O caso de amor do samba com a canção

(e outros casos de amor em torno do samba-canção)

A noite do meu bem. Capa. Reprodução
A noite do meu bem. Capa. Reprodução

O subtítulo anuncia e é exatamente disso que se trata: “a história e as histórias do samba-canção”. Em seu novo livro, cujo título pega emprestado o de um clássico do brasileiríssimo gênero, de Dolores Duran, A noite do meu bem [Companhia das Letras, 2015, 510 p.; leia um trecho], Ruy Castro, ao biografar o samba-canção, oferece ao leitor uma radiografia musical, sociológica, geográfica, sentimental e “etilírica” do Brasil entre o final da década de 1930 e meados da de 60.

Experiente, autor de diversas biografias tornadas clássicas – Carmen Miranda, Garrincha, Nelson Rodrigues, a Bossa Nova –, Ruy Castro mesmo foi testemunha ocular do ocaso das boates cariocas, tendo estreado no jornalismo em 1967, no Correio da Manhã. Mas seu foco neste livro é o apogeu, os dias de glória e glamour de cenários lendários, como o Vogue, Sacha’s e Golden Room, entre outras.

“Não eram “sambas de sambista”, como se definiam os sambas rasgados e sincopados de Assis Valente, Wilson Baptista ou Geraldo Pereira. Eram sambas, sem dúvida – o ritmo, apesar de mais lento, era inconfundível –, só que românticos, intimistas e confessionais, com frases musicais longas e licorosas, perfeitos para ser dançados como sambas, mas devagarinho, com o rosto e o corpo colados. O samba fora para a cama com a canção, numa romântica noite de bruma, e resultara neles, os sambas-canção, com suas letras narrativas, que contavam uma história – e esta, com frequência, se referia a um caso de amor desfeito, como de praxe nas músicas românticas em qualquer língua” (p. 70), anota o autor sobre a gênese.

Além do samba-canção em si e de muitas histórias por trás de muitos deles, estão ali os bastidores, as alcovas e camarins, a estreita relação do ambiente das boates com o poder central do Brasil – o Rio era ainda a capital federal – e seus namoricos, a militância de diversos personagens em várias frentes. Nomes como Antonio Maria, Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta) e Fernando Lobo atuavam em rádio, jornal, produção, compunham e ainda tinham tempo para beber olimpicamente.

Ruy Castro advoga ter sido, talvez sem querer, Noel Rosa um dos inventores do samba-canção. Mas isso só se descobriu após a morte do compositor de Vila Isabel, quando Aracy de Almeida – sua maior intérprete – foi contratada para cantar no Vogue e, entre conhecidas e inéditas – “Feitio de oração, Feitiço da Vila e Pra quê mentir, de Noel e Vadico, e Não tem tradução, Pela décima vez, Silêncio de um minuto, O X do problema e Último desejo, só de Noel” – talvez por sua interpretação, “uma sambista que não precisava requebrar as cadeiras para cantar, só então se percebeu que todos aqueles grandes sambas de Noel eram… sambas-canção” (p. 65).

Não faltam clássicos e personagens monumentais ao texto elegante qual os frequentadores das boates em sua origem, quando ternos e gravatas não eram dispensados a seus frequentadores. A noite do meu bem entremeia histórias diversas, pelas quais passam a fundação da Última Hora de Samuel Wainer, o suicídio de Getúlio Vargas, a invenção da Bossa Nova, a construção e inauguração de Brasília, o golpe militar, entre outras, trágicas, anedóticas e/ou lendárias. Craque de nosso jornalismo, Ruy Castro oferece aos leitores mais um livro fundamental para a compreensão de parte importante da História (da Música, com M maiúsculo) do Brasil.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

4 comentários em “O caso de amor do samba com a canção”

  1. Tal como Ruy Castro é esse teu comentário como um presente para ser lido, curtido e analisado como reflexão num fim de semana sem turbulências. Obrigado, amigão! Wilson Martins (98) 81313223 TIM

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