A morte em vida (ou uma metáfora destes tristes tempos)

Everaldo Pontes e Sabrina Greve em cena de Clarisse. Still. Reprodução
Everaldo Pontes e Sabrina Greve em cena de Clarisse. Still. Reprodução

 

Clarisse (ou alguma coisa sobre nós dois) [Brasil, 2015, drama, 85 min.; classificação indicativa: 16 anos; estreia amanhã (2), no Cine Praia Grande] não é um filme fácil, com suas metáforas sobre a morte e o capitalismo. Melhor longa-metragem cearense de 2016 de acordo com a Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine), entre vários outros prêmios, o drama de Petrus Cariry tem como protagonistas os fantasmas da infância da personagem-título (Sabrina Greve), que a perseguem numa viagem para encontrar o pai (Everaldo Pontes), um milionário da indústria da mineração em fase terminal – da vida, não de seu “sucesso” capitalista.

Pragmático, apesar do hobby de taxidermista, um dos orgulhos do pai de Clarisse é tê-la casado bem, com um estrangeiro (David Wendefilm) que, afinal, acabou por ingressar nos quadros de sua empresa – pouco importa se a filha não é/parece feliz, como demonstra claramente a primeira cena de sexo do filme.

Atormentada, Clarisse sangra, como se o sangue que jorra de qualquer parte de seu corpo, espécie de suor a livrá-la das toxinas da alma, dependendo da ocasião, a aliviasse da companhia dos fantasmas – a mãe e o irmão mortos em sua infância, seguida da transferência para Fortaleza e os estudos na Europa, pagos com o dinheiro do negócio do pai, como ele alega numa das conversas à mesa.

O pai de Clarisse parece não ter tempo para sentimentalidades e o espectador percebe que foi assim a vida inteira. Ela se ocupa das lembranças, entre fotografias e gravações, cujo acesso é facilitado pela empregada (Verônica Cavalcanti), que cuida de tudo: da comida ao banho no velho, passando por matar um porco – os barulhos, aliás, merecem destaque, o grunhido do porco, a explosão da pedreira, causando incômodos.

Os personagens de Clarisse parecem ter a compreensão da finitude da vida, mas parecem não se importar. “Está fazendo o que sabe de melhor: ganhar dinheiro”, devolve Clarisse ao pai, sobre seu genro, talvez criticando estes tristes tempos, talvez soando socialista, comunista ou coisa que o valha, talvez tão somente buscando ser feliz, quando decide demorar mais do que o previsto longe de Fortaleza e do marido, em Maranguape – o filme foi rodado entre as duas cidades –, onde vive o pai e onde, em busca de lucro, ele aos poucos foi destruindo seu próprio meio ambiente – que importa? O importante é lucrar, acima de tudo e em nome de qualquer coisa, parecem ecoar os sinais destes tristes tempos.

Veja o trailer:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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