Esse livro é uma pedra!

Da terra das primaveras à ilha do amor. Capa. Reprodução
Da terra das primaveras à ilha do amor. Capa. Reprodução

 

Não à toa Ademar Danilo fala em “pioneirismo desbravador” em A primeira pedra, texto de introdução à reedição de Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade cultural [Pitomba!, 2016, 143 p.], de Carlos Benedito Rodrigues da Silva, o Carlão.

Fruto da dissertação de mestrado defendida na Unicamp pelo professor campinense radicado em São Luís desde 1981, o livro foi publicado pela primeira vez em 1995, pela Edufma. Também não foi à toa que os lançamentos de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, e O reggae no Caribe brasileiro, de Ramusyo Brasil, ambos da Pitomba!, requentaram a busca pela obra inaugural, até então alçada também ao status de raridade.

Carlão dá um mergulho profundo tentando compreender – e fazer seu leitor – o trinômio do subtítulo. Militante do movimento negro, aborda o preconceito sem soar panfletário. Fato é que passados 20 anos da publicação em livro da pesquisa do professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o reggae pode ter deixado as páginas policiais para ganhar as de cultura. Ainda enfrenta, no entanto, a resistência dos que insistem em se incomodar com o epíteto de Jamaica brasileira atribuído à São Luís.

Saudosistas de um passado que não houve – São Luís nunca foi uma cidade bem servida de livrarias e/ou leitores, e hoje, creio, o quadro é ainda pior – apegam-se a uma Atenas brasileira que a capital maranhense nunca foi, de fato. Nisso também reside o preconceito abordado por Carlão: mais fácil (e bonito) descender da Europa que da África, para quem nisso crê.

Para o autor, entender o reggae enquanto lazer e identidade cultural é libertador, tendo em vista que a maioria dos estudos sobre o negro e a negritude, em geral aborda a herança africana de modo a relegar-lhes à condição de ex-escravos ou descendentes de.

A pesquisa de Carlão alia a abordagem acadêmica – as referências dão um belo catatau a quem quiser se aprofundar no tema – a um trabalho de campo de imersão, que resultou em etnografia capaz de traduzir a realidade daquele momento, em que clubes como Pop Som, Toque de Amor e Espaço Aberto, e radiolas como Estrela do Som, Voz de Ouro Canarinho e Águia do Som davam o tom regueiro à cidade.

Carlão remonta às origens, refazendo o percurso dos primeiros Jimmy Cliff que soaram por estas bandas, passando pelas lendas envolvendo donos de radiola e DJs quanto à exclusividade de determinadas “pedras”, a verdadeira guerra travada por clubes e programas de rádio no sentido de garantir atrativos à massa regueira, quase tão fiel quanto as torcidas de futebol (digo quase por que eventualmente um “torcedor” de determinada radiola podia frequentar uma festa em que outra tocasse).

A necessária reedição de Da terra das primaveras à ilha do amor chega em boa hora, enriquecida, como é padrão da Pitomba!, por vasta iconografia, podendo o leitor perceber melhor a estética do período abordado pelo livro.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s