Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

6 comentários em “Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica”

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