Metaliteratura

O céu de Lima. Capa. Reprodução
O céu de Lima. Capa. Reprodução

 

O céu de Lima [Alfaguara, 2016, 245 p., tradução de Paulina Wacht e Ari Roitiman], romance de estreia do jovem espanhol Juan Gómez Bárcena, é um exercício de metaliteratura, um metarromance. O texto é construído à medida que se constrói a história que conta, embora a mesma se passe no início do século XX.

O romance parte da história real de José Gálvez e Carlos Rodríguez, dois jovens limenhos metidos a poetas que, para conseguir um exemplar de Árias tristes [1903], novo livro do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez (Nobel de Literatura em 1956), inventam uma personagem: a senhorita Georgina Hübner, fantasma pelo qual o poeta acaba se apaixonando.

Gálvez e Rodríguez, que tratam Jiménez por mestre, querendo sê-lo e escrever a poesia que escreve, fundem-se na personagem feminina, protagonista de um romance epistolar que durará meses – um mês é o tempo médio que os navios demoravam para levar e trazer as missivas entre Lima (onde mora a dupla de simpáticos e inofensivos embusteiros) e Madri (onde mora o poeta admirado) ou Moguer (sua terra natal).

A aventura passa por comédia, história de amor, tragédia e um poema – para citar as partes em que o autor divide o romance; mas esta última, a poesia, permeia completamente o livro, com todos os clichês que acometem jovens metidos a poetas, seja em Lima, no Peru, em 1904, seja em São Luís do Maranhão, no Brasil, em 2016. Ao contrário de suas personagens, no entanto, Bárcena demonstra maturidade, habilidade e domínio para preencher com ficção trechos da história real sui generis que deliciosamente conta.

O título do romance de estreia de Bárcena – que lançou Los que duermen [contos, 2012] e editou a coletânea Bajo treinta [2013], com jovens autores espanhóis – é, afinal, tirado do poema resultante da correspondência entre o poeta (real) e a musa (imaginária): Carta a Georgina Hübner no céu de Lima, publicado em Labirinto [1913].

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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