As várias facetas do movimento mangueBit

A grande serpente. Capa. Reprodução
A grande serpente. Capa. Reprodução

Em A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit [mantenho na resenha a grafia da autora; Fundarpe, 2014, 224 p.], Paula Lira faz um profundo mergulho na história do surgimento do mais recente movimento organizado da música brasileira, cujo boom se deu no início dos anos 1990, no Recife.

De múltiplas formações, a autora baseia-se em dois trípticos: a poética, a ciência (desde o nome artístico de seu principal artífice) e a mitologia do mangue, que ajudaram a fecundar e eclodir o movimento, além da diversão, diversidade e brodagem, elementos também fundamentais para o despertar da grande serpente.

Para um ludovicense que acompanhou com algum atraso a r/evolução do movimento – a partir de fins da década de 1990 –, é impossível não ler o livro sem fazer dois exercícios: o de lembrar as descobertas, à época; e indagar-se o porquê de, apesar de condições parecidas, do ponto de vista musical e da biodiversidade, algo parecido não ter acontecido em São Luís – a riqueza da cultura popular e as grandes áreas de manguezal, além do imaginário ao redor de lendas, incluindo também uma serpente adormecida nos subterrâneos da ilha.

O livro de Paula Lira é fruto de uma pesquisa de mestrado mas consegue tornar-se acessível ao leitor comum, de fora dos muros da universidade. Sem abrir mão dos rigores da ciência, o resultado é poético, como afirma o subtítulo, dando conta da complexidade e variedade do que foi/é o movimento mangueBit, para além da música e dos símbolos por que ficou mais conhecido, os caranguejos com cérebro e a antena parabólica enfiada na lama.

Por vezes como elemento partícipe, a autora acompanha festas, discos, moda – a partir dos primeiros shows de Chico Science, garotos adotam o chapéu de palha, apontando para a criação de uma estética mangue –, e entrevista nomes fundamentais do movimento, entre músicos – sobretudo integrantes da Nação Zumbi e mundo livre s/a, DJ Dolores – e gente de outras áreas –, o jornalista Renato L, ministro da informação do movimento mangue, e h. d. mabuse, ministro da tecnologia, sem nunca perder de vista o elemento diversão, a “greia”.

A pesquisa de mestrado ganhou adendos para tornar-se livro e é possível perceber uma r/evolução (das periferias) recifense/s a partir do movimento mangue: de quarta pior cidade do mundo para se viver, como apontava o noticiário da época, a uma cidade onde as coisas acontecem, apontando o desejo de uma inversão no fluxo migratório: em vez de jovens recifenses quererem sair para Rio de Janeiro e São Paulo, passa a acontecer o contrário. De música para se divertir – fazer o que se quer ouvir, mesclado ao do it yourself do movimento punk, também fonte de inspiração – a questionamentos sobre a realidade social, sem perder o ritmo, o elemento dançante, mas com diversidade, ao contrário do axé baiano. Nação Zumbi não é mundo livre s/a, que não é Eddie, que não é Mestre Ambrósio e versa-vice.

Aos mais de 20 anos de movimento, que deu à música brasileira discos hoje antológicos como Da lama ao caos [1994] e Afrociberdelia [1996], os dois primeiros da Nação Zumbi, ainda sob o comando do inovador Chico Science, morto precocemente em um acidente automobilístico no carnaval de 1997, passando pela estreia da mundo livre s/a Samba esquema noise [1994] – título fortemente influenciado pelo Samba esquema novo [1963] de Jorge Ben (depois Jor), cujo A tábua de esmeraldas [1974] é uma espécie de horizonte estético do movimento –, e Samba pra burro [1998], de Otto (não à toa ex-percussionista de ambas), seguiu-se a consolidação do Recife como metrópole não apenas musical brasileira, com resultados positivos em áreas diversas como cultura, turismo e patrimônio. “Um passo à frente” em relação à mpb de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e cia. que antecedeu os mangueboys.

Não se pode desprezar também o fato de que Pernambuco é, hoje, o maior polo cinematográfico brasileiro, para o que já apontava também o início do movimento mangue, com cineastas como Paulo Caldas e Lírio Ferreira – diretores de Baile perfumado [1996], que conta a história de Benjamim Abraão, o homem que fotografou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. À trilha sonora comparecem expoentes do movimento, como Chico Science, Fred 04, Stela Campos e Mestre Ambrósio, entre outros.

Talvez seja impossível falar em mangue no singular, tamanha é a fertilidade do ecossistema e a contribuição à cultura brasileira dada pela turma de Chico Science e Fred 04 – talvez ainda não reconhecida como deveria. A edição de A grande serpente é importante pontapé inicial neste sentido, não à toa reconhecido como “o primeiro livro mangue” por Fred 04 ou “um livro para se ouvir” por Renato L: é caprichada, sem descuidar de qualquer aspecto: em um livro muito bem realizado do ponto de vista gráfico (a serpente perpassando as páginas), conteúdo fundamental para interessados na cena do Recife ou em música brasileira em geral.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

5 comentários em “As várias facetas do movimento mangueBit”

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