A hq da hq

Sopa de salsicha. Capa. Reprodução
Sopa de salsicha. Capa. Reprodução

Sopa de salsicha [Quadrinhos na Cia., 2016; leia um trecho] é um hilariante making of. A autoficção, hoje tão comum na literatura brasileira, é o mote desta nova graphic novel de Eduardo Medeiros: a história é a de sua busca pela história a contar.

Cheio de referências, sobretudo dos universos dos quadrinhos e da música, o álbum tem como personagens o cantor americano Michael Bolton [When a man loves a woman, que ele cantarola aqui e acolá], espécie de conselheiro onírico de Eduardo, os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon [10 pãezinhos] e Rafael Albuquerque, entre outros.

“Nós odiamos Porto Alegre”, “eu odeio reggae” e “eu odeio Bob Marley”, apesar dos dreadlocks que usa, podem causar, à primeira vista, má impressão, mas no fundo, o autor-personagem é gente boa e a ele, de algum modo, nos afeiçoamos e compadecemos. Ele se muda com a esposa da capital gaúcha para Florianópolis e repassa ao longo das 165 páginas da hq sua própria vida, em busca de uma boa história para contar. E nos conta várias.

Por exemplo, sua aversão por banheiros sujos. Sua aversão por bananas – fruta onipresente nas receitas de Aline, a Baixinha, sua esposa, a quem o livro é dedicado. No fundo, é tudo como diz o título de uma das mais conhecidas canções de Michael Bolton: quando um homem ama uma mulher.

A vida a dois, em si, com suas dores e delícias, também é matéria-prima para a busca de Eduardo Medeiros. Os momentos em que um segura a barra do outro em momentos de guinadas (sempre acompanhadas de um temporário desemprego) são comoventes. E uma simples saída (entre escolher roupa, regar plantas, tirar a roupa do varal e isso tudo levar quase uma hora) pode se tornar uma tortura – e resultar em ficarem em casa. De artistas ou não, que casal nunca?

Sopa de salsicha é também o retrato da falta de glamour da vida de artistas do desenho, que, sem conseguir sobreviver exclusivamente de sua arte – qualquer semelhança com outras expressões artísticas não é mera coincidência –, precisam encarar frilas os mais variados, em nome das contas pagas no fim do mês – o que às vezes deixa o trabalho autoral, leia-se, o trabalho artístico, em si, em segundo plano.

“O que importa é que eu tô feliz com minha jornada até aqui”, diz o autor-personagem num quadro. Certamente os leitores também, quer já o conheçam ou não de Friquinique [Beleléu], A história mais triste do mundo [Stout Club] e Open bar [Stout Club].

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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