Intimidade e entrega

Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos
Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos

 

Ex-namorados, Dandara e Paulo Monarco esbanjam intimidade ao figurarem nus na capa e encarte de Dois tempos de um lugar [2016], disco produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone e mixado por Ricardo Mosca (Pau Brasil). O par não precisa de mais que uma faixa para provar que estamos diante de dois artistas talentosos.

Ela, cantora habilidosa, que ouvintes mais antenados lembrarão de [2013], terceiro disco de Bruno Batista, que poderia também ter sido assinado por ela; ele, compositor interessante, autor, com diversos parceiros, de quase todo o repertório do disco – as exceções são Toca aí, de Túlio Borges, Trovoa, de Maurício Pereira, e a faixa-título, de Celso Viáfora.

Ame (Paulo Monarco/ Kleuber Garcêz), quase toda rimada no título, entre a “delicadeza do origami” e a “força do índio Yanomami”, abre o disco, cumprindo bem o papel de apresentar a dupla e despertar o interesse do ouvinte pelas faixas restantes.

É basicamente um disco de vozes (Dandara e Monarco) e violão (Monarco, que toca guitarra em Escuta). As únicas exceções são o piano de armário em Toca aí e a gaita em Escuta, ambos tocados por Tó Brandileone. Zeca Baleiro canta em Tem dó, parceria dele com Paulo Monarco.

Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução
Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução

Dois tempos de um lugar é um disco profundo, de entrega. Como atesta a letra de Pra acordar (Paulo Monarco/ Suely Mesquita): “sorrir sem medo com a alma em carne viva/ alargo o peito pra poder acomodar/ um coração que cresce além da sua medida”.

É um disco para se apaixonar à primeira vista – ou melhor, à primeira escuta. Em tempos líquidos, a intimidade se dá ligeira, mas no que a dupla canta não é mera aventura. Em Escuta (Paulo Monarco/ Túlio Borges), pedem atenção com uma pitada de erotismo: “Escuta a história que vou te contar/ que vou te lamber/ o aparelho auditivo/ que vou te chupar/ a intimidade do ouvido”.

O ofício musical e suas delícias também são temas em Dois tempos de um lugar. Na faixa-título voltam a pedir atenção e a demonstrar intimidade: “É tudo muito estranho, eu sei, você nunca me viu, mas por favor, escuta/ não me pergunte como nem por que, mas sei que temos vidas muito juntas”. Em Madrigal (Paulo Monarco/ Dandara/ Bruno Batista), que fecha o disco, idem: “talvez seja essa tristeza/ ou o costume da esperança/ que me faz, nunca querendo,/ querer sempre mais/ e o meu único desejo é morrer cantando/ o meu único desejo é sempre cantar”, este certamente também o desejo de quem ouvi-los.

Ouça Contenteza (Paulo Monarco/ Alisson Menezes):

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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