Poema sujo: vivo, atual, visual

Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos
Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos

 

Quando Diógenes Moura desceu do táxi, na Praia Grande, de madrugada, deparou-se com o Poema sujo diante dos olhos, vivíssimo: “vi aquele homem agachado, despido, ali, sozinho, tornando públicas as suas entranhas antes de os dois bêbados me abordarem descendo ladeira abaixo e pedindo dinheiro porque precisavam de um pouco mais de loucura”, escreve em Carta número um para uma coisa de fato, seu texto em Visões de um Poema sujo [Vento Leste, 2016], uma carta a seu autor, Márcio Vasconcelos, no livro que ele lança hoje (30) – o terceiro em 2016 –, às 19h30, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro).

“O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”, anota o então exilado Ferreira Gullar no Poema sujo, escrito entre maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, Argentina.

Cada homem ou mulher lê e percebe a cidade de modo diferente. Diógenes Moura, que assina a curadoria e concepção editorial de Visões de um Poema sujo, percebeu, após Márcio Vasconcelos vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2014, que ele já fotografava o Poema sujo há pelo menos 10 anos, expondo, como Gullar fez em versos, com o mesmo talento e olhar sensível, a beleza e a podridão – e nesta, a beleza – da cidade, do itinerário percorrido pelo poeta naquela que é considerada por muitos sua obra-prima.

A perspectiva de Márcio Vasconcelos é interessante: a algumas fotos realizadas antes de vingar a ideia de uma releitura fotográfica do Poema sujo, ele passou a imaginar-se exilado em Buenos Aires para fotografar a obra de Gullar. Este resenhista confessa: quando ouviu falar em Visões de um Poema sujo, antes de o livro existir, pensou tratar-se de uma espécie de Poema sujo ilustrado. Ainda bem que estava errado.

Não espere o leitor, portanto, uma tradução imagética da obra em versos. Quem leu o Poema sujo ora verá fotografias que remetem a determinados trechos do poema, ora se perguntará, talvez, por que determinada fotografia foi incluída no livro. A única constante no livro de Márcio Vasconcelos é a beleza, das imagens, cada uma por si e, obviamente, do conjunto – como o livro de Gullar, que teve trechos musicados e tem uns mais lembrados que outros, mas que é bonito por inteiro, mesmo quando chafurda no horrendo.

O poeta maranhense radicado no Rio de Janeiro prossegue: “mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa:/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas/ (mesmo rolando longe dela)/ O homem não está na cidade/ como uma árvore está num livro/ quando um vento ali a folheia”.

Márcio Vasconcelos fotografa o livro-poema de Ferreira Gullar, mas uma chave de leitura errada, ou melhor, uma chave de olhar errado, é imaginar algum tipo de fidelidade entre as imagens e o poema, como minha crença inicial.

Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução

Visões de um Poema sujo é uma contribuição importante e, por que não dizer, poética, ao reconhecimento da força e atualidade do Poema sujo, recém-relançado pela Companhia das Letras [2016, 112 p.], “livro que é um dos mais importantes da língua portuguesa da segunda metade do século XX”, conforme atesta o poeta e jornalista Celso Borges em Outra cidade e a mesma, o outro texto do livro de Márcio Vasconcelos.

“Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus cheiros e mangues. O fotógrafo procura e desnuda essa sujeira luminosa”, prossegue Celso Borges, para arrematar: “Algo permanece eterno, independentemente do tempo. Este o milagre: reencontrá-la e reinventá-la”.

Márcio Vasconcelos confessa uma de suas intenções ao realizar Visões de um Poema sujo – título também da exposição com que ganhou o Marc Ferrez: chamar novamente as atenções para o poema de Gullar, deixando livres os sentidos dos leitores para suas próprias interpretações.

É Gullar quem arremata: “cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas”.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

Um comentário em “Poema sujo: vivo, atual, visual”

    1. viva gullar e viva márcio! viva o poema sujo e viva visões de um poema sujo! noite mágica ontem. parabéns! abraço forte!

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