A arte do encontro, do canto e do encanto

O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

 

O cabelo de Renato Braz esvoaçava ao vento e ele, ao anunciar a saideira, “uma ária de Bizet”, afirmou: “com esse vento, vai ser uma maravilha”, para risos da plateia, antes de cantá-la à capela.

Ao fundo, o mar e a Ilha do lado de cá, belo cartão postal emoldurando seu canto, que num texto noutra ocasião, já chamei de “sagrada vocação”.

Antes, Renato Braz dedicou Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil) a Cida Moreira, atriz, cantora e pianista, sua conterrânea, que se apresentaria na sequência, cujo Cida Moreira canta Chico Buarque (Kuarup, 1993) é inteiramente dedicado à obra do compositor. O cantor comentou a atual situação do país – “como pode essa música ser tão atual”, disse – e de incidental no Cálice serviu o Fado tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra): “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um império colonial”.

Um dos melhores cantores do Brasil em atividade, cantou ainda O ciúme (Caetano Veloso), O amor (Caetano Veloso sobre poema de Vladimir Maiakovski), antecedido de um aviso: “eu não sou a Gal Costa”, para risos da plateia. Seu repertório passeou ainda por Oriente (Gilberto Gil), O dia em que o morro descer e não for carnaval (Paulo César Pinheiro/ Wilson das Neves), Anabela (Paulo César Pinheiro/ Mário Gil), entre outras.

Fato destacado pela produção e cerimonial, o projeto Ponta do Bonfim [ontem (17), das 14 às 21h30, aproximadamente, na Ponta do Bonfim, em São Luís] é a soma de boa música, bela paisagem e amizade. Acontece sem periodicidade específica, a partir da reunião de amigos que decidem trazer à São Luís artistas que admiram – era a segunda vez que Renato Braz subia a seu palco. O barulho intenso de boa parte do público prejudicou sua apresentação, emocionante, apesar disso.

Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

Cida Moreira subiu ao palco na sequência. Precisou de ajuda: estava com três dedos do pé quebrados, história que contou rindo de si mesma, bem humorada. “Já é noite, tem mais a minha cara”, saudou a bela lua. O vento intenso descabelou-a também e alguém lhe emprestou algo para amarrar os cabelos. “O modelito foi embora”, tornou a rir e a fazer a plateia rir.

“Tássia” [Campos] – que havia aberto a sequência de apresentações, acompanhada por Rui Mário – “cantou uma música que eu ia cantar, Renato Braz cantou outra”, comentou Cida. Alguém da plateia retrucou: “canta de novo!”. “Não tem cabimento repetir. Tem muita música para cantar”, respondeu.

“Eu vou dedicar a essa menina linda que cantou antes de mim. Ela cantou muito bem Speak Low, do Ira Gershwin com o Kurt Weill; eu vou cantar uma dos irmãos George e Ira Gershwin”, anunciou, antes de cantar The man I love, dedicando-a a Tássia.

Esquivou-se elegantemente de pedidos: “há músicas que eu vou abandonando, deixando de tocar, o Soneto (Chico Buarque) faz tempo que eu não canto”. Alguém gritou “Geni e o zepelim!” e ela respondeu: “pra Geni eu já dei um plano de previdência privada”; a plateia caiu na gargalhada.

Depois contou uma história: “eu passei 25 anos ouvindo essa música e eu sempre chorava. Só depois eu consegui cantá-la. É uma música muito dura, muito forte, como tudo o que Chico Buarque faz. É uma canção de ninar, e eu vou oferecer ao Renato, que está com filho pequeno, vou oferecer para todos os que têm filhos”, e eu me senti contemplado, lembrando de José Antonio, que ficou em casa e era o nobre motivo de eu não ter como ver todos os shows deste pequeno festival de boa música – perdi também a apresentação do sambista paraense João Lopes, que encerraria a noite lembrando repertório exclusivamente formado por sambas imortalizados pelo saudoso xará, Nogueira. E Cida Moreira mandou a emocionante Uma canção desnaturada.

Ao cantar o tango Sou assim (Toquinho/ Gianfrancesco Guarnieri), tirou onda: “essa letra o Guarnieri fez para uma peça, o Toquinho musicou. Os maldosos gostam de dizer que essa é uma do Toquinho dos bons tempos”.

Em determinada altura do show atrapalhou-se com algum botão do teclado. “Teclados têm vida própria”, disse, e ao apertar uma tecla, o instrumento insinuava começar a típica batida programada das serestas. “O dono do instrumento, me socorra, por favor!”. O prestativo Rui Mário subiu ao palco e desativou a função.

“Essa é de um compositor brasileiro muito importante. Muito, muito, muito importante”, repetiu para frisar. “Ele deu uma sumida, ninguém sabe por onde anda. Belchior!”, continuou, trazendo Na hora do almoço.

Antes de cantar Forasteiro (Thiago Petit/ Hélio Flanders), recomendou: “quando vocês ouvirem uma música numa novela não pensem que a música foi feita para a novela. Às vezes eles solicitam alterações. Essa aqui, por exemplo, já existe há uns sete anos, aí a Globo pediu para incluir um trecho em francês. É do Thiago Petit e do Hélio Flanders [vocalista do Vanguart], de uma nova geração que está surgindo, uma geração talentosa, diferente do que essa mídia ordinária tenta nos vender como país. Eu cantei com o Thiago há três dias, são artistas maravilhosos. Eu busco sempre dialogar com os mais novos, tenho gravado”.

A música, que está na trilha sonora de Velho Chico, interpretada por Pethit e Tiê, foi gravada pela cantora em Soledade (2015). Lembrar a novela foi o mote também para ela homenagear o amigo Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos no folhetim, que morreu afogado num trágico incidente quinta-feira passada (15).

Cida teve melhor sorte com a galera do “selfie-se quem puder”. Ao anunciar a última, começou a ouvir gritos de “mais uma!”. “Mais uma é essa. Eu precisei de ajuda para subir no palco, vou precisar de ajuda para descer. Não dá para sair e voltar”. Despediu-se com Summertime (Doroty Heyward/ DuBose Heyward/ George Gershwin/ Ira Gershwin), faixa que batiza seu disco de 1981, o primeiro da carreira.

Que me perdoem o clichê do título deste texto, mas quem estava lá para ver e ouvir os artistas sabe do que estou falando.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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