Mostra universitária revela uma nova geração do cinema do Maranhão

Realizadores, debatedores e professores ao fim da jornada cinematográfica da Estácio. Foto: divulgação
Realizadores, debatedores e professores ao fim da jornada cinematográfica da Estácio. Foto: divulgação

 

Na noite da última segunda-feira (5) participei, na condição de debatedor, de uma jornada cinematográfica promovida pela Faculdade Estácio de São Luís. A convite da professora Márcia Alencar, dividi a mesa com a antropóloga Rose Panet, o jornalista Gilberto Mineiro e o diretor do Cine Praia Grande – que abrigou o evento – Raffaele Petrini, sob mediação do jornalista Paulo Pelegrini, também professor da instituição.

Entre 20h e 21h30 vimos seis documentários de curta-metragem realizado por estudantes da Estácio – os filmes eram frutos de trabalhos acadêmicos apresentados à disciplina Linguagem e Roteirização para Audiovisual, ministrada por Márcia Alencar.

Os 120 lugares do cinema foram poucos para abrigar tanta gente que foi prestigiar os trabalhos. Cada filme abordou um aspecto diferente (de parte) da história (da ilha) de São Luís.

Comida de terreiro abordou o aspecto gastronômico, sua variedade, riqueza e delícia, como parte integrante e importante de rituais em casas de culto afro, com depoimento de pai e filha de santo, antropóloga e nutricionista.

No caminho do Piranhenga, com uma pegada de filme publicitário, revela um ponto turístico pouco conhecido pelos ludovicenses, apesar de bastante próximo do Centro da cidade e com acesso relativamente fácil, inclusive de ônibus: o sítio que dá nome ao documentário. São abordados aspectos históricos e arquitetônicos, perpassando as histórias dos proprietários e o período da escravidão – a equipe mostrou  a casa grande, a senzala onde os escravos ficavam confinados e os poços usados para o abastecimento da propriedade, quando ali funcionava uma fábrica de cal.

Bondes de São Luís resgata a história do antigo meio de transporte, desde a tração animal até ser completamente abolido, dando lugar principalmente a ônibus, com todos os problemas do serviço de transporte público da capital maranhense, e carros novos – o transporte particular, quase sempre individual, acaba sendo uma das principais maneiras de se buscar fugir do caos, no entanto contribuindo para problemas como os constantes engarrafamentos em determinados horários e locais da ilha. Destaque para o depoimento do professor Henrique Borralho, do departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Impossível aos espectadores não imaginar como seria hoje um passeio de bonde pelo Centro Histórico de São Luís, valorizando o turismo e colaborando para a solução de (parte dos) problemas de mobilidade urbana.

Timbuba – a vida no shopping guarda, já no título, uma irônica surpresa: antes de ver o filme o espectador é levado a pensar no ambiente climatizado de um shopping center, mas o shopping a que se referem os protagonistas é o lixão de Timbuba, na cidade balneária de São José de Ribamar. É como os próprios catadores de materiais recicláveis referem-se a seu local de trabalho, revelando o que Cesar Teixeira já havia cantado em Shopping Brazil [2004] e um bom humor inimaginável para quem trabalha em ambiente e com materiais e condições tão adversos. Personagem principal do documentário, o senhor Ribamar, xará do padroeiro, estava na plateia e foi aplaudido pelos presentes.

Casa das tulhas conta parte da história da secular Feira da Praia Grande, mais antigo comércio do tipo em São Luís. A equipe entrevista o folclórico Corintiano, feirante famoso por sua devoção ao Corinthians Paulista e ao Sampaio Correa – ele dá seu depoimento trajando uma camisa com os escudos dos dois times do coração – e pelas cachaças que ele mesmo tempera e batiza com nomes hilariantes: fogosinha, fogozada e fura-ferro, entre outras, que diz serem afrodisíacas. Junto a Timbuba é o documentário em que fica mais evidente o envolvimento das equipes na realização dos filmes, com pitadas de making of tornando-se, também, conteúdo emocionante. Casa das tulhas foi completamente filmado com o uso de smartphones.

Fotografia e barbárie parte do impacto psicológico causado por cliques em fotógrafos: como estes profissionais reagem a determinadas situações cruéis – em geral cadáveres de vítimas de homicídios, latrocínios, linchamentos, acidentes etc. – captadas por suas lentes, em nome do ofício. O filme tem depoimentos do professor e cineasta Murilo Santos, papa da área, e do fotojornalista Francisco Silva – poderia ter sido enriquecido com depoimentos de mais profissionais, o que deve ser aprofundado quando da realização do trabalho de conclusão de curso de uma das autoras, conforme ela revelou.

Saí satisfeito com a organização do evento – incluindo todos os professores citados mais Poliana Ribeiro, João Paulo Furtado e Lila Antoniere, coordenadora do curso de Comunicação Social – e a qualidade do debate e dos filmes apresentados – superaram em muito o “trabalho acadêmico” e, com uns ajustes aqui e acolá, podem ter êxito no circuito brasileiro de festivais, não se restringindo aos círculos universitários.

Que os estudantes peguem gosto e realizem mais. A julgar pelo que vimos na noite de anteontem, o cinema do Maranhão tem assegurada a manutenção da qualidade que marca a obra de Murilo Santos, Francisco Colombo e Frederico Machado, nomes fundamentais em qualquer antologia local de cinema que se preze.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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