A poética geografia do cangaço

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução
Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

 

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Melo, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

Veja algumas imagens do livro. Para mais acesse o site de Márcio Vasconcelos.

Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Serviço – Márcio Vasconcelos lança Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou hoje (27), às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073 – Piso do Teatro, SP).

Quem bancou a bancada da bola, da bala, da bíblia, do boi?

Crônica do cotidiano nacional, A banca, música nova de Kléber Albuquerque. Vejam, ouçam e espalhem! O Brasil agradece.

Lúcida, lúdica e necessária: uma Aula sobre a ditadura

Ah, como era boa a ditadura... Capa. Reprodução
Ah, como era boa a ditadura… Capa. Reprodução

 

Ah, como era boa a ditadura… [Companhia das Letras, 2015, 287 p.; leia um trecho]: só podia mesmo ser o título de um livro de Luiz Gê o único lugar onde essa frase soa bem. Pura e fina ironia, obviamente. “A história dos últimos anos da ditadura militar nas charges da Folha de S. Paulo”, como anuncia o subtítulo explicita melhor: a obra não é mera coletânea, é uma Aula, com A maiúsculo, de História, com H idem.

O livro cobre o trabalho de Luiz Gê no jornal paulista entre 1981 e 1984, o que, por um lado, pode parecer facilitar seu trabalho à época, afinal de contas, eram os anos da chamada abertura, da redemocratização do país. Acompanham os desenhos textos explicando o contexto, (re)apresentando personagens – dando nomes aos bois –, tornando-o leitura obrigatória para estudiosos e interessados em humor, história, quadrinhos e até mesmo àqueles que hoje em dia frequentam passeatas pedindo a volta da ditadura – estou certo de que alguns poderiam mudar de opinião após “reviver” com atenção o período.

“Quer que eu desenhe?” é irônica pergunta comumente usada para iniciar uma contraposição a argumentos. Luiz Gê desenha e escreve com propriedade de quem (sobre)viveu (a)o regime, ousando contestá-lo. E defende algumas teses interessantes: primeiro, é falacioso falar em ditadura militar, pois o golpe de 1964, em sua urdidura, contou com civis e graças a este apoio é que foi possível; segundo, a ditadura não durou apenas 21 anos, já que José Sarney, que governou o país entre 1985 e 1990, não foi eleito, mas chegou à cadeira do poder central após mudar de partido (olha o fisiologismo aí, gente!) e a morte do titular Tancredo Neves, de quem o maranhense era vice.

Gê aborda ainda heranças malditas da ditadura, para além das mais óbvias: os métodos das polícias militares, a permanência da prática de tortura, apesar de diversos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário e da lei que a proíbe, e a anistia que perdoou torturadores: até hoje, no país, ninguém foi punido pelos crimes de lesa-humanidade cometidos durante o regime, ao contrário de outros países latino-americanos que também sofreram com ditaduras.

“Mas a pior de todas as heranças, a que até hoje não foi superada, foi a destruição da altamente bem-sucedida experiência educacional e do ensino público anterior a 1964. Escolas públicas tinham o mesmo nível ou maior que muitas escolas ditas de elite. Essa experiência, que poderia ter sido aperfeiçoada e ampliada para alcançar um maior número de pessoas, foi sumariamente eliminada sem jamais ter se recuperado, algo crucial que vem afetando profundamente o desenvolvimento de nossa sociedade e de nosso país”, escreve Luiz Gê à página 278. E na seguinte: “o Brasil de hoje, foi criado naquela ruptura no ano de 1964. Quem não puder enxergar o que foi exatamente que ocorreu durante os 21 anos que se seguiram não pode entender aquilo que vive hoje. Havia outra possibilidade para o Brasil e para o nosso presente […]. Tudo “mudou” para permanecer fundamentalmente igual. As relações de poder político e econômico se reajustaram. Qual dos dois manda mais em nosso sistema?”, indaga-se/nos.

Lúcido e lúdico, Ah, como era boa a ditadura… é vasto painel com muito material ainda bastante atual, infelizmente, sobretudo no que diz respeito à nossa fauna política – o folclore, a burrice, o oportunismo – e ao pensamento único da grande mídia – algumas concessões são benesses dos ditadores a apoiadores do regime.

O autor – Personagem menos conhecido e cultuado, mas tão ou mais talentoso que muitos de seus pares, o paulista Luiz Gê é arquiteto e professor universitário, entre inúmeras outras atribuições, com contribuições fundamentais à cultura brasileira ao menos nos últimos 45 anos: fundou as revistas Balão – que revelou talentos como Angeli, Laerte e os irmãos Paulo e Chico Caruso – e Circo, é autor da cultuada graphic novel Av. Paulista [1991, reedição da Companhia das Letras, 2012, 88 p.], em que conta, à sua maneira, parte da história de São Paulo, fez os projetos gráficos de Clara Crocodilo [1980] e Tubarões voadores [1984], de Arrigo Barnabé – este segundo disco são quadrinhos de Luiz Gê musicados por Arrigo –, e roteirista do matutino global TV Colosso. Como quadrinhista venceu os prêmios Casa de Las Américas, em Cuba [1981], o troféu HQ Mix, no Brasil [1991] e o prêmio Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional, concedido pelo Senac [2005]. Ano passado presidiu o júri do Salão de Humor de Piracicaba, um dos mais importantes do país, que também o premiou, ainda na década de 1970. Na ocasião, realizou sua primeira exposição, Luiz Gê quadro a quadro, com cerca de 600 obras.

Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Um bandolim imperial

Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução
Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução

 

Não à toa Déo Rian é apontado como o herdeiro musical de Jacob do Bandolim. Aquele se formou nos famosos saraus na casa deste. Em 2014, ao completar 70 anos de idade e 53 de música, Rian juntou-se aos músicos do Regional Imperial para uma celebração: para o bem do choro e da música brasileira, a história se repete, como aponta o violonista sete cordas João Camarero em texto emocionado no encarte do disco.

“Neste cd, apesar de ser mais um intérprete do que um compositor, a maioria do repertório é de minha autoria”, afirma Déo Rian noutro texto do encarte (há outro, ainda, de Jairo Severiano). Ele assina, sozinho ou em parceria, 13 das 14 faixas de Déo Rian 70 anos [Pôr do Som, 2015], algumas feitas a partir de veredas abertas pelo mestre Jacob, casos de O sarau do Luiz Santana [Jacob do Bandolim e Déo Rian] e Três amigos [Jacob do Bandolim, Damázio Baptista e Déo Rian].

É ele mesmo quem conta as histórias no encarte do disco: no segundo domingo de cada mês o amigo Luiz Santana organizava saraus que contavam com as presenças de Léo Viana (irmão de Pixinguinha) e do clarinetista Juvenal Peixoto, entre outros. Do maxixe Três amigos, Rian lembra-se de Jacob ter feito a primeira parte na década de 1960 e ele e Damázio terem-na completado em 1986. Ele conta ainda a história de Na casa do Manoel Rigaud: “na década de 60, Jacob do Bandolim e eu estávamos tocando na casa do nosso grande amigo, Manoel, quando Jacob fez este choro. Escreveu a partitura mas deixou vários compassos em branco; em 2013, completei e fiz esta homenagem póstuma ao excelente violonista do choro falecido em 1988” – Jacob, no entanto, não é creditado como autor no encarte.

Em Choro pro Déo ele recebe a homenagem do violonista Maurício Carrilho, autor da faixa, única não assinada por Déo Rian. Este homenageia o parceiro Damázio Baptista em Lembranças de um violão e a filha Fernanda na valsa Branquinha, que fecha o disco.

Na execução das peças Déo Rian (bandolim) acaba por tornar-se, por assim dizer, o sexto integrante do quinteto formado por João Camarero (violão sete cordas), Edu Guimarães (sanfona e piano), Lucas Arantes (cavaquinho), Júnior Pita (violão) e Rafael Toledo (pandeiro). E como se trata de uma celebração, em um disco festivo não podiam faltar parentes: o filho Bruno Rian (violinha em Bruno no choro, que o pai compôs em sua homenagem), a nora Aline Silveira (flauta em Com dor e tudo – composta por Déo Rian em 2009 ao chegar em casa reclamando-se da ciática –, Querendo bem, Choro pro Déo e Chorões do Bandolim de Ouro – em que homenageia os músicos frequentadores dos saraus de sábado da mítica loja carioca “Ao Bandolim de Ouro”, que fabricou, ainda na década de 1960 o bandolim com o qual Déo toca e grava até hoje), além de Rafael Mallmith (violão) e Marcus Thadeu (percussão).

O rico encarte de Déo Rian 70 anos traz ainda as capas de todos os discos gravados pelo bandolinista, desde a estreia, em 1970, tributando Ernesto Nazareth – também ídolo de Jacob –, além de algumas fotografias revelando o convívio do músico com, entre outros, nomes como Raphael Rabello, Orlando Silveira, Altamiro Carrilho, Dino, Canhoto, Meira, Carlos Poyares, Abel Ferreira, Luperce Miranda, Jorginho, Jonas, César Faria, Darly do Pandeiro, Carolina Cardoso de Meneses, Copinha e, é claro, Jacob do Bandolim.

O disco é síntese das misturas que são, digamos, a receita da longevidade do choro, para além de modismos. É o encontro da velha e jovem guardas para o registro de um repertório inspirado. Depois de ter integrado ou tocado junto com grupos como Época de Ouro, Noites Cariocas e Quinteto Villa-Lobos, entre outros, ele rejuvenesce e se reinventa ao figurar ao lado dos jovens componentes do Regional Imperial, cujos talentos são comprovados a cada nota.

“Esse álbum comemorativo traz o peso do seu legado como grande instrumentista e a leveza da maior herança que carrega: o dom de tocar choro, dessa vez com a maturidade de um intérprete no alto dos seus setenta, mas com os dedos ainda jovens”, afirma João Camarero. “Espero que os ouvintes curtam um autêntico clima de roda de choro”, espera, modesto, Déo Rian. Como não, rapaziada?

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

Stédile critica governo de Dilma Rousseff mas defende sua permanência

Bem humorado e otimista, sua postura reafirma a coerência do MST, que em 2009 defendeu a manutenção de Jackson Lago no governo do Maranhão

Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)
Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile esteve ontem (8) em São Luís. Pela manhã a liderança cumpriu agenda no Palácio dos Leões, onde foi recebido pelo governador do Maranhão Flávio Dino e diversos secretários de Estado. Em pauta a execução do programa de alfabetização Sim, Eu Posso, em oito dos 30 municípios de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Maranhão, pelo MST, através de parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e as secretarias de Estado da Educação (Seduc) e dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

À noite, Stédile participou de atividade da Frente Brasil Popular no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema (Rua da Estrela, Praia Grande). A FBP é um coletivo de militantes e organizações sociais, entre as quais o MST e a Via Campesina, que tem se manifestado contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em evento intitulado “Análise de conjuntura: os rumos do Brasil frente a crise política atual”, Stédile falou para um auditório completamente lotado, refletindo sobre o atual momento político vivido no país e tentando traçar alguns cenários possíveis.

“A massa trabalhadora ainda não percebeu os riscos que corre com um eventual impeachment. O que os apoiadores e financiadores do golpe querem é a redução de direitos trabalhistas. Até agora, só fomos para a rua nós, militantes. No dia em que os 120 milhões de trabalhadores do Brasil saírem às ruas vai faltar rua”, comentou.

Ele, no entanto, não poupa críticas ao governo Dilma. “Vimos uma inércia em relação à reforma agrária e à titulação de territórios quilombolas. Agora que ela assinou uns poucos decretos, o que é uma merreca”.

Stédile defendeu a reestatização da Vale: “se não por qualquer outro motivo, pelo crime ambiental em Mariana. Mataram pessoas e mataram um rio de mais de 700 quilômetros. Isso tudo é impagável”, defendeu.

O intelectual orgânico do MST, um dos maiores em atividade no Brasil, pregou ainda outra relação do homem com o meio ambiente e o consumo. “Nós da esquerda costumamos culpar o Alckmin pela falta de água em São Paulo, por que é mais cômodo. É claro que ele tem sua parcela de culpa, como representante do grande capital, mas o problema foi a morte das nascentes. Pode chover o quanto chover em São Paulo, o problema não se resolverá. E por que mataram as nascentes? Para dar lugar aos monocultivos de cana de açúcar e eucalipto”.

Stédile reconheceu avanços sociais conquistados nos governos do PT, ainda insuficientes. “O Minha casa, minha vida precisaria de muito mais unidades habitacionais por ano para resolver o déficit acumulado. No ensino superior, seis milhões disputam pouco mais de um milhão de vagas em instituições públicas e privadas. E os cinco milhões que sobram? Eu digo para eles se juntarem ao Levante Popular da Juventude e irem para as ruas. Mas eles não me ouvem”, disse para aplausos e risos da plateia.

A grande mídia também não foi poupada por Stédile, principalmente a Rede Globo. “São os porta-vozes dos interesses dos que querem tomar o poder e, uma vez lá, reimplantar o neoliberalismo, a retirada de direitos dos trabalhadores e de recursos públicos para a saúde e a educação no Brasil, inclusive o petróleo, última riqueza coletiva do país”.

“É preciso defender o mandato de Dilma Rousseff e, uma vez mantida no cargo, ela precisa refazer o governo. Compor um ministério de notáveis, gente que tenha entendimento dos assuntos e seja reconhecida e respeitada pela sociedade. Ir mais para a esquerda”, apostou.

Stédile lamentou ainda o assassinato de trabalhadores sem terra no Paraná. “O Paraná é governado pelo PSDB. É uma amostra do que vem por aí. Passando o impeachment o ministro do desenvolvimento agrário será o Raul Jungman [PPS/PE]”, arriscou um prognóstico referindo-se ao hoje deputado federal. Presidente do Ibama no governo de Fernando Henrique Cardoso, Jungmann foi descoberto ano passado mantendo simultaneamente dois mandatos: não deixou a câmara municipal do Recife para assumir a vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Com diversos atos previstos em várias cidades do país, ele previu ainda que a próxima será uma semana histórica para o futuro do Brasil.

A postura crítica de Stédile, intelectual menos conhecido do que deveria, em geral tachado de “guerrilheiro” e “terrorista” pela velha mídia que critica, reafirma a coerência do MST que representa: em 2009, quando da cassação do governador do Maranhão Jackson Lago, através de um golpe judiciário, os sem terra estavam na linha de frente na defesa do mandato conquistado legitimamente através do voto popular.

“A história se repete como tragédia ou como farsa”, como dizia um intelectual que também lhe serve de inspiração, mais barbudo que ele.