Um bandolim imperial

Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução
Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução

 

Não à toa Déo Rian é apontado como o herdeiro musical de Jacob do Bandolim. Aquele se formou nos famosos saraus na casa deste. Em 2014, ao completar 70 anos de idade e 53 de música, Rian juntou-se aos músicos do Regional Imperial para uma celebração: para o bem do choro e da música brasileira, a história se repete, como aponta o violonista sete cordas João Camarero em texto emocionado no encarte do disco.

“Neste cd, apesar de ser mais um intérprete do que um compositor, a maioria do repertório é de minha autoria”, afirma Déo Rian noutro texto do encarte (há outro, ainda, de Jairo Severiano). Ele assina, sozinho ou em parceria, 13 das 14 faixas de Déo Rian 70 anos [Pôr do Som, 2015], algumas feitas a partir de veredas abertas pelo mestre Jacob, casos de O sarau do Luiz Santana [Jacob do Bandolim e Déo Rian] e Três amigos [Jacob do Bandolim, Damázio Baptista e Déo Rian].

É ele mesmo quem conta as histórias no encarte do disco: no segundo domingo de cada mês o amigo Luiz Santana organizava saraus que contavam com as presenças de Léo Viana (irmão de Pixinguinha) e do clarinetista Juvenal Peixoto, entre outros. Do maxixe Três amigos, Rian lembra-se de Jacob ter feito a primeira parte na década de 1960 e ele e Damázio terem-na completado em 1986. Ele conta ainda a história de Na casa do Manoel Rigaud: “na década de 60, Jacob do Bandolim e eu estávamos tocando na casa do nosso grande amigo, Manoel, quando Jacob fez este choro. Escreveu a partitura mas deixou vários compassos em branco; em 2013, completei e fiz esta homenagem póstuma ao excelente violonista do choro falecido em 1988” – Jacob, no entanto, não é creditado como autor no encarte.

Em Choro pro Déo ele recebe a homenagem do violonista Maurício Carrilho, autor da faixa, única não assinada por Déo Rian. Este homenageia o parceiro Damázio Baptista em Lembranças de um violão e a filha Fernanda na valsa Branquinha, que fecha o disco.

Na execução das peças Déo Rian (bandolim) acaba por tornar-se, por assim dizer, o sexto integrante do quinteto formado por João Camarero (violão sete cordas), Edu Guimarães (sanfona e piano), Lucas Arantes (cavaquinho), Júnior Pita (violão) e Rafael Toledo (pandeiro). E como se trata de uma celebração, em um disco festivo não podiam faltar parentes: o filho Bruno Rian (violinha em Bruno no choro, que o pai compôs em sua homenagem), a nora Aline Silveira (flauta em Com dor e tudo – composta por Déo Rian em 2009 ao chegar em casa reclamando-se da ciática –, Querendo bem, Choro pro Déo e Chorões do Bandolim de Ouro – em que homenageia os músicos frequentadores dos saraus de sábado da mítica loja carioca “Ao Bandolim de Ouro”, que fabricou, ainda na década de 1960 o bandolim com o qual Déo toca e grava até hoje), além de Rafael Mallmith (violão) e Marcus Thadeu (percussão).

O rico encarte de Déo Rian 70 anos traz ainda as capas de todos os discos gravados pelo bandolinista, desde a estreia, em 1970, tributando Ernesto Nazareth – também ídolo de Jacob –, além de algumas fotografias revelando o convívio do músico com, entre outros, nomes como Raphael Rabello, Orlando Silveira, Altamiro Carrilho, Dino, Canhoto, Meira, Carlos Poyares, Abel Ferreira, Luperce Miranda, Jorginho, Jonas, César Faria, Darly do Pandeiro, Carolina Cardoso de Meneses, Copinha e, é claro, Jacob do Bandolim.

O disco é síntese das misturas que são, digamos, a receita da longevidade do choro, para além de modismos. É o encontro da velha e jovem guardas para o registro de um repertório inspirado. Depois de ter integrado ou tocado junto com grupos como Época de Ouro, Noites Cariocas e Quinteto Villa-Lobos, entre outros, ele rejuvenesce e se reinventa ao figurar ao lado dos jovens componentes do Regional Imperial, cujos talentos são comprovados a cada nota.

“Esse álbum comemorativo traz o peso do seu legado como grande instrumentista e a leveza da maior herança que carrega: o dom de tocar choro, dessa vez com a maturidade de um intérprete no alto dos seus setenta, mas com os dedos ainda jovens”, afirma João Camarero. “Espero que os ouvintes curtam um autêntico clima de roda de choro”, espera, modesto, Déo Rian. Como não, rapaziada?

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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