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Para Belchior com amor. Capa. Reprodução
Para Belchior com amor. Capa. Reprodução

 

O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.

Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.

O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.

Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.

A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.

Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.

Ouça Alucinação, eleito por internautas e críticos do jornal O Povo, “o melhor disco cearense de todos os tempos”:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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