhão e está louco para se incorporar ao negócio da banda. “Magah, eu não quero só gravar, eu quero tocar contigo!”. É um gigante, é como se ele passasse um verniz naquela loucura toda. É um arranjador, de fato, um cara com uma formação. Não sei o que esse cara viu no meu som, até hoje eu sou encabulado com isso.

Cláudio Lima lança em maio disco novo, Rosa dos ventos, com duas músicas tuas. É um dos grandes cantores brasileiros em atividade. O que significa para você tê-lo como intérprete?
Claudio Lima é um dos grandes cantores brasileiros. Está lançando um álbum fantástico, eu tenho escutado direto. Pra mim é uma honra. Quando eu escuto ele cantando minhas músicas eu fico feliz pra caramba. É um grande amigo. É um cantor fantástico, eu tenho a maior admiração, como intérprete, como pessoa. Quero que ele cante mais músicas minhas. E vem aí um discaço. Claudio está com um trabalho fora de série na mão. Vamos aguardar!

Odair José foi censurado pela ditadura militar brasileira. Recentemente a banda Alafia, ao se apresentar no Cultura Livre, na TV Cultura, sem o consentimento da idealizadora, curadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli, teve trecho de uma música em que criticam Doria e Alckmin, censurado. Como você avalia o atual momento político e cultural brasileiro?
Eu vejo o passado, com o seu lado mais nefasto, visitando o presente. A gente está vivendo uma época, coisas que talvez há quatro, cinco anos, nós não imaginássemos que fossem voltar. A História é assim, não é retilínea, é uma cobra que se esgueira e às vezes morde o próprio rabo. A gente está vivendo esse mar revolto, essa confusão toda dentro da política, às vezes vendo artista sendo censurado, em pleno 2017. Eu sempre fui muito [interrompe-se], quando eu escutava “nós temos uma democracia constituída, e tal, tal, tal, sedimentada, com bases sólidas”, eu nunca acreditei muito nesse discurso. Você não pega 30 anos de ditadura, que acabou engessando essas instituições políticas de maneira geral e vê amadurecerem assim. Esses 30 anos de ditadura ainda não foram vencidos. Então a gente fica vendo essas voltas, uns Bolsonaros, uns oportunistas, esses momentos de crise, a História tem provado isso pra nós, de discursos mais conservadores, acabam voltando e dando um viés para a História inimaginável. Essa da censura é terrível. Existe um lado que eu vejo como importante e salutar da questão: a polarização do discurso. Eu acho que dessa confusão toda vão sair coisas melhores, vamos amadurecer essa polarização. Eu acredito no atrito, tem que ter o atrito para que as coisas avancem, se não fica todo mundo escovando o dente de todo mundo. Eu acredito que desse atrito a gente pode colher frutos e avançar como sociedade, e aí sim, de fato, sedimentar valores humanitários, tentar levar a humanidade pra frente. A polarização do discurso às vezes é necessária. A gente fica preocupado, como artista, como cidadão, a gente está de olho e não pode esquecer que somos partes ativas da História, precisamos estar ligados. Mar revolto, mar revolto total. Vamos torcer para que daí consigamos avançar de fato. Em todas as áreas, não só na artística. A gente vê um judiciário completamente maluco e capenga, confusão política dos infernos, é um momento realmente complicado. Mas eu acho que o caos é o prenúncio de um novo tempo.

10º. Maranhão na Tela já está com inscrições abertas

Em entrevista ao blogue, Mavi Simão fez um breve balanço da trajetória do festival, comentou a homenagem a Joaquim Haickel e destacou a participação feminina

Tudo para ti, de Naldo Saori. Reprodução
Tudo para ti, de Naldo Saori. Reprodução

“Uma produtora independente se propor a fomentar um segmento é uma grande pretensão. Mas sempre pensei que se fizesse o máximo que estivesse ao meu alcance, isso já seria alguma coisa. Quando o Maranhão na Tela surgiu com esse objetivo, em 2007, quase nada era feito para fomentar o cinema local”, relembra Mavi Simão, a idealizadora e produtora do festival, em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

“O grande plano por trás do Maranhão na Tela sempre foi “picar as pessoas com o bichinho do cinema” e, aos pouquinhos, vamos “picando” cada vez mais pessoas. Em 2007 praticamente não se produzia no Maranhão e hoje estamos no melhor momento do cinema maranhense. Acredito que uma parte disso se deva ao forte investimento do festival na realização de cursos e na produção de curtas”, continua.

A 10ª. edição do Maranhão na Tela acontecerá de 16 a 26 de agosto, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) e promete ser histórica. Entre as mostras tradicionais, como a Panorama Brasil, que exibe longas-metragens nacionais inéditos, e a Animarte!, que exibe anualmente mais de 350 animações de diversos países, haverá mostras retrospectivas dedicadas aos melhores filmes já apresentados pelo festival e uma de clássicos do cinema nacional.

A Mostra Maranhão de Cinema, competitiva dedicada exclusivamente à produção local, já está com inscrições abertas – podem ser feitas até 31 de maio no site do Maranhão na Tela.

Cada edição do festival tem dois homenageados, um nacional e um local. O martelo quanto àquele ainda não foi batido, mas o maranhense a receber as homenagens em 2017 é o cineasta Joaquim Haickel. “Ele tem uma trajetória no cinema maranhense que por si só já o coloca no lugar de um dos maiores cineastas do estado. São quase 40 anos de carreira, dezenas de filmes e prêmios conquistados nacional e internacionalmente. E, para além da sua produção autoral, ele também é um grande produtor e, consequentemente um fomentador da produção local. Quantos profissionais trabalham nas obras que o Joaquim produz? Quantos diretores já tiveram a oportunidade de realizar através da sua produtora? Isso sem falar do Mavam [o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão] e do apoio que ele sempre deu a outros diretores, inclusive os iniciantes. Estava mais do que na hora dele ser nosso homenageado”, reconhece Mavi.

O festival acontece em agosto, mas suas atividades têm início em junho, quando a jornalista e roteirista Angélica Coutinho ministrará um curso avançado de Roteiro de Ficção, de 40 horas, que será certificado pelo Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (Iema), vinculado à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia (Secti), parceira do Maranhão na Tela. Junto com o curso serão anunciadas a lista dos selecionados na competitiva, bem como todo o restante da programação de filmes, cursos e debates, além do nome do homenageado nacional.

Além da idealizadora do Maranhão na Tela, o primeiro nome confirmado na programação é de uma mulher. Lembro a pesquisa da Ancine [a Agência Nacional do Cinema, vinculada ao Ministério da Cultura], que confirmou pequena presença feminina no audiovisual e pergunto à Mavi Simão: em um festival idealizado e produzido por uma mulher há uma preocupação quanto a esses índices? De que modo o festival tem buscado superá-los?

“Não existe propriamente uma preocupação. No festival a presença das mulheres sempre foi intensa. Nossa equipe é quase toda formada por mulheres, nosso público tem grande participação de mulheres, acredito até que em maior proporção do que de homens, e o intercâmbio com professoras e representantes de filmes também é grande”, enumera.

“É importante destacar que eu não escolho minha equipe ou convido profissionais baseada na questão de gênero e sim na qualidade do trabalho dessas profissionais. Ou seja, a participação de um grande número de mulheres acontece naturalmente, o que acredito ser bem significativo”, elogia.

“Com relação aos longas-metragens, ainda não é possível exibir uma maioria de obras dirigidas por mulheres, até por que, como exibimos um panorama da produção mais recente do cinema brasileiro, a programação de filmes do festival acaba sendo um espelho do cenário nacional da produção audiovisual”, finaliza.

O Maranhão na Tela é uma realização Mil Ciclos Filmes, patrocinado pela Oi e TVN, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e pelo Banco do Nordeste, por meio da Lei Rouanet, e conta ainda com o apoio cultural do Instituto Oi Futuro e das secretarias de Estado de Educação (Seduc) e Ciência e Tecnologia. A identidade visual desta edição comemorativa foi desenvolvida a partir do óleo sobre tela Tudo para ti, do artista visual maranhense Naldo Saori, que ilustra este texto.

Encruzilhadas poéticas

Outras canções de desvio. Capa. Reprodução
Outras canções de desvio. Capa. Reprodução

 

Outras canções de desvio [Sete Sóis, 2016] é trabalho de meticulosa ourivesaria. O disco, assinado pelo poeta Flávvio Alves, reúne poemas seus musicados por Kleber Albuquerque (Cerol, Orquídea cósmica, Teus olhos meus, Contraveneno e Desvio), Du Gomide (Quase lá), Carlos Careqa (Às traças), Richard Serraria (Mantra), Gabriel Schwartz (Novo amor antigo), Assis Medeiros (Em vão) e Fred Martins (Dois). Em uma faixa-bônus Kléber Albuquerque canta trecho de poema de Fernando Pessoa: “dorme, que a vida é nada!/ Dorme, que tudo é vão!/ Se alguém achou a estrada,/ achou-a em confusão,/ com a alma enganada”.

Nas 12 faixas a fina flor do que se convencionou chamar de nova MPB. Além dos compositores citados, cantores e instrumentistas surgidos no cenário nacional a partir de meados da década de 1990. Daniel Groove (Cerol), Kléber Albuquerque (Quase lá, Teus olhos meus, Mantra, Novo amor antigo e o trecho do poema de Pessoa), Carlos Careqa (Às traças), Fred Martins (Dois), Renato Braz (Orquídea cósmica, em dueto com Fred Martins), Aline Nascimento (Contraveneno, em dueto com Kléber Albuquerque), Ceumar (Desvio) e Elaine Guimarães (Em vão) emprestam sua voz aos poemas de Flávvio Alves, acompanhados por Rovilson Pascoal (contrabaixo, cavaquinho, guitarra, violão, ukulelê, teclado, violão 12 cordas, teremim e loops rítmicos), Gustavo Souza (percussão), Luque Barros (violão sete cordas), André Bedurê (contrabaixo em Contraveneno), Simone Sou (percussão em Desvio), Luiz Gayotto (percussão e percussão vocal em Novo amor antigo) e Estevan Sinkovitz (guitarra em Dois).

Desde aquela época, esta constelação tem sido responsável pelo lançamento de discos primorosos, parte deles pelo selo Sete Sóis, cujo principal nome por trás é justamente Flávvio Alves, que, ao agradecer a Kleber Albuquerque, em texto no encarte, afirma: “sem ele este trabalho não existiria, seria um dos tantos arquivados em minha gaveta”. A julgar pela beleza deste, não hesitamos em afirmar: é preciso desengavetar. Nome que mais aparece no encarte de Outras canções de desvio, o cantor e compositor assina também seu projeto gráfico, à altura da beleza do conteúdo – também pelo Sete Sóis, Kléber Albuquerque acaba de lançar um disco dividido com o cantor Rubi, intitulado justamente Contraveneno [2017], produzido por Flávvio Alves, cujo show passou pela Ilha ano passado.

Aos que julgam discos – e livros – pela capa, não se enganarão os que se arriscarem por ela, que aí começa a beleza deste disco: a ilustração de um violeiro numa encruzilhada – um dos possíveis desvios do caminho – é do escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. A ele e sua esposa Lucimar, Flávvio Alves dedica Dois: “tudo tem sua vez/ mas toda vez/ vem depois de nós dois”, “posso ouvir teu olhar/ posso ver tua voz” e“tudo tem um talvez/ mas com você/ tudo é certo demais”, diz a letra.

Basicamente são canções de amor, mas nada há de piegas em Outras canções de desvio, disco que levanta o astral e o polegar positivamente e com rara categoria para responder à questão batida: letra de música é poesia? “De toda farsa imensa sempre em cada dia/ Nada ultrapassa a força bruta da poesia/ Em meio à massa a moça fica mais bonita/ é frágil a louça, ágil a fantasia”, diz a letra de Às traças.

Outro exemplo?: “era tanta magia/ no olhar da poesia/ raspas de luar/ mel de melodia”, em Teus olhos meus. Mais um?: “que haja sempre uma rede no alpendre da ilusão/ um novo verso no ventre universo/ e um maço de canção/ um novo verso no ventre universo/ pra tanto tropeço e decepção”, em Mantra. Deleitem-se e tirem suas próprias conclusões.

Uma orquestra na contramão

Foto: Francisco Colombo
Foto: Francisco Colombo

 

Regida pelo maestro Thiago Santos, a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Paraíba (OSUFPB) encerrou ontem (10), em São Luís, sua bem sucedida Temporada 2017 – Tournée Nordeste (como grafado no programa), que passou por Mossoró/RN, Fortaleza/CE e Teresina/PI.

A inclusão da capital maranhense no circuito marca o início das comemorações dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que abrigou o concerto, apresentado para um público de mais de 500 pessoas, num auditório que não por acaso leva o nome de Paulo Freire – que não por acaso também, abrigou, na manhã de ontem, um Concerto Didático, com a presença de cerca de 300 alunos de escolas públicas de São Luís.

A OSUFPB caminha na contramão, numa época em que orquestras sinfônicas são fechadas pelas batutas de gestores públicos, aqueles cujo slogan “não pense em crise, trabalhe” vale apenas para os outros, aqueles que pouco se importam com políticas públicas de cultura, preocupando-se tão somente com o sucateamento e a consequente privatização de instituições e espaços públicos.

“A orquestra não é só da Paraíba. É de todos nós. De todos que pagam impostos e às vezes nem sabem que o dinheiro está financiando uma orquestra”, declarou o professor Ulisses Carvalho da Silva, vice-diretor do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB.

O percurso da orquestra paraibana, com seus mais de 20 músicos contratados, neste contexto, poderia representar um luxo, mas é bem mais que isso: é uma necessidade. Um dos resultados práticos do “correr trecho” é o anúncio, por parte da Universidade Federal do Piauí (UFPI), da profissionalização de uma orquestra de alunos que já existe por lá, conforme nos revelou o compositor Adeíldo Vieira, assessor de comunicação da OSUFPB. Quantos dos presentes ao concerto de ontem, qual este repórter e o fotógrafo que o acompanhava, não nos perguntamos por que ainda não temos uma Orquestra Sinfônica no Maranhão?

No palco, o concerto foi de uma beleza ímpar, homenageando, além dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da UFMA, os 90 anos de Ariano Suassuna e os 130 anos de Heitor Villa-Lobos, dois ferrenhos nacionalistas, apaixonados pela cultura popular, cujos elementos foram incorporados às suas obras na literatura, teatro e música.

Estes elementos populares eram o fio que costurava o repertório do programa da apresentação de ontem. O concerto foi aberto com o Mourão, de Guerra-Peixe. O compositor carioca morou em Pernambuco e, mesmo sendo um “erudito”, realizou arranjos para cantores e compositores “populares” como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Inezita Barroso, Marília Batista, Baden Powell e Vinicius de Moraes, entre outros, demonstrando que estas linhas são bastante tênues.

Seguiu-se Toada e desafio (Arthur Barbosa), com os corpos dos instrumentos tornando-se set percussivo. À Fantasia para saxofone (Heitor Villa-Lobos) voltou a percussão nos corpos dos instrumentos, contando com as palmas marcando o ritmo, pela orquestra e plateia, além da participação especial de Arimatéia Veríssimo (saxofone soprano), coordenador da OSUFPB, que, não se fazendo de rogado e, seguindo o exemplo de Guerra-Peixe, apresentou a popular Duda no frevo (Senô), para delírio dos maranhenses.

À Serenata para cordas (Tchaikovsky), que, pelo programa encerraria o concerto, seguiu-se um bis com Serenata (Alberto Nepomuceno), peça e nome extras a dialogar com os homenageados pela OSUFPB nesta temporada.

Os músicos já haviam aplaudido, do camarim, quando o professor Ulisses os saudou, na abertura. Após serem aplaudidos de pé por mais de dois minutos pelo auditório Paulo Freire lotado, sentaram-se novamente ao fim da Serenata do cearense, como a anunciar um novo bis. Levantaram-se imediatamente, demonstrando que erudição e bom humor não precisam ser antagônicos.

No palco e fora dele, a OSUFPB e sua circulação pelo Nordeste se mostram necessárias, a arte dando sua contribuição no enfrentamento aos preconceitos de sempre a que estão submetidos os naturais da região, que assume um papel de vanguarda no enfrentamento da crise.

Espanto de ex-ilhado

Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução
Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução

 

Novo livro do poeta Dyl Pires, Éguas! [Pitomba!, 2017, 60 p.; R$ 20,00] é completamente distinto do Poema Sujo de Ferreira Gullar, mas é impossível não associá-los, longe de querer cair na comparação preguiçosa de que aquele é o Poema Sujo do século XXI ou coisa que o valha. Neste sentido são absolutamente distintos.

O Poema Sujo foi escrito ao longo de cinco meses em Buenos Aires, Argentina. Éguas! levou pouco menos de um mês, durante um período de férias do autor em São Luís, evocando a Ilha de sua infância e adolescência. Num e noutro a ilha pulsa, viva.

Ambos têm São Luís como cenário-personagem e foram escritos durante o exílio: forçado, no caso de Gullar, perseguido pela ditadura militar; voluntário, no caso de Dyl, radicado há quase década em São Paulo. Publicados em livro, ambos parecem ter sido feitos para a declamação em voz alta e têm a leitura em seu nascedouro.

O Poema Sujo chegou ao Brasil em uma fita k7 com a voz de Gullar e foi apresentado a um seleto grupo pelo diplomata Vinicius de Moraes. Antes de ser publicado Éguas! teve leituras em rodas de amigos e gente interessada em poesia, ocasiões em que o autor colheu e incorporou sugestões – experiência seguida também pelo editor Bruno Azevêdo, cujo work in progress exposto nas redes sociais também acatou sugestões ao resultado final do bonito projeto gráfico, um padrão de sua editora, ouso dizer.

Ao longo da última semana, já com a obra em mãos, sua voz e visão originais materializadas em papel, Dyl Pires realizou diversas leituras, espécies de avant-premières da noite de autógrafos que faz hoje (8), às 19h, no Chico Discos (Rua dos Afogados, 289-A, altos, Centro) – com Samarone Marinho, que lança Ser quando.

Tipicamente maranhense a expressão que dá título ao livro é “uma interjeição, um anúncio de que o extraordinário irrompeu no cotidiano”, anota Matheus Gato em “A dor real é ser ilha”, espécie de posfácio (cujo título é um verso) do livro-poema. De espanto a interjeição se reconfigura em admiração, quando descobrimos estar diante do melhor livro de Dyl Pires, flanando com o autor por ruas, culturas, episódios, gente viva e saudosa que homenageia.

“dizer do si mesmo da cidade que está em/ Cláudio Costa/ Mondego/ Binho Dushinka/ Jesus Santos/ como um grito primitivo do sonho”, erige o poema-monumento aos vivos, tributando também quem já se foi: “escorrem pelas carrancas da Fonte do Ribeirão/ servindo-se daquelas máscaras/ para se reapresentarem à ilha/ são eles/ João Alexandrino/ Padre Mohana/ Cipriana/ João do Vale/ Reinaldo Faray/ Valdelino Cécio/ Pierre Barroso/ Beto Bittencourt/ Cristóvão Alô Brasil/ Lopes Bogea/ Ambrósio Amorim/ Serginho Fontenele/ Zuza/ Wagner Alhadef/ Roberto Lameiras/ Jorge Babalaô/ Lauro Leite/ Rosclim/ Rui/ Carioca/ Terezinha de Jesus Rodrigues/ Eliane Ribeiro/ Terezinha Jansen/ Josemar/ Antônio Vieira/ Mestre Felipe/ Dona Teté/ Nelson Brito/ Rafael Bavaresco/ Marco Cruz/ Faustina/ Michol/ César Maranhão/ Mestre Leonardo/ Mestre Apolônio/ Fidel/ Seu Adalberto/ Moema/ Jackson Pires/ Ubiratan Teixeira/ Magno Aires/ Omar Cutrim/ Humberto do Maracanã/ José Chagas/ Herbeth Fontenele/ Nauro Machado/ Guilherme Teles/ Norberto Fabian Castellano/ Ana Duarte/ Lara Sena/ Ângela Gullar/ Aldo Leite/ Ferreira Gullar”, perdas sentidas pelo poeta e pela cidade-musa.

Imediatamente à frente anota: “as ausências são o lugar/ de onde melhor ainda se vê o futuro”. Com seu olhar de turista-estrangeiro-exilado, Dyl Pires afasta o risco de qualquer pieguice que acomete grande parte das obras de arte que se arriscam a cantar a cidade.

Dyl Pires eterniza momentos fugazes em seu livro-poema, como quando narra: “Dylson Bessa Junior/ endiabrado em sua cadeira de rodas/ desceu a Rua do Egito chutado/ como se quisesse fazer do perigo/ um cardume de morte e ressurreição/ e esquentar a primeira estrela vista aquela noite/ as mãos que o empurravam negociavam/ o arame farpado da fé com o destino/ naquela noite todos foram dormir em paz/ embora tenham sonhado com o céu/ de escuras estrelas das axilas de deus/ hoje de pensar dá medo”.

Seu personagem tornado criança, sem noção do perigo na Rua do Egito, dialoga com as crianças na Rua de Nazaré em uma fotografia de Pierre Verger de 1948 que ilustra o volume – a outra imagem do francês mostra crianças brincando na Fonte do Ribeirão. Talvez ser poeta signifique justamente isso: voltar a ser criança e, portanto, à capacidade de espanto. Por essas e outras, Éguas! já nasce clássico.

A poética ímpar de Hiroshima, meu amor

Hiroshima, meu amor. Cartaz. Reprodução
Hiroshima, meu amor. Cartaz. Reprodução

Até hoje, passados mais de 70 anos da tragédia que se abateu sobre a cidade, a simples menção da palavra Hiroshima remete à sua destruição por uma bomba atômica americana durante a segunda guerra mundial.

Quase 60 anos após seu lançamento, diversas salas brasileiras exibem uma versão restaurada de Hiroshima, meu amor [Hiroshima, mon amour; drama, França, 1959, 90 min., preto e branco; em cartaz em São Luís no Cine Praia Grande, sessões às 15h, exceto sexta e domingo], clássico de Alain Resnais que marcou sua estreia na ficção, quando já tinha um número considerável de documentários curtas-metragens no currículo.

Hiroshima, meu amor é uma espécie de metáfora documental: abre com dois corpos entrelaçados, ora cobertos de poeira (atômica?), ora de chuva (ácida?), passeando depois pela paisagem destruída da cidade-fênix japonesa e pelos corredores de um museu, que exibe os horrores da guerra e particularmente da destruição de Hiroshima, o que inclui escalpos de vítimas da bomba.

O encontro dos amantes, interpretados por Emmanuelle Riva e Eiji Okada, começa com a narração dela para os horrores presenciados e as negativas dele para tudo o que ela diz ter visto – “você não viu nada em Hiroshima”, ele repete várias vezes.

Ela é uma atriz francesa que está em Hiroshima para gravar um filme sobre a paz, cerca de 15 anos após o bombardeio. Ele, um arquiteto que nasceu e trabalha na cidade. Ambos casados, só têm seus nomes revelados no último diálogo.

Com roteiro da escritora francesa Marguerite Duras, o filme gira em torno deste encontro fugaz, levando o espectador a um jogo de lembrança e esquecimento entre acontecimentos do presente e do passado, sem facilidades por parte do diretor.

Enquanto ele tenta convencê-la a ficar mais uns dias em Hiroshima, ela conta como perdeu seu primeiro amor – verdadeiro? Único? –, justamente um soldado alemão, mais ou menos na mesma época em que Hiroshima foi destruída. A conversa mostra como, de uma forma ou de outra, suas vidas foram atingidas pela guerra.

Apesar das negativas iniciais do protagonista masculino estamos diante da encruzilhada entre memória e esquecimento, justiça ou resignação. Impossível não traçar um paralelo com o Brasil de décadas depois, pensando na impunidade irrestrita e vigente de agentes da ditadura militar.

Mestre que correu em paralelo aos da Nouvelle Vague francesa, Alain Resnais, em Hiroshima, meu amor, extrapola os limites do cinema, aliando-o a outras linguagens, tendo a música (de George Delerue e Giovanni Fusco) papel destacado, além das expressões artísticas observadas no museu.

Ao usar um fortuito caso de amor para tratar de temas tão duros, legou à humanidade um filme de poética ímpar. Após quase seis décadas de lançado, segue valendo a pena ser visto e creio que assim o será para sempre.

Delícias do Mar(anhão)

O Fideuá Casa d'Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR
O Fideuá Casa d’Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR

 

Nem só de língua de boi vive o homem – e a mulher (grávida) –, dona Catirina! Ao menos é o que demonstra o II Festival Gastronômico, promovido pelo Sebrae/MA, que agrega 47 restaurantes em nove municípios maranhenses, com pratos à base de frutos do mar – Delícias do mar é o tema desta edição, que também contempla sobremesas à base de frutas regionais – lista completa de municípios, restaurantes, pratos e sobremesas no site do festival.

Lançado hoje (5), em evento para convidados no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, o festival acontece até o próximo dia 23. Além da lista no site e em material impresso de divulgação, os restaurantes terão banners identificando sua presença no circuito. Os presentes puderam degustar as delícias dos 18 restaurantes de Raposa, São José de Ribamar e São Luís que participam.

A iniciativa é importante: quem souber do festival, procurará conhecer os restaurantes participantes e, por sua vez, os pratos preparados especialmente para a ocasião – vendidos a preços mais baratos.

O aumento da participação é visível: na primeira edição, em 2015, eram 21 restaurantes. Gosto de pensar também na contribuição para o turismo e a superação de preconceitos: muita gente, ao ver o número de restaurantes em determinado município já não pensará naquela localidade como algo inferior, indigno de atenção, mas como um polo gastronômico, boa oportunidade de conhecer este ou aquele lugar – e seus respectivos pratos.

Percorrendo os stands – que eu prefiro chamar de barracas – degustando os diversos pratos, se percebe também a heterogeneidade dos participantes: da franquia China in Box, passando por casas, digamos, mais chiques, como o Feijão de Corda, Thai e a Pizzaria Vignoli, até estabelecimentos, digamos, mais roots, como o Por do Sol, em Raposa, para ficarmos em exemplos apenas entre os que estavam neste lançamento – outros eventos acontecerão em outros municípios.

Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR
Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR

Gastronomia é cultura e os que já estávamos provando de tudo um pouco antes e durante as falas das autoridades presentes, continuamos ao longo do pocket show do Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões acompanhados de João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado e sanfona) –, que, não à toa, começou por Catirina (Josias Sobrinho), a quem aconselhamos no início deste breve e pantagruélico relato.

Entre o que experimentei hoje destaco o Fideuá da Casa d’Arte, o Canelone de caranguejo da Casa Rossini e a Mariscada do Léo da Tia Mundoca (em que a tarioba se sobressai deliciosamente) – o primeiro e o último, em Raposa.

Certamente vale a pena (tentar) conhecer todos os restaurantes e (tentar) provar todos os pratos. O Delícias do Mar é um festival de muito bom gosto. Literalmente.

Azeda e sincera

Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução
Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução

 

Rita Lee: uma autobiografia [Globo, 2016, 294 p., R$ 44,90] não era a primeira incursão da ex-Mutantes e ex-Tutti-Fruti no mundo literário – a mais recente, Storynhas [Companhia das Letras, 2013, 96 p., R$ 39,90], ilustrada por Laerte, trazia pequenas histórias expandidas do sucesso que fazia no twitter. É bem escrita, apesar do miguxês típico das redes sociais, aqui a autora inventando novas palavras, acolá chamando todo mundo de fofo ou fofa, quase uma Hebe Camargo – outra que recebe o adjetivo ao longo da narrativa de capítulos curtos.

É inegável a importância e o pioneirismo de Rita Lee, 70 anos em 2017, para a afirmação feminina, extrapolando inclusive os limites do ambiente machista do rock – e de resto, da música brasileira de modo geral, ainda que vivamos em um país de cantoras. “O clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê”, diz.

O livro segue uma ordem cronológica, da infância à aposentadoria – Rita Lee não grava ou lança disco novo desde Reza [2012] – e tem sacadas bem humoradas, sobretudo na parte inicial, dedicada ao casarão em que vivia com os pais e as irmãs.

A cantora e compositora não poupa sequer a si mesma e narra, nunca perdendo o bom humor, desde o estupro com uma chave de fenda que lhe tirou a virgindade a problemas com drogas, lícitas ou não, um aborto, passando por cirurgias das cordas vocais e hemorroidas, censura durante a ditadura militar, entre tantas aventuras glamourosas ou não, mais ou menos típicas do universo dos famosos, incluindo o casamento com Roberto de Carvalho, cujo namoro teve por cupido Ney Matogrosso, de cuja banda ele então fazia parte, e os dias que passou grávida na prisão – com direito a estardalhaço midiático, à época.

Os bichos de estimação (incluindo cobras e jaguatiricas) que teve ao longo da vida ganham destaque nas páginas da autobiografia de Rita Lee, que confessa ser a defesa dos animais a única bandeira que empunhou na vida.

“Numa autobiografia que se preze, contar o côtè podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma “autorizada””, afirma. Só se autocensura ao citar um episódio ocorrido em Aracaju, quando o texto do livro vem tarjado (portanto ilegível) ao longo de duas páginas.

Senhora de si, por vezes soa arrogante ou pretensiosa, mesmo quando quer posar de modesta, quando critica este/a ou aquele/a disco ou música de sua autoria. Noutras, deselegante e ressentida, sobretudo ao lembrar os tempos vividos com os irmãos Arnaldo Baptista – seu ex-marido – e Sérgio Dias, companheiros de Mutantes.

“Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela”, justifica-se, apontando os dedos para críticos e jornalistas como Carlos Calado, autor de A divina comédia dos Mutantes [Editora 34, 1995, 358 p., R$ 64,00].

A autobiografia de Rita Lee perpassa toda sua discografia, desde O’Seis pré-Mutantes, até o derradeiro solo, com opiniões da cantora sobre tudo – é bastante dura ao falar de Tecnicolor, gravado pelos Mutantes em Paris em 1970, e só lançado no Brasil em 2000, outra oportunidade em que alfineta Sérgio Dias, segundo ela o responsável pelo lançamento tardio do álbum renegado. Para ela, ele é um dos que não aceitam que aqueles bons tempos não voltam mais graças aos deuses da música, para quem lançamentos do tipo, e revivals como os shows no Barbican Theatre, em Londres, em 2006 (que viraram cd e dvd), em que Os Mutantes tiveram Zélia Duncan nos vocais, servem apenas para os velhinhos pagarem os geriatras.

Rita Lee: uma autobiografia é um livro gostoso de ler, que traz detalhes de bastidores de importantes períodos para a música brasileira, de pouco antes da Tropicália, passando pelo boom do rock nacional. Bem podia ser um pouco menos azedo, ou talvez a intenção seja mesmo essa, já que a polêmica em geral vende mais, podendo, portanto, significar mais grana para o geriatra. Uma coisa certamente não se pode dizer: que Santa Rita de Sampa – excomungada pela Igreja Católica – não tenha envelhecido com dignidade.

*

Veja o clipe de Reza (Rita Lee/ Roberto de Carvalho), que dá nome a seu último disco:

Odair José mais explícito que nunca

[íntegra da entrevista publicada hoje nO Imparcial]

Em Gatos e ratos, seu novo disco, o cantor e compositor goiano ajusta a mira contra a classe e o sistema políticos. Ele se apresenta em São Luís no próximo dia 7

Gatos e Ratos. Capa. Reprodução
Gatos e Ratos. Capa. Reprodução

Odair José não é um artista de meias palavras. Sempre foi explícito e cantou o que quis. Tanto que incomodou ditaduras na América Latina e setores conservadores da Igreja Católica, como revelou o historiador Paulo César de Araújo em Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar [Record, 2002, 458 p.].

Gatos e ratos, seu mais novo disco, 36º. de inéditas da carreira, segue essa trilha. É um disco explícito, com a mira ajustada ao sistema político brasileiro e seus representantes. O álbum reivindica direitos abertamente.

Foi gravado por um power trio, com uma pegada roqueira que sempre interessou ao artista, em geral injustamente rotulado meramente de brega. Odair José (voz e guitarra), Junior Freitas (guitarra, contrabaixo, teclado e piano) e Caio Mancini (bateria e percussão) põem os dedos nas feridas. Sem firulas.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

FAIXA A FAIXA

A faixa-título é uma metáfora. Embalada pela sonoridade rock’n roll que permeia todo o disco, aparentemente é música romântica, mas desde ela, que abre o disco, Odair José começa a dar seu recado. Com as guitarras se sobressaindo, Carne crua joga luzes sobre as populações de rua.

Tema recorrente em sua obra, o preconceito é o tema de Moral imoral. Trânsito é um protesto contra a violência no trânsito, espécie de competição insana em que se transformou o fluxo de veículos e pedestres nas grandes cidades. A liberdade sexual é o mote de Segredos, em que Odair José volta a falar abertamente de homossexualidade: “o caminho do céu passa perto do inferno/ antes que anoiteça abra a porta do armário/ quem guarda segredos tira onda de otário”, diz a letra.

Em A culpa é do Henrique uma crítica incisiva à corrupção. Ainda com as baterias apontadas para a classe política, Cobrador de impostos se volta contra a carga tributária no Brasil. A cor do pecado é talvez a mais direta das faixas de Gatos e ratos. Aborda o preconceito racial, critica governantes, diversas políticas sociais e a ausência do Estado, tocando num dos assuntos mais polêmicos quando se trata de direitos humanos: os direitos de pessoas privadas de liberdade. “A superlotação nos presídios chega a ser desumana/ quem pensa que isso corrige comete um engano”, canta.

Em Açúcar mascavo, Odair soa como uma espécie de professor de amor, calejado pelas próprias experiências. Como entrega o título, em Livre, que encerra o disco, o artista volta ao tema das liberdades, sempre presente em sua obra. Este disco não poderia ser diferente.

Odair José apresenta o show A noite mais linda do mundo, no próximo dia 7 (sexta), na Casa das Dunas (Av. Litorânea), às 21h. Os ingressos custam entre R$ 40,00 e 60,00.

O artista conversou por telefone, com exclusividade, com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Homem de vícios antigos – Você sempre foi um artista que cantou o que quis, de modo explícito. Esse seu novo disco, Gatos e ratos, ajusta a mira na classe política do país. Como você observa esse momento conturbado que o país atravessa?
Odair José – Você falou bem: eu sempre fui um cronista das coisas que vejo. Eu sempre falei de uma forma muito explícita, o meu recado sempre foi na reta, eu nunca dei volta. Por isso mesmo, até, no passado, eu tive dificuldades, às vezes, com a censura do governo, e tenho até hoje dificuldade ao dizer as coisas com essa censura hipócrita da sociedade. Eu escrevo justamente sobre o que eu vejo, mais do que o que eu sinto. O que eu vejo é que nós estamos vivendo uma época muito difícil, no mundo todo, mas no Brasil especificamente, de uns anos pra cá, eu vou cada vez ficando mais assustado com a falta de ética na política brasileira. Como isso interfere na vida do cidadão? Totalmente. A política brasileira é um reflexo da sociedade? Pode ser. E é isso que é mais assustador ainda.

Você sofreu censura da ditadura militar brasileira e da igreja católica, embora esse assunto só tenha vindo à tona por iniciativa do historiador Paulo César de Araújo, no livro Eu não sou cachorro, não. Ídolo popular, o Chacrinha também apontou o dedo pra você e outros cantores famosos da época. Como é que você relembra esses fatos, hoje?
Eu tive muita dificuldade com determinados segmentos. Segundo pesquisas, eu fui o segundo mais censurado deste país. Isso não é uma glória, isso é uma coisa muito chata, isso não é para se comemorar, é para se lamentar. Com respeito ao Chacrinha, eu tive dificuldades com Chacrinha no sentido de que, quando ele se desligou da TV Globo eu fui contratado pela TV Globo. Eu não podia, naquele momento, me apresentar no programa que ele tinha no canal de televisão dos Diários Associados. Então o Chacrinha começou a fazer uma campanha muito grande contra o Odair José, especificamente. Mas mais por conta desse negócio do contrato. O Chacrinha eu acho que não tinha nada exatamente contra o Odair José. Mas ele chegou a ir até o João Calmon, que era o superintendente geral dos Diários Associados, para pedir a não execução de meus discos nos Diários Associados, que naquele momento tinha uma rede de rádio muito grande no Brasil. Mas isso terminou não acontecendo e depois, mais tarde, depois do contrato vencido com a Globo, acabei me apresentando no Chacrinha e ficou o dito pelo não dito. Mas eu sempre tive essa dificuldade. A Igreja Católica especificamente nunca me olhou com bons olhos, por conta dos meus questionamentos. Eu sou assim meio pé atrás quando as pessoas manipulam. Eu vejo o povo sendo manipulado por segmentos religiosos e isso incomoda as pessoas.

Você também foi pioneiro ao trazer em sua obra temas como as empregadas domésticas e as prostitutas. Há alguns anos a PEC das domésticas causou furor em setores da elite nacional. Você se considera um visionário?
Eu vou falar primeiro da prostituta. Eu tenho um sonho, eu estou com 68 anos e possivelmente eu não vá ver isso, nem se eu vivesse 150, mas eu tenho um sonho desde 1972, quando eu fiz a música Eu vou tirar você desse lugar, que é contando a história do cara que se apaixona por uma prostituta e casa com ela. A minha intenção era chamar a atenção para um problema existente. Isso é um fato, isso acontece e não acontece de agora: acontece há mais de 2000 anos. O meu sonho, que eu disse que não vou ver, é ver a prostituição sexual ser reconhecida como trabalho. Ter uma carteira, ter o reconhecimento da sociedade e não ser visto como uma podridão, como uma coisa marginalizada. Isso é um absurdo, é uma hipocrisia maior que o mundo. Esse sonho talvez eu não vá realizar, eu tenho dito isso no microfone, tenho dito isso no palco quando vou cantar a música. Tem duas coisas que eu sonho: gostaria de ver o comércio do sexo, que é uma coisa tão antiga, o que seria do mundo se não fossem as prostitutas? Os homens fazem uso disso há quantos anos? Seja de que segmento social for, ele já fez ou vai fazer isso. E por que ignorar isso? E também o negócio da maconha: acabar com a discriminação da maconha, [esse discurso de] que tem que criminalizar, que quem usa maconha é bandido, e não é. Tem que liberar! Eu falei em uma música em 1974, a música A viagem, já falando sobre isso. Enquanto não resolver também essa hipocrisia, por que tem setores importantíssimos que lucram com isso. Essas coisas todas têm que ser revistas na nossa sociedade. Com respeito à empregada, na nossa sociedade a empregada servia pra tudo: pra trabalhar tipo escrava, pra ser escrava sexual do patrão ou do filho do patrão e assim ia, e não era reconhecida profissionalmente. Eu falei para chamar a atenção, na época as pessoas até ironizaram a canção, e só no governo da Dilma, em 2014, é que houve alguma coisa em benefício das empregadas domésticas. Eu não me considero um visionário, eu apenas vejo as coisas e falo e às vezes incomoda. Como você falou do Gatos e ratos, eu estou falando um monte de coisas e às vezes as pessoas podem não gostar. Mas alguém tem que falar. Eu não me sinto bem não falando, acho que é minha função como cidadão.

Ainda nos anos 1970 você deu uma guinada na carreira ao gravar a ópera-rock O filho de José e Maria [de 1977].
Que está fazendo 40 anos este ano.

Isso! Este novo disco foi gravado apenas com você e mais dois músicos, no formato roqueiro de power trio. O rock sempre te interessou?
Sempre me interessou. É engraçado isso, as pessoas se assustarem um pouco com isso, mas quem me conhece de perto, [sabe que] eu sempre fui ligado a esse tipo de coisa, essa coisa de rua e o rock é uma coisa de rua. Eu sempre gostei, eu ando com a guitarra no pescoço desde meus 15 anos de idade. Odair José sempre se apresentou pelo Brasil como um trio, quando muito um quarteto. Às vezes as pessoas se assustavam. Em determinado momento, quando eu tinha condições de levar produções maiores, eu não levava, por que eu achava que eu tinha que me apresentar daquele jeito. E era uma coisa meio incoerente, por que às vezes o disco tinha sido gravado de uma outra maneira, por uma questão de mercado, de gravadora, de filosofia de gravação, você às vezes usava outros instrumentos que não fossem a guitarra, o baixo. Mas agora que estou tendo a liberdade para fazer isso. Eu já quis fazer em 1977, O filho de José e Maria ia ser gravado como foi gravado agora o Gatos e ratos. É que na época a gravadora mais uma vez não permitiu. Mas eu tive a felicidade de ter o Azimuth junto e fizemos um grande disco. Há 40 anos foi gravado um disco que hoje você escuta, você há de concordar, tem muita qualidade, tanto na gravação quanto na execução dos músicos. Ele foi muito bem pensado. Agora eu estou conseguindo fazer isso: eu sempre me apresentei pelo Brasil afora, eu e mais dois ou três músicos. Era esquisito, por que de repente, o cara ouve um disco, aquele monte de instrumento, violino, sopro e não sei o quê, e quando vai ver o show via um cara com a bandinha pequenininha de garagem, e agora eu estou procurando ser honesto, eu sou isso aqui. Eu vou fazer o show e o cara vai ouvir o Gatos e ratos. Eu consigo levar aquele som pro palco.

Uma forma até de tornar tua obra ainda mais popular, já que isso permite circular com menor custo.
Isso é um ponto. Outro ponto é o seguinte: eu acho que não tem como não ser popular uma coisa, você falando de coisas que estão no dia a dia das pessoas, com guitarra, baixo e bateria, quando muito, às vezes, um piano ou um teclado, com três acordes, quatro acordes, que é a música que eu faço. Onde isso não é popular? Eu acho que é popular. E como você falou: fica mais fácil até de eu andar por aí.

O maranhense Zeca Baleiro tem alguma responsabilidade nessa nova fase desse culto a Odair José, contribuiu de alguma maneira para conquistar novos fãs. Como vocês se conheceram e como pintou essa amizade?
Sim, é engraçado isso. Na verdade, minha proximidade com Zeca começou com 2005 ou 2006, já se vão 11 anos. Quando o Zeca apareceu eu fui a um show dele no Rio, no antigo Teatro da Lagoa, nem falei com ele, ele apareceu para tocar e eu fui assistir com um amigo meu. Eu gostei do Zeca. Mais tarde tive a oportunidade de tocar com o Zeca numa noite num Sesc aqui de São Paulo, o Sesc Ipiranga. Depois o Zeca participou daquele tributo que fizeram em homenagem a Odair José [Eu vou tirar você desse lugar, de 2009], ele cantou Eu, você e a praça, e eu e o Zeca começamos a nos encontrar, a nos apresentar, ficamos amigos. Zeca é uma pessoa muito generosa, acho que isso é do maranhense, eu me dou bem com um monte de maranhenses. O Zeca é um cara boa praça pra caramba, inteligente, focado, sabe fazer a leitura das coisas. Eu tinha pensado em 2009, por aí, 2010, “ah, eu não vou gravar mais discos, não, eu já tem música demais, acho que não precisa, eu tenho tanta música”. Eu vou pro palco e não consigo cantar todas, o povo ainda fica pedindo, dizendo que eu não cantei a que ele queria. Meu show é um show que não satisfaz, por que eu saio do palco e “ah, você não cantou minha música”. Você não consegue cantar tudo, né? Foi quando o Zeca me convidou para fazer um disco lá na Saravá [Discos, selo de Zeca Baleiro]. Eu falei: “ah, Zeca, eu não tou a fim de fazer disco, não”. E fiz aquele disco até dizendo que seria o último disco da minha carreira. Depois eu me interessei de novo pela coisa, acordei de novo.

Ainda bem.
Ainda bem, né? Ele é gente muito boa, gosto muito do Zeca.

Por falar nele, qual a expectativa por este show aqui na terra natal do amigo?
A minha expectativa é grande. Faz tempo que eu não vou aí. A última vez eu estive com o Zeca, cantei três músicas a convite dele. Antes, fazia tempo que eu não ia a São Luís. Eu estou rodando, já fiz três shows em São Paulo, sábado fiz Belo Horizonte. Eu procurei o Zeca para saber de que forma eu poderia me programar em São Luís. Ele estava nos Estados Unidos, nem cheguei a falar com ele, achei o Ricardo Pororoca e falei: “bicho, eu tenho que passar por aí”. Quero até mandar um abraço pro Ricardo, aí da Casa das Dunas. E depois falei com Zeca, e ele me disse: “vai cantar numa boa casa”. Eu estou levando um show, deveria se chamar Gatos e ratos, mas o Ricardo botou A noite mais linda do mundo, que também tá bom. Meu show, minha intenção é divertir as pessoas, matar as saudades minha e das pessoas das canções, mas também mostrar as coisas novas, cantar um pouco do passado, mas também não esquecer o presente.

Então o repertório vai ser um pouco de Gatos e ratos e um pouco dos clássicos da carreira?
Claro! Vou cantar tudo. Vou cantar músicas do Gatos e ratos, de O filho de José e Maria, do Dia 16. O show dura mais ou menos uma hora e 40 minutos, dá para cantar umas 22 músicas. Vou cantar uns 15 clássicos, aqueles que eu acho que têm a ver. Qual é a intenção? Fazer as pessoas pararem para pensar: o que é que esse cara tá falando aí? Eu vou tirar você desse lugar, A pílula [Uma vida só (Pare de tomar a pílula)], essas estarão no show.

Hoje o que te desperta interesse? O que você tem ouvido e te chamado a atenção?
Eu tenho ouvido pouco. É um erro meu, mas eu tenho ouvido pouco. Os meus ídolos continuam sendo os mesmos lá de trás. No Brasil, se você vai ouvir alguma coisa, eu vou no trabalho alternativo. Os grandes talentos estão no nosso trabalho alternativo. Infelizmente os trabalhos que estão na grande mídia estão uma mesmice danada. Eu, inclusive, estou querendo ser uma alternativa a essa mesmice, eu não quero ser essa mesmice. Quem repete fórmulas não faz arte, faz negócio. Eu acho que você vai encontrar arte no trabalho alternativo.

Nesse meio alternativo você citaria nomes?
Tem um monte, mas como eu te disse eu tenho escutado pouco, sou meio desatento. Se eu for citar um ou outro eu vou esquecer tantos. Tanta gente boa. Vou citar um, por exemplo: O Terno. É um power trio ótimo. Todas as linhas do alternativo são boas, por que o cara quando faz um trabalho alternativo está pensando na arte. Aposto que aí em São Luís tem, como deve ter em todos os estados brasileiros. Mas aí fica essa coisa dessa grande mídia, mostrando essa mesmice toda que não é música, não é arte, isso é um negócio. Esse tipo de coisa eu não gosto, que me desculpe o povo brasileiro, mas eu não gosto.

Além de Gatos e ratos ser um disco muito explícito é um disco em que inevitavelmente você volta a temas sobre a liberdade, a liberdade de fazer o que quiser, as liberdades individuais. Estamos vivendo quase uma nova ditadura sem os tanques nas ruas.
Houve uma jornalista, uma colega sua, que me disse que se esse meu disco tivesse sido feito na década de 1970 ele não teria sido liberado, música nenhuma. Eu concordo com ela. Eu falo desse metro quadrado em que as pessoas estão enquadrando a gente. Eu concordo com você. Nós estamos vivendo uma ditadura hipócrita de tal forma, essa coisa da sociedade, está assustadora. Eu pensava que não fosse ver duas coisas: o avanço da tecnologia, que eu tinha certeza que ia acontecer, mas achava que eu em vida não veria, e estou vendo. A tecnologia todo dia surpreendendo a gente, e a medicina em paralelo a isso também, só não temos esse progresso da medicina nos hospitais públicos. Eu pensava que com o passar dos anos eu fosse ver a melhora do ser humano como um todo. E eu vejo, parece que o ser humano tá piorando. Eu não sei se é por essa opressão. No meu disco, tem uma música chamada Livre, que eu questiono isso: quem é verdadeiramente livre? Ninguém é. Nesse disco eu estou clamando as pessoas para pararem com esse preconceito sexual das pessoas. As pessoas têm preconceito sobre a opção sexual, como em Moral imoral eu falo isso. Deixa cada um ter sua opção sexual, para de meter o dedo. Eu falo no trânsito. O trânsito em qualquer capital brasileira, São Luís, Rio, São Paulo, Goiânia, Recife, as pessoas estão em uma disputa insana, é uma coisa louca. As pessoas têm que se acalmar. Eu vejo muita esperança nessa juventude mesmo para ter uma melhora. Nós, os adultos, gente próxima à minha idade que está no poder, isso aí só tá levando pro brejo. E vivemos sim um momento muito difícil: só faltam os tanques na rua.

Você falou em tecnologia. Como você se relaciona com ela? Baixa música, vê youtube, usa redes sociais?
Eu não sei mexer com isso. Eu sou um cara das cavernas. Eu demoro para trocar de celular, por que toda vez que eu troco eu demoro dois anos para aprender a mexer. O mundo digital permitiu a gente tanta coisa boa, é uma liberdade. Eu sei que tem muita coisa errada, mas é uma liberdade. Eu posso fazer o meu disco, ele pode chegar até você, o público pode ter a liberdade de ouvir o meu disco sem ele estar passando por um filtro de programação de grandes mídias. Não que eu tenha nada contra a grande mídia, mas você sai daquele quadrado, você está livre. Eu vejo isso de uma forma muito boa.

Inclusive muita gente conheceu, para ficar em um exemplo que a gente já falou, O filho de José e Maria através de sites de download, youtube.
Não é, cara? Hoje O filho de José e Maria é um sucesso. Ele está na minha carreira como uma coisa importantíssima. E o disco foi crucificado, foi desclassificado há 40 anos. Por que um círculo pequeno de mídia, um círculo pequeno de quem mandava determinou que ele não seria um sucesso. Hoje ele está aí, e quem gosta de O filho de José e Maria? Gosta o pessoal mais jovem, que está aí nos youtubes da vida, nas redes.

Às vezes é preciso tempo para reconhecer a grandeza de uma obra, de um artista.
Outro dia eu fui fazer um show aqui em São Paulo, no Sesc Itaquera, que é um lugar aberto, gigantesco. Depois do show eu fui falar com as pessoas e tinha uma garota do Rio de Janeiro, de Nova Iguaçu, aquela região da baixada. E ela falou que eu só tinha tocado duas músicas de O filho de José e Maria. “Ah, eu achei que você ia tocar mais, você tem que ir ao Rio apresentar esse projeto”. Ela virou pra mim e disse assim: “que aliás é um projeto que só vai ser compreendido daqui a 40 anos”. Eu virei pra ela e falei: “então lascou, por que ele já tem 40” [risos]. Eu tou fazendo disco pra não lucrar com ele nunca.