Arte, violência e política

“A violência gera fascínio. É o principal agente da espetacularização da vida. Eu te pergunto: quem é que comanda o discurso da violência? A mídia e a indústria do entretenimento. Vemos um filme violento ou a cobertura da imprensa sobre um caso policial e pensamos: “A realidade é exatamente assim.” Mas não é. O discurso da violência se impõe como um realismo espetacular que nos fascina, mas não cria saídas. Vamos esquecer o Cara de Cavalo e vamos falar de agora. Lá nos Estados Unidos, um cara vestido de Coringa invade a pré-estreia do filme Batman armado até os dentes e faz uma chacina real! A fantasia explode a tela e mata pessoas de verdade. E quanto a nós, sujeitos comuns, acabamos como vítimas ou espectadores? Como se posicionar artisticamente diante disso?”.

Cara de Cavalo. Capa. Reprodução
Cara de Cavalo. Capa. Reprodução

Ao responder sobre a relação entre arte e violência, acima, o Entrevistado, uma personagem de Cara de Cavalo [Cobogó, Coleção Dramaturgia, 2015, 66 p.], o texto da peça de Pedro Kosovski, encenada pel’Aquela Cia. de Teatro (RJ), dá a real em um vídeo, antes de a encenação propriamente dita começar. Cara de Cavalo, sabemos, é o controverso personagem imortalizado por Hélio Oiticica na bandeira que traz seu retrato morto, com a inscrição “seja marginal, seja herói”.

Agora o Entrevistado comenta a relação entre arte e política: “Hoje em dia, a política se expressa na arte mais pela forma do que pelo conteúdo. Mas se a gente olha a história da arte, não é bem assim. É fácil observar obras que elegem uma certa causa ou tema como bandeira, assumindo normalmente um tom denuncista, ou didático. Um exemplo histórico: o CPC, dos anos 1960, onde uma elite intelectual santificava o pobre, o excluído. Outro caso mais interessante: uma carta de Graciliano Ramos para Portinari. Como se sabe, esses artistas retrataram em suas obras a miséria no Brasil. Nessa carta, Graciliano questiona Portinari e afirma que vive uma séria crise, já que, se não existisse a fome e a pobreza, talvez ele não tivesse força para se tornar artista. Compreende a dimensão do problema?”.

Autor, diretor e ator de teatro carioca, Kosovski cerze com tons de ficção e atualiza a lenda de Cara de Cavalo – infelizmente bastante atual: Manoel Moreira, seu nome de pia, foi morto pelo esquadrão da morte carioca na então recém-instalada ditadura civil-militar que assombrou o país por 21 anos. O motivo? Justiçamento pela morte de um agente da polícia que usou do cargo e da farda para defender interesses pessoais de um bicheiro. De pequeno traficante, cafetão e contraventor, o morador da Favela do Esqueleto passaria imediatamente a ser o bandido mais procurado do Rio de Janeiro. Qualquer semelhança com as milícias contemporâneas não é mera coincidência.

Novamente o Entrevistado, sobre a relação entre Hélio Oiticica, artista plástico de quem a Tropicália de Caetano, Gil e companhia pegaria emprestado o nome, e Cara de Cavalo: “A relação entre Cara de Cavalo e Hélio Oiticica é interessante para se pensar o problema atual da violência. Nesse caso, ninguém é refém da violência. Quando ele cria a obra em homenagem ao Cara de Cavalo, ou quando ele cunha a famosa frase “Seja marginal, seja herói”, há uma tomada de posição. Ele poderia se render ao “bandido bom é bandido morto”, mas não. “Seja marginal, seja herói” é um chamado para um momento ético”.

“O jornalismo não se ocupa de verdades. Você sabe”, afirma a Entrevistadora a certa altura. Com críticas aos comportamentos da velha mídia e da polícia, Cara de Cavalo é uma peça necessária e atualíssima, um convite à reflexão.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

Uma consideração sobre “Arte, violência e política”

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s