Goleada

Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação
Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação

Foi encerrado em grande estilo o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, ontem (6), na cidade balneária terra do padroeiro. Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga cantaram – os três primeiros revezando-se entre violão e percussão; o último apenas ao violão – para o ótimo público presente à praça da basílica.

Um público equilibrado entre moradores do lugar – uns sequer tiveram o trabalho de descer de suas calçadas, as cadeiras pelas portas da vizinhança do santo que dá nome a boa parte da população maranhense – e aqueles que fizeram de Ribamar uma espécie de cidade satélite cultural no último final de semana.

“É tão raro no Brasil, numa cidade do interior, as pessoas estarem ouvindo música popular brasileira à meia noite. Isso aqui é o futuro!”, vaticinou Moacyr Luz. Corroborando de sua profecia, passei a imaginar o que será esta produção de Tutuca Viana daqui a 10 ou 15 anos. O festival está no caminho certo, primando pela qualidade. Seu crescimento e continuidade depende de elementos externos: patrocinadores precisam acreditar que sua marca será vista por mais gente a cada ano, o poder público investir em estrutura (a sinalização da Estrada de Ribamar é precária, por exemplo) e o comércio local acreditar no potencial do evento (não há, na cidade vizinha à capital, um hotel com estrutura para receber os artistas – isto é, eles precisam se hospedar em São Luís, a mais de 30 km do local em que se apresentam). De todo modo, aposto que o São José de Ribamar Jazz e Blues Festival tem tudo para se transformar em uma nova Guaramiranga, talvez o maior evento do gênero hoje no Brasil, também realizado numa cidade do interior em um estado do Nordeste.

O repertório do quarteto no palco é completamente baseado no recém-lançado Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], comercializado pela primeira vez ontem, em São José de Ribamar – disco e dvd haviam acabado de chegar da fábrica e puderam ser adquiridos pelos fãs que enfrentaram a fila após o show para cumprimentar o timaço.

A metáfora futebolística é plenamente cabível: são quatro grandes craques de nossa música e, não à toa, abrem o show com Um a zero (Pixinguinha/ Benedito Lacerda/ Nelson Angelo), ao final da qual Macalé sopra um apito e aponta para o centro do gramado imaginário à beira do palco, para delírio da plateia e gargalhadas de Zé Renato, posicionado a seu lado.

Ao final de Favela (Padeirinho da Mangueira/ Jorge Pessanha), há tempos presente ao repertório de Macalé, o mais performático do quarteto, ele simula um trombone, imitando o som do instrumento com a boca e movimentando as mãos como se o soprasse; depois, tira um revólver de brinquedo de um penico e simula um tiro na própria cabeça, numa crítica à violência que ainda domina os morros, berços de tantos bambas, alguns deles lembrados no set list de Dobrando a Carioca.

O show é, em sua maior parte dedicado ao samba, mas grandes momentos surgem também quando fogem do gênero, casos, por exemplo, de Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé), que fez a plateia cantar junto, e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), idem.

Em Como tem Zé na Paraíba (Catulo de Paula/ Manezinho Araújo), imortalizada por Jackson do Pandeiro, Zé Renato tira onda consigo mesmo, ao entoar o verso final, “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, ao que Macalé emenda, aproveitando a ocasião: “de Ribamar”.

Díficil escolher um ponto alto do show, em que os quatro permanecem o tempo inteiro no palco. São sublimes momentos como as interpretações de Moacyr Luz para Cachaça, árvore e bandeira (Moacyr Luz/ Aldir Blanc), merecida homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça, com citação de Alvorada (Cartola/ Carlos Cachaça), de Guinga para Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), imortalizada por Leila Pinheiro, e de Macalé para O mais que perfeito (Vinicius de Moraes/ Jards Macalé) e Acertei no milhar (Wilson Baptista/ Geraldo Pereira), samba de breque cuja quebradeira faz novamente Zé Renato gargalhar.

“Até pinico dá bom som/ se a criação é mais, se o músico for bom”, dizem versos de Chá de panela (Guinga/ Aldir Blanc), em que, novamente para deleite e delírio da plateia e novas gargalhadas de Zé Renato, Macalé percute o penico que esteve a seu lado (portando seus instrumentos de percussão) o show inteiro. A música que encerra o show (e o disco e o dvd) é uma homenagem a Hermeto Pascoal, com fundo tetra-autobiográfico: nunca é demais lembrar que estamos diante de quatro gigantes. O Um a zero do bis é placar pequeno diante da goleada que foi o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival e, particularmente, seu encerramento com este já antológico Dobrando a Carioca.

 

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

4 comentários em “Goleada”

  1. Ao final do show, Macalé me garantiu que tocará Gothan City a próxima vez que vir a ilha. Os vilões que se cuidem!
    Pense num figura, esse Jards!

    1. já quero o próximo show, meu caro jonata! a sedihpop bem podia trazê-lo em alusão ao 10 de dezembro, para lembrar o “banquete dos mendigos”. abração!

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