Literalmente antológico

Sambantologia. Capa. Reprodução
Sambantologia. Capa. Reprodução

 

A pergunta “letra de música é poesia?” ainda é ouvida aqui e acolá e uma das respostas possíveis é o exercício de separar letra e música e verificar se a primeira tem força para sobreviver sem a segunda. Isto é: há casos e casos.

O exercício contrário, no entanto, quase nunca se faz. Sobrevive a música sem sua poesia, no caso de uma música originalmente com letra ser tornada instrumental? A resposta será parecida à do exercício anterior.

Em Sambantologia [Biscoito Fino, 2016], os bambas do Nó em Pingo d’Água recriam instrumentalmente nove temas de nomes seminais do samba. O único originalmente sem letra é Nanã (Moacir Santos e Mário Telles), que a rigor nem samba é.

Mas esqueçam os rótulos pois é justo o que fazem Celsinho Silva (percussão), Mário Sève (flauta e saxofone), Rodrigo Lessa (bandolim e violão de aço) e Rogério Souza (violão), com a adesão de Romulo Duarte (contrabaixo).

É um disco para celebrar o centenário do samba, cujo marco é a gravação de Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) em 1916 e seu estouro no carnaval do ano seguinte. Não à toa é sua cadência amaxixada que abre o disco.

O título do álbum justapõe três palavras: samba, banto e antologia. Doutor em Musicologia pela Universidade de Tours, França, Carlos Sandroni assina um ótimo texto remontando às origens do samba, o gênero e a palavra, terreiro cheio de incertezas.

O Nó em Pingo d’Água – que tampouco tem este nome à toa – reprocessa outras pérolas das mais variadas vertentes, já que é impossível falar em samba no singular, tantas são as ramificações deste irmão do choro – terreno lembrado nas execuções do grupo, oriundo desta praia.

Obviamente não há pretensão do grupo em fechar a questão: uma antologia de samba poderia ocupar facilmente 10 discos. Ou mais. O exercício é justamente este: como dizer o máximo com o mínimo? São pérolas fundamentais para “a ascensão do gênero à condição de ícone sonoro do país”, como afirma Sandroni em uma passagem do texto do encarte.

Ismael Silva (autor de Se você jurar, em parceria com Nilton Bastos e Francisco Alves) configurou o “samba do Estácio”, qualificativo do samba que leva o nome do bairro carioca em que morava o compositor – Chico Alves, como era moda e seu feitio à época, certamente comprou sua parte na parceria. Ele comparece ao repertório ao lado de nomes como Dorival Caymmi (Samba da minha terra) e João de Barro (Copacabana, em parceria com Alberto Ribeiro).

Re/inventores do samba, Noel Rosa (Último desejo e Conversa de botequim, esta em parceria com Vadico) e Tom Jobim (Samba de uma nota só, em parceria com Newton Mendonça, e O morro não tem vez, com Vinicius de Moraes) são os únicos cujos nomes figuram mais de uma vez nos créditos.

O repertório coeso de Sambantologia é uma demonstração da grandiosidade da música brasileira. O trunfo do Nó em Pingo d’Água é não se acomodar, injetando frescor em um repertório que pode soar “batido” à primeira vista – nunca à primeira audição e às que se sucederem.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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