Areia, sol, sal, limão e vidas

Ostreiros. Capa. Reprodução
Ostreiros. Capa. Reprodução

Ostreiros [Pitomba!, 2016, 120 p.] surgiu quase por acaso, da ida de Bruno Azevêdo à praia e o hábito de sol, cerveja e ostras. O reencontro com um ostreiro, algo raro, dados os quilômetros de orla que percorrem a pé, munidos de seus isopores, instigou-o a fotografá-los e, a partir dali, contar suas histórias. Aliou à empreitada a antropóloga e fotojornalista Ana Mendes com quem passou alguns meses frequentando as praias da ilha – Raposa, Calhau, Caolho, Olho d’Água e Araçagy –, aliando trabalho e diversão.

A grande sacada do livro da dupla é, justamente, passar longe de qualquer academicismo ou tentativa de sociologização das coisas – no caso, das pessoas ali retratadas, em foto e texto. Quando passa mais perto disso é para explicar o porquê de a foto de uma criança ostreira – herdeira do ofício de avô e pai, este também iniciado menino na atividade – não poder mostrar seu rosto, a demonstrar a ambiguidade da legislação brasileira, que, bastante rígida, não consegue evitar as mazelas que pretende combater.

“Fotógrafos? Etnofotógrafos? Antropólogos? Na verdade o que vejo aqui no Ostreiros é o trabalho de contadores de história”, resume Pedro Garcia, o Cartiê Bressão, no texto da quarta capa. Bruno e Ana misturam-se a ostreiros, flanelinhas, ambulantes e toda a fauna típica da orla da ilha, inclusive na tiração de onda entre eles mesmos.

É um livro que relata dramas, mas em que em determinados momentos desperta deliciosas gargalhadas. Não se trata de um volume de perfis biográficos: os textos e fotografias de Ana e Bruno são mais livres que enquadramentos em categorias literárias. “Ostreiros é um livro de afetos (…). É, por isso, um livro do “olho no olho”, muito sincero, bonito e necessário”, arremata, na orelha, o poeta Josoaldo Lima Rêgo.

Ostreiros traz em suas páginas a linguagem das ruas – ou melhor, das areias – e as manhas do ofício: o papo de vendedor, os brindes que sempre rolam para o bom freguês (quando uma dúzia pode ter 13 ou 14 ostras), a cerveja a que muitos se dispõem a beber junto (e talvez não o façam mais pela falta de costume dos fregueses em oferecer, como o faz a dupla de autores) e deliciosas histórias, de leitura fácil e rápida, mas sem simplismos.

Toda a experiência foi postada em redes sociais – instagram, facebook – ao passo em que o livro era feito, desde antes mesmo de surgir a ideia do volume, que é a materialização e organização do conjunto, disponível na internet. Quem se contenta com o virtual não vai sacar, por exemplo, a textura de isopor da capa, com o título estampado em uma fonte que imita a vernacular do ostreiro Josivan, o “Buchudo”, pintada por ele na caixa com que percorre as praias da ilha, mantendo o capricho editorial, padrão da editora Pitomba!

Incontáveis dúzias de ostras foram consumidas na colheita dos retratos e relatos, que a dupla não ia empatar com sua labuta a alheia, afinal de contas, “o cara não quer saber na segunda-feira se tu vendeu ou não. Ele quer saber do dinheiro dele”, como dá a real o ostreiro Dominguinhos, que vende ostras catadas por terceiro.

A ele e todos os personagens retratados, Bruno Azevêdo – exército de um homem só à frente (e por detrás) da Pitomba!; Ana Mendes está em Mato Grosso – tem feito o esforço de entregar exemplares, para que se vejam e se leiam – e aos que não sabem fazê-lo, em meio ao sarro mútuo típico de quando os personagens se encontram, o autor/editor tem lido para eles. Outra história comovente que caberia num making of.

A noite de autógrafos de Ostreiros acontecerá dia 26 de agosto (sexta-feira), às 19h, na Casa de Nhozinho (Praia Grande).

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Areia, sol, sal, limão e vidas”

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