Ciranda do sincretismo

Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro
Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro

 

Eu já tinha lido algo sobre o Terreiro do Egito, um dos mais antigos espaços de culto afro da capital maranhense – conhecê-lo foi transcendental. Sabia da iniciação de Pai Euclides, ali, muito antes de ele fundar a Casa Fanti-Ashanti ou existir a Barragem do Bacanga e da instalação de empresas como Vale e Alumar. Isto é, quem morava do lado de cá da cidade, para chegar ao local sagrado, precisava enfrentar uma travessia (arriscada) de barco e mata fechada (incluindo cobras e outros bichos).

O Terreiro do Egito já não existe como edificação. Mas o lugar, reconhecido como sagrado por adeptos da umbanda, candomblé, mina e terecô, permanece sob a sombra de pés de caju, fornecendo a trégua para o sol inclemente de quem chega até ali após subir o íngreme Morro do Egito, uma das cinco áreas que compõem a Vila Cajueiro, na zona rural de São Luís.

Mais de 100 pessoas visitaram o local na tarde do último sábado (3), como parte da programação do Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Nordeste 5 (CNBB/NE5), Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA), Pastoral da Criança e Associação de Saúde da Periferia do Maranhão (ASP/MA).

A visita marcou um momento de intercâmbio entre as experiências de resistência dos diversos grupos e comunidades presentes ao Seminário e a da comunidade de Cajueiro, que desde 2013 intensificou a luta contra a instalação, pelas empresas WPR e WTorres, de um porto privado na região.

No alto do Morro do Egito, foram entoados cânticos católicos, cantos indígenas e canções do repertório de Clara Nunes, entre as quais o Canto das três raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte): era índio entoando música de branco, branco entoando música de preto e preto entoando música de índio, numa ciranda sincrética que bem traduzia, artística e popularmente, a necessidade de apoio e solidariedade entre os povos para vencer as duras batalhas, inclusive a que é motivo do grito mais ouvido ao longo de toda a programação do Seminário: “Fora Temer!”.

Que os gritos, cantos e preces sejam ouvidos.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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