Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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