Melhores de 2016

Quase nunca me arrisco em listas de melhores do ano. Apesar dos olhos e ouvidos atentos ao que rola no mundo da arte/cultura/entretenimento, sei que ando longe de ter lido/ouvido/assistido a tudo, ou ao menos a maior parte, além do fato de o Maranhão ser um tanto fora de rota (apesar de louváveis esforços mais ou menos recentes) e as coisas (livros, discos, shows, filmes, peças etc.) demorarem (ou nem) a chegar(em) até aqui. O fato é que sempre acho que minhas listas estão aquém do que poderiam/deveriam ser. E nisto, certamente os poucos mas fiéis leitores concordarão comigo. E concordarão mais ainda os que discordarem da lista, vocês entendem.

O fato é que Marcelo Costa, um dos pioneiros do jornalismo cultural na internet brasileira, editor do Scream & Yell, convidou-me (baita honra!) para votar nos Melhores de 2016 de seu site. Ele esteve em São Luís em novembro passado, participando do Festival BR 135/ Conecta Música, ocasião em que mediei uma mesa com ele, Alexandre Matias (Trabalho Sujo) e Roberta Martinelli (Cultura Livre, Som a Pino).

Até o final de janeiro Scream & Yell publica seu resultado final, compilando os votos de cerca de 100 formadores de opinião de todo o Brasil – esta sim, a lista que vale a pena. Torno públicos, a seguir, meus votos, tendo deixado algumas categorias incompletas e outras sem preencher – ambos os casos frutos do exposto no parágrafo inicial.

MELHOR DISCO NACIONAL

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

1. Só vou chegar mais tarde, Edvaldo Santana – O cantor e compositor de São Miguel Paulista já citava São Luís e o tambor de crioula na letra de Jataí, faixa-título de seu álbum anterior, com cujo show (no formato voz e violão) passou pelo Cine Teatro da Cidade de São Luís em novembro daquele ano. Neste novo disco volta a surpreender: o bolero Ando livre cita o Bar do Léo, que ele conheceu naquela viagem, e conta com a participação especial de Rita Benneditto. Mas ele não encabeça essa lista por puro bairrismo. Ouçam e entendam!

Tropix. Capa. Reprodução
Tropix. Capa. Reprodução

2. Tropix, Céu – Perfume do invisível estava na trilha de Velho Chico, o melhor acontecimento da teledramaturgia brasileira em 2016. Orgânico e eletrônico, o disco tem produção do francês Hervé Salters (General Elektriks) e Pupilo (Nação Zumbi). Merece destaque a regravação de Chico Buarque song, da mítica Fellini.

Fábrica de animais. Capa. Reprodução
Fábrica de animais. Capa. Reprodução

3. Fábrica de Animais, Fábrica de Animais – Não foi à toa “Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver” ter dado título à minha resenha do segundo disco da banda liderada por Fernanda D’Umbra, batizada por romance de Edward Bunker. Rock’n roll de alta voltagem poética.

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

4. Hóspede da natureza, Cátia de França – Disponível para download gratuito e legal na web, o disco novo de Cátia de França levou 10 anos maturando. Gravado em 2005, com músicos que tocaram com Cássia Eller, só foi lançado ano passado, revelando a força da autora de Kukukaya, gravada por Xangai e Elba Ramalho.

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

5. Bagaça, Bruno Batista – O quarto disco de Bruno Batista é o primeiro em que ele grava parcerias. Sempre que ouço o artista, em discos ou shows, me pergunto: quando é que Maria Bethânia e/ou Ney Matogrosso irão gravar suas canções?

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

Day breaks. Capa. Reprodução
Day breaks. Capa. Reprodução

1. Day breaks, Norah Jones – O retorno da artista ao jazz.

You want it darker. Capa. Reprodução
You want it darker. Capa. Reprodução

2. You want it darker, Leonard Cohen – 2016 foi um ano de grandes baixas. A exemplo de Bowie, Cohen deixou um belo disco antes de partir.

Blue & Lonesome. Capa. Reprodução
Blue & Lonesome. Capa. Reprodução

3. Blue & Lonesome, Rolling Stones – Se o blues é o pai do rock, os vovôs Stones seguem na ativa com um belo disco na volta às origens.

Blackstar. Capa. Reprodução
Blackstar. Capa. Reprodução

4. Blackstar, David Bowie – A “necrofilia da arte” (como cantou o Pato Fu) em torno do camaleão ter previsto a própria morte não ofuscou (ainda bem!) a beleza e a importância de seu derradeiro registro.

I still do. Capa. Reprodução
I still do. Capa. Reprodução

5. I still do, Eric Clapton – Título autoexplicativo.

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: divulgação/ BR 135
Foto: divulgação/ BR 135

1. Nação Zumbi, Afrociberdelia – 20 anos, Festival BR 135, Praça Nauro Machado, São Luís – Uma noite mágica!

 

Foto: Marco Aurélio/ BR 135
Foto: Marco Aurélio/ BR 135

2. Di Melo, O Imorrível, Festival BR 135, Praça da Criança, São Luís – Outra noite mágica! O lendário Di Melo, pela primeira vez na ilha, acompanhado por instrumentistas locais. Show ao vivo não deixou nada a dever ao groove do disco inaugural de Di Melo, de 1975, um dos grandes álbuns do soul/funk brazuca. Apresentação misturou músicas daquele com faixas de O imorrível [2016], segundo álbum oficial de Di Melo.

Foto: Jotabê Medeiros
Foto: Jotabê Medeiros

3. Tássia Campos, Encontrando Belchior, Odeon Sabor e Arte, São Luís – 2016 foi o ano do #foratemer e do #voltabelchior. O show que a cantora dedica ao repertório do cearense teve algumas edições. Esta, particularmente, contou com a participação especial de Jotabê Medeiros, que contou uma história, uma das muitas que conta/rá em Pequeno perfil de um cidadão comum, belchiorgrafia que publica este semestre. O jornalista esteve em São Luís participando da Feira do Livro, ocasião em que leu um trecho inédito do livro que está escrevendo.

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

4. Bruno Batista, Bagaça, Mandamentos Hall – “O melhor show de Bruno Batista (até aqui)”, anotei em texto sobre o show.

Fotosca: ZR
Fotosca: ZR

5. Alexandra Nicolas, Eu vou bulir com tu, Espigão Costeiro da Ponta d’Areia, São Luís – A cantora realizou sete apresentações em praças públicas de São Luís, com repertório baseado em ritmos consagrados no Nordeste, pitadas de duplo sentido e um pé também no carimbó paraense. Os shows serviram também de teste de repertório para seu segundo disco, provisoriamente intitulado Bulir com tu, que ela começa a gravar neste primeiro semestre, a ser lançado ainda em 2017.

MELHOR FILME NACIONAL

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

1. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho – Por tudo.

Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução
Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução

2. Big Jato, de Claudio Assis – Baseado na autoficção homônima de Xico Sá, o filme tem Mateus Nachtergaele em dois papéis e a participação especial de Jards Macalé interpretando o príncipe Ribamar da Beira Fresca, espécie de louco da aldeia.

Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução

3. Lua em sagitário, de Márcia Paraíso – Belo romance juvenil merece destaque por abordagem diferenciada em relação ao (quase) sempre criminalizado MST.

MELHOR LIVRO

O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução
O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução

1. O conto zero e outras histórias, Sérgio Sant’Anna – Melhor contista brasileiro em atividade.

Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução

2. Visões de um Poema Sujo, Márcio Vasconcelos – O fotógrafo faz sua releitura particular da obra prima de Ferreira Gullar. Este mês ele inaugura exposição em São Paulo.

Ostreiros. Capa. Reprodução
Ostreiros. Capa. Reprodução

3. Ostreiros, Bruno Azevêdo e Ana Mendes – Fotos e perfis de ambulantes da orla de São Luís. Um livro necessário e divertidíssimo.

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

4. Trinta e poucos, Antonio Prata – Coletânea de crônicas publicadas na Folha de S. Paulo do melhor cronista em atividade no Brasil (sorry, Luis Fernando Veríssimo).

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

5. Os visitantes, B. Kucinski – O autor confirmou seu nome entre os grandes da literatura brasileira já em seu livro de estreia (na ficção), K, de 2011. Os visitantes é uma espécie de errata literária: Kucinski faz um novo livro a partir de incorreções de obra anterior, com a ditadura militar brasileira como tenebroso cenário.

O MELHOR DA TV

Reprodução
Reprodução

1. Cultura Livre, TV Cultura – Roberta Martinelli conviveu alguns anos com Fernando Faro, o nome mais importante para a música na televisão brasileira. Após sete temporadas de resistência com o Cultura Livre, ela estreou o diário Som a Pino, na Rádio Eldorado e assina uma coluna com o mesmo nome nO Estado de S. Paulo. Martinelli é uma das mais atentas observadoras da cena musical contemporânea no Brasil. Fernando Faro não deixa lacuna e certamente se orgulha dos esforços e resultados da discípula.

2. Baile do Baleiro, Canal Brasil – O maranhense Zeca Baleiro transformou em programa de tevê a ideia simples e eficiente de um show/festa em que se une a nomes das mais variadas gerações e estilos musicais para cantar suas memórias afetivas. Primeira temporada teve seis episódios e em seu palco nomes como Blubell, Wado, Odair José, Maria Alcina e Luiz Ayrão, entre outros, entre música e conversa. Que 2017 traga outra temporada, tão inspirada quanto.

Foto: divulgação/ Canal Brasil
Foto: divulgação/ Canal Brasil

3. Transando com Laerte, Canal Brasil – Nos últimos anos, Laerte deu algumas guinadas em sua vida/carreira, mostrando-se bastante competente em todas. No programa, explora sua veia de entrevistador e segue como a cartunista que melhor traduz a tragédia brasileira em tempos de golpe.

4. Velho Chico, Globo – A novela merece destaques pelo elenco, fotografia, locação e trilha sonora. Quase naufraga com a tragédia que levou Domingos Montagner, o Santo dos Anjos, um de seus protagonistas, que morreu afogado nas águas do Rio São Francisco, cujo apelido batizou a trama.

MELHOR VIDEOCLIPE

1. Perfume do invisível, Céu

2. Cuida com cuidado, Palavra Cantada

3. Bulir com tu, Alexandra Nicolas

4. Vida em vermelho, Blubell

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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