Cora comovente

Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação
Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação

 

Já era mais que hora da atriz Lília Diniz estrear em São Luís. Só Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces, a maranhense de Imperatriz já encena há 17 anos. Se demorou, a estreia foi triunfal: um primor de espetáculo.

Há muito de Cora em Lília, duas mulheres que não aceitaram ser rotuladas pelas sociedades em que vive(ra)m. Poeta que também é, Lília encarna Cora, não como uma tradução, mas como se a goiana se materializasse para além da poesia, da casa e do exemplo que deixou, após inventar seu pseudônimo justamente para fugir da opressão familiar. A cena em que acende uma vela em frente a um livro de Cora Coralina dá ideia da devoção da atriz em cena a poeta que encena.

Não é preciso ser versado em Cora Coralina para assistir e se emocionar com o monólogo. Com os sagrados corações de Maria e Jesus na parede, somos convidados a uns bons dedos de prosa na cozinha da casa da senhora, passando por poesia, música e vida.

Lília Diniz adentra o teatro cantando, vinda de trás da plateia, em procissão, pedindo bênção ao Rio Vermelho, como Cora Coralina fazia todas as manhãs e registrou em poesia. Está acompanhada por Maísa Arantes (rabeca, pífano e voz) e Léo Terra (viola e percussão), com quem tomará café no palco, enquanto desfia o rosário de conversa, nunca enfadonho.

Quando criança Cora gostava de conversar com gente mais velha, o que lhe valeu sofrer bullying antes do uso corrente do termo. Na plateia somos todos crianças e desistimos dos celulares para prestar atenção na conversa, com que a senhora atriz nos prende a atenção enquanto prepara um doce de banana – e não se trata de mera cenografia. No palco, até o fogo do fogareiro é verdadeiro.

O cenário aparentemente simples nos dá grandes lições. Engana-se quem pensa que é preciso de muito para ser feliz. Seu baú parece mágico: é só um baú, mas como tira coisas e memórias dali. Seu baú é mágico. E Cora dentro de mim é simplesmente comovente.

Cora se lembra da violência da palmatória, de quando fugiu de casa, de quando voltou, costura, cozinha, brinca de boneca, joga amarelinha, se emociona, nos emociona. Transporta-nos a outro tempo e lugar, conectando-nos à beleza e verdade de sua obra e vida.

Cora dentro de mim é peça que dura mais que sua hora de duração. Artista consciente de seu lugar e papel, Lília Diniz conversa com o público sobre os mais variados temas: a descoberta da poesia de Cora Coralina, a montagem do espetáculo, a viabilização desta circulação – que passará ainda por São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ e Ceilândia/DF –, através do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF), a necessidade de vigília permanente, não só de artistas, para a garantia de direitos culturais, sobretudo diante do atual momento político por que passa o país, e acessibilidade: o espetáculo conta com audiodescrição e intérprete de Libras.

Em São Luís Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces tem mais uma sessão hoje (26), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada franca e degustação de doces do chef Thiago Brito (Casa d’Arte) ao final do espetáculo. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro a partir de 14h. Longe de qualquer clichê: imperdível!

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

Um comentário em “Cora comovente”

  1. Adorei o texto, me deixou com água na boca e muita vontade de assistir Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces.

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