João Donato: vivo, jovem e musical

Donato elétrico. Capa. Reprodução
Donato elétrico. Capa. Reprodução

 

Quando Marc Fischer, em sua busca frenética pelo outro João inventor da bossa nova, o baiano Gilberto, espantou-se ao encontrar o acriano Donato vestido em uma camisa florida e fumando: “você deve ser o último brasileiro que fuma”, disse, referindo-se à diminuição, nos últimos anos, nos índices de consumo de cigarros no país. “E provavelmente devo ser o último brasileiro vivo também”, respondeu-lhe o pianista e compositor.

Cito de cabeça a história contada pelo escritor alemão em Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011], que ele não chegou a ver publicado: suicidou-se antes.

Uma das provas da verdade na resposta de Donato é seu mais novo álbum, Donato elétrico [Selo Sesc/SP, 2016], cujo título é outra: a eletricidade-vida, que afinal de contas, move quem pensa em música o tempo inteiro.

Aos 81 anos, João Donato esbanja jovialidade, frescor e originalidade, ao juntar-se a um timaço de jovens músicos com que gravou o álbum novo, de ficha técnica extensa, todos, de algum modo, influenciados pelo som “donatural”: Cris Scabello (guitarra), Cuca Ferreira (saxofones e flautas), Daniel Gralha (trompete), Daniel Nogueira (saxofone), Décio 7 (bateria), Douglas Antunes (trombone), Gustavo Cecci (percussão), Marcelo Dworecki (contrabaixo), Mauricio Fleury (guitarra), Rômulo Nardes (percussão) – o Bixiga 70 –, Anderson Quevedo (flauta e saxofone) – que fez participações especiais em todas as faixas de The Copan connection, mais recente álbum da super big band –, Aramis Rocha (violino), Beto Montag (vibrafone e percussão), Bruno Buarque (bateria), Daniel Pires (viola), Guilherme Kastrup (percussão), Gustavo Ruiz (guitarra), Mauro Refosco (percussão), Renato de Sá (violoncelo), Richard Fermino (trombone e flauta), Robson Rocha (violino) e Zé Nigro (contrabaixo).

Completamente autoral, Donato elétrico ecoa – longe de reduzir João Donato a mero cover de si mesmo – momentos antológicos de sua lavra, como o fundamental A bad Donato e álbuns divididos com Eumir Deodato, outro mago das brancas e pretas.

Produzido por Ronaldo Evangelista, cujo texto elegante no encarte remonta a gênese do álbum, em Donato elétrico optou-se pelo uso de instrumentos antigos, para valorizar a sonoridade de uma época, embora seja impossível o álbum soar mais atual, desde o título de faixas como Here’s JD, Urbano e Frequência de onda.

É um disco em que cabe de tudo: para registrar seu “jazz tupiniquim” (para usarmos a expressão que dá nome à música de Glorinha Gadelha e Sivuca, outro ás da sanfona, instrumento no qual Donato começou e único que ele não toca no álbum), o garoto Donato diverte-se com Fender Rhodes, Farfisa, Pro-One, Moog e Clavinet, além de usar a voz em Tartaruga e G8.

Com arranjos de Anderson Quevedo, Bixiga 70, Cuca Ferreira, João Donato, Laércio de Freitas e Marcelo Cabral, em Donato elétrico João Donato é um membro da grande banda. Em Xaxado de Hércules, por exemplo, destacam-se os saxes de Cuca Ferreira e Daniel Nogueira, como se Coltrane dançasse solando para o bando de Lampião dançar. Combustão espontânea exala a latinidade afro-cubana, outra marca da obra do acriano, e traduz o espírito coletivo em que o disco foi realizado: o título dessa música explica o que acontece (e cujo resultado ouvimos) quando um naipe de feras assim se encontra.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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