Autobiografia do criador

Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução
Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução

 

A ideia é ao mesmo tempo tão extraordinária quanto óbvia: uma biografia de Stan Lee em quadrinhos. Escrita pelo próprio, com Peter David e Colleen Doran. Trata-se de Incrível, fantástico, inacreditável: a biografia em quadrinhos do gênio que criou os super-heróis da Marvel [Amazing, fantastic, incredible: a marvelous memoir; tradução: Maurício Muniz; Novo Século Editora, 2016, R$ 59,90].

É o próprio Stan Lee, tornado personagem, quem narra seus feitos, sem medo de soar imodesto. Pelo contrário: não teme afirmar ter sido fundamental para a revolução no universo não apenas dos quadrinhos, mas de toda a cultura pop do planeta no século passado.

Lembra a infância difícil, quando se manifesta o interesse precoce por literatura, alguns subempregos no começo da adolescência, a passagem pelo exército – já na condição de escritor – e a paixão avassaladora pela futura escritora Joan Lee, autora de O palácio do prazer, com quem está casado desde os 25 anos.

Suas aventuras pelo mundo das HQs começa com o convite para escrever um roteiro do Capitão América. Nunca mais a nona arte foi a mesma. Tanto que, anos depois, a concorrente DC Comics convidaria Stan Lee para re/fazer seus personagens a seu modo.

O começo não foi fácil: comumente visto como arte menos importante, autoridades americanas, à época, relacionavam histórias em quadrinhos ao uso de drogas e durante algum tempo certo bom mocismo acabou por censurar muitas histórias. Quem ousou peitar as autoridades foi justamente Stan Lee, que após a encomenda de uma agência do próprio governo americano, não achou justo deixar de publicar uma série de histórias que versava justamente contra o uso de drogas.

Incrível, fantástico, inacreditável é uma verdadeira declaração de amor a super-heróis como o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, O Incrível Hulk, Thor, O Homem-Formiga e sua companheira Vespa, O Homem de Ferro, Conan, o Bárbaro, O Justiceiro e os X-Men, entre outros que, de tão populares, são por demais conhecidos até mesmo por quem não se interessa por quadrinhos, além de nomes importantes para o desenvolvimento e/ou consolidação de vários destes personagens, como John Romita, Steve Ditko e, entre outros, Larry Lieber, classificado pelo próprio Lee como “um dos heróis desconhecidos dos quadrinhos. Um incrível escritor, criador de layouts, desenhista. Ele faz seu trabalho de maneira linda e eficiente. Em sua carreira, ele escreveu e desenhou quase todo tipo de quadrinho com louvor. Pra ser justo, acho que às vezes eu tinha que fazer força pra não favorecê-lo frente a outros profissionais por ser meu irmão”.

A biografia vai tão a fundo que resgata episódio pouco conhecido: o beatle Paul McCartney procurou Stan Lee para que fosse produzido um gibi sobre o lançamento de Seaside woman, canção de sua banda Wings, cantada por sua esposa, Linda McCartney, sob o pseudônimo de Suzy and The Red Stripes, apelido de Linda na Jamaica, graças a uma versão reggae de Suzie Q e Red Stripe a cerveja mais popular da terra de Bob Marley. Linda faleceu antes de o projeto se concretizar. Em 1977 Stan Lee lançaria um gibi protagonizado pelo Kiss.

Imodéstia e bom humor caminham em paralelo nesta obra fundamental também para a compreensão da indústria em torno destes seres dotados de superpoderes. Quando lembra de uma máquina de escrever quebrada em meio a uma briga qualquer com a esposa, da qual sobraram peças para todo lado, arremata: “foi antes de existir o Ebay. Pena. Eu poderia ter leiloado as partes por muito dinheiro”.

Cifras monumentais giram em torno de Stan Lee, que lembra que, após uma longa batalha judicial, o Homem-Aranha dirigido por Sam Raimi no cinema, em 2002, foi orçado em 139 milhões de dólares, tendo rendido mais de 800 milhões no mundo inteiro – há uma cena do filme em que ele aparece, puxando uma menina para longe dos destroços de um prédio. Desde 1989 ele fez mais de 20 aparições em filmes baseados em personagens que criou ou ajudou a criar.

Conduzida como se fosse uma palestra em que remonta sua vida e obra – e Stan Lee já deu várias voltas ao mundo fazendo isso –, ele deixa ainda preciosos conselhos para quem quiser se aventurar (literalmente) por este universo. Os adjetivos do título ainda são poucos para classificar esta HQ que já nasce antológica.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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