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O herói e a lenda. Capa. Reprodução
O herói e a lenda. Capa. Reprodução

Fui alfabetizado por Tex Willer. Explico: tendo aprendido a ler um pouco antes, aos sete anos descobri as coleções de revistas do ranger de meus tios. Devorei um a um os volumes de minha primeira paixão literária. E logo passei a montar a minha própria coleção. Lembro particularmente de um sebista reclamar do “dois por um” normalmente praticado nas operações de escambo: ele achava que duas Turma da Mônica eram muito finas, referindo-se ao número de páginas, para valer um Tex.

Até o início da adolescência cheguei a ter uma razoável coleção com mais de 400 exemplares. Lamentei quando cupins deram cabo em boa parte dela. O que se salvou teve algum sebo como destino: seria muito difícil, numa era pré-internet, conseguir novamente os volumes destruídos. Passei anos sem voltar a ler Tex e fui devolvido ao vício pelo Breganejo Blues, de Bruno Azevêdo: o mito bonelliano era leitura de cabeceira – ou de porta-luvas – do taxista, detetive “de corno” nas horas vagas.

Está nas bancas o belo volume de Tex, O herói e a lenda, de Paolo Eleuteri Serpieri [Mythos Editora, maio/2016, 50 p., R$ 29,90]. “No Oeste, se a lenda se encontra com a realidade, vence a lenda” é o mote – de John Ford, no clássico O homem que matou o facínora – que ancora a história, que o autor dedica a Sergio Bonelli.

Mote que me faz lembrar a ocasião em que Ricardo Calil entrevistou João Gilberto pelo facebook – ou quem quer que assinasse seu perfil na rede social. Realidade ou lenda? Pouco importava: a revista Trip [março/2011] publicou a entrevista –na ocasião já citava o faroeste.

Em 1913, em Nova York, Kit Carson está internado num hospital psiquiátrico, também um asilo para idosos. Recebe a visita de um jovem historiador e, a princípio aparentemente cansado, chega a tratar mal uma enfermeira que ousa despachar a visita, julgando que o velho quisesse ou precisasse dormir. Logo Carson começa uma narrativa lembrando um feito cruel de Tex.

Na aventura colorida, o longevo personagem – publicado em diversos formatos há mais de 70 anos – já veste camisa amarela e calça azul, mas está como eu particularmente nunca o tinha visto antes: cabeludo. Como, em parte, o Carson que narra os feitos a seu interlocutor (guardo o inesperado desfecho para não estragar a surpresa dos leitores), lembrando a bravura e o heroísmo do companheiro de tantas aventuras, que se conheceram durante o episódio que conta, em que Tex vence sozinho uma legião de índios e brancos, liberta uma moça e chega a discutir com autoridades – bem ao estilo que o consagrou.

Ao jovem que ouve Carson e ao diretor do lugar em que ele está internado pode ficar a dúvida sobre Tex ter existido ou não passar de lenda. “Você percebeu que esse homem tem muita fantasia? Ele conta coisas que não aconteceram”, o segundo adverte o primeiro. Lenda ou realidade, importa mais estarmos diante de uma verdadeira obra de arte.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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