Com gingado, Lira Neto conta histórias do samba

[O Imparcial, ontem]

Inaugurando nova trilogia, Uma história do samba: volume I (As origens), novo livro do autor das biografias de Padre Cícero e Getúlio Vargas, conta as histórias do início do samba e sua consolidação como gênero musical brasileiro por excelência

Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução
Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução

 

Autor das bem sucedidas biografias de Padre Cícero [Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; Companhia das Letras, 2009] e Getúlio Vargas [Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930); Companhia das Letras, 2012; Getúlio: do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945); Companhia das Letras, 2013; e Getúlio: da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954); Companhia das Letras, 2014] – trilogia que vendeu 250 mil exemplares – o escritor Lira Neto se põe agora a contar as histórias do samba em Uma história do samba: volume I (As origens) [Companhia das Letras, 2017, 342 p.; R$ 64,90], primeiro volume de uma nova trilogia.

Lira Neto acerta ao usar o artigo e o plural no título de seu novo livro: trata-se de uma história, sua versão, digamos, das origens do brasileiríssimo gênero musical, do qual até hoje é impossível falar no singular.

De quando o samba ainda era uma denominação comum para festas, em vez de designar um gênero musical, até o início do primeiro governo de Getúlio, o autor passeia por diversos momentos e nomes fundamentais para a consolidação do samba como essa espécie de atestado de brasilidade em que se configurou.

Sem se pretender dono da verdade, o autor tem a ginga e a malemolência para entrecruzar diversos episódios e contar várias histórias deliciosas. Não é, no entanto, um livro menos sério, fruto de árdua pesquisa – notas e fontes somam quase 40 páginas.

O livro começa com o convite de Heitor Villa-Lobos, então diretor do Departamento de Música da Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal – à época ainda o Rio de Janeiro – a Zé Espinguela para o resgate de um cordão carnavalesco.

Passa pelas parcerias inaugurais do maranhense Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, pela fundação das primeiras escolas de samba, como a Deixa Falar – que viria a dar na Estácio de Sá – e a Estação Primeira de Mangueira, por Cartola, Carlos Cachaça e companhia, pela gravação de diversos músicos e músicas populares brasileiros a bordo de um navio, numa jogada de marketing e política de boa vizinhança americana, entre os quais estavam Cartola e a santíssima trindade da música brasileira: Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

Uma história do samba: volume I (As origens) visita também a polêmica em torno de ter sido (ou não) o maxixe Pelo telefone [1916], de Donga, o primeiro samba – a música é considerada marco inaugural do gênero e em torno de sua data de gravação celebrou-se, ao longo de 2016, prolongando-se por este ano, o centenário do samba.

Conta deliciosas histórias sobre Noel Rosa – que trocou a medicina pelo samba, até morrer tuberculoso aos 26 anos –, outro nome fundamental para a popularização e “urbanização” do samba, Ismael Silva, Francisco Alves e Mário Reis – estes, dois dos maiores cantores de sua época, ganharam fama também como “comprositores”, isto é, pagavam para ter seu nome em parcerias em que não puseram nada além da voz, uma espécie de pedágio ou jabá, antes de esta acepção ter sido inventada.

Lira Neto foge da enfadonha linearidade, escreve como se sambasse, e, qual um passista na avenida, leva o leitor a Paris com Os Oito Batutas, naturalmente liderados por Pixinguinha, passeando depois pelas agruras que o grupo enfrentou em turnê pela vizinha argentina. Lembra ainda Sinhô, autor de Jura, tido como o Rei do Samba, que faleceu na miséria, vítima da tuberculose que venceu tantos artistas, além das primeiras competições entre as escolas de samba cariocas, organizadas pelo efêmero Mundo Sportivo, jornal comandado por Mário Filho – que viria a batizar o estádio do Maracanã.

Com pitadas de indispensável bom humor, Lira Neto acompanha as evoluções do samba neste curto período inaugural. Merecem atenção do leitor também o destacado papel da crítica e o racismo vigente à época. Ao fim da leitura, impossível não ansiar pelo/s próximo/s volume/s da trilogia Uma história do samba. Este primeiro já se configura obra imprescindível, não só sobre a história do samba, mas sobre a história da música (popular) brasileira.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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