Aqueles meninos somos nós

Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução
Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução

 

É bastante oportuna a presente reedição de Os meninos da Rua Paulo [Companhia das Letras, 2017, 271 p.], numa época em que valores como união, companheirismo, fidelidade, dignidade, honra, lealdade e humildade, entre outros – de que, afinal, trata o livro –, andam tão “fora de moda”.

Desde que foi lançado, há 110 anos, o clássico juvenil de Ferenc Molnár vem esgotando edições e conquistando, mais que leitores, gente que devota a ele algum pedaço importante de sua formação, como atesta o apêndice emocional do volume, com belos textos de Nelson Ascher e Michel Laub.

Para crianças de todas as idades, poderia recomendar o clichê publicitário, a aventura é por demais conhecida e emocionará leitores de primeira viagem e os que a ela retornam. Conta a história de adolescentes que brigam pelo direito de ocupar um terreno baldio, o grund, numa área de Budapeste. São dois exércitos organizados, com suas hierarquias, táticas, estratégias e muita disposição.

A tradução e as notas caprichadas de Paulo Ronái, ele mesmo nascido húngaro e tornado brasileiro, são um luxo, apontando detalhes que poderiam nos passar desapercebidos, da pronúncia dos nomes dos personagens a pequeníssimos escorregões do autor (por exemplo a confusão em torno da bandeira de um dos exércitos juvenis que protagonizam a aventura).

Até hoje não se sabe ao certo se Molnár foi integrante da Sociedade do Betume, embora duas passagens no texto indiquem que sim. O título do livro já nos instiga a simpatizar com ela, mas independentemente de para que lado se torça e dos vencedores, é um livro paradoxalmente triste, apesar de todas as lições que dele podemos tirar.

Um bom exemplo destas lições é a fala de Nemecsek, quando apanhado em território inimigo: “Preferi tomar um banho a ficar à beira do lago rindo de um camarada. Prefiro ficar na água até o Ano-Bom a conspirar com os inimigos dos meus amigos. Pouco me importa que vocês me tenham dado um banho. Outro dia caí na água sozinho: foi quando o vi aqui pela primeira vez, entre estranhos. Podem convidar-me a ficar com vocês, adular-me, cumular-me de presentes: nada tenho que ver com vocês. Se me botarem na água mais uma vez, ou cem vezes, ou mil vezes, voltarei sempre: amanhã, depois de amanhã, e me esconderei em algum lugar onde vocês não me verão. Não tenho medo de nenhum de vocês. E, se vierem à rua Paulo tomar-nos o nosso terreno, lá estaremos. Lá, verão que, quando nós também somos dez, sabemos falar em outro tom. Comigo a briga não foi difícil! Vence quem é mais forte. Os Pásztor roubaram as minhas bolas de gude no parque do Museu, porque eram os mais fortes! Dez contra um, é fácil! Mas a mim pouco importa. Podem-me dar uma surra, se quiserem. Bastava eu não querer para não entrar na água, mas recusei o seu convite. Podem afogar-me ou matar-me a pauladas: eu nunca serei traidor como certos indivíduos… como este…” (p. 125-6), uma verdadeira aula de dignidade em tempos golpistas.

Ou ainda: “Esta é a sorte do traidor: desconfiam dele mesmo quando fala a verdade” (p. 186). “Ao ler, este ou qualquer outro livro, queremos fantasiar – pleiteamos, mesmo que já adultos, um espaço livre para a imaginação, reivindicamos a infância de volta, o nosso terreno baldio”, afirma o editor Luiz Schwarcz na orelha-exceção, mesmo quando perdemos este terreno baldio para a especulação imobiliária, por exemplo.

Pode parecer apenas uma fábula juvenil, mas no fundo, Os meninos da Rua Paulo é um livro sobre cada um de nós, atualíssimo, mesmo após 110 anos de publicado.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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