O cinema

O húngaro Bela Tarr, um dos entrevistados de Walter Carvalho. Frame. Reprodução
O húngaro Bela Tarr, um dos entrevistados de Walter Carvalho em Um filme de cinema. Frame. Reprodução

 

O abandono de uma antiga sala de cinema na Paraíba natal de Walter de Carvalho é o cenário poético que emoldura Um filme de cinema [documentário, Brasil, 2015, 108 min.], uma verdadeira aula de cinema, aliás, um curso completo. Engana-se quem pensa em obviedade ao ler o título, já que em tese, todo filme é de cinema. Aula, na melhor acepção da palavra, que às vezes uma ótima não carece de sala para acontecer. Curso, que cada depoimento é uma aula. Ali estão o que torna uma aula única: paixão e exemplos.

São vários nomes envolvidos com a produção cinematográfica, principalmente diretores, mas não só, falando com simplicidade e propriedade de seu ofício, dando exemplos, ou do que falam ou do que lhes despertou a tal paixão. “Por que você faz cinema?” é uma das perguntas que orientam o documentário.

São emocionantes os informais depoimentos de Andrzej Wajda, Ariano Suassuna, Asghar Farhadi, Bela Tarr, Bence Fliegeuf, Gus Van Sant, Hector Babenco, José Padilha, Júlio Bressane, Karim Aïnouz, Ken Loach, Lucrecia Martel, Ruy Guerra, Salvatore Cascio e Zhang-ke Jia, belo panorama do cinema contemporâneo colecionado ao longo das últimas duas décadas por Walter Carvalho, ele próprio uma espécie de enciclopédia do cinema nacional, com o nome em fichas técnicas de filmes como Amarelo manga (fotografia), Carandiru (fotografia), Cazuza – O tempo não para (direção, com Sandra Werneck), Central do Brasil (fotografia), Febre do rato (fotografia), Lavoura arcaica (direção de fotografia), Madame Satã (fotografia) e Terra estrangeira (direção).

Ruy Guerra, diretor de Quase memória, comenta por exemplo, a vontade que teve de ser escritor um dia. José Padilha, de Tropa de Elite e Robocop, comenta os conflitos entre blockbusters e cinema autoral em Hollywood. A argentina Lucrecia Martel desenha para explicar melhor determinada ideia. Ariano Suassuna (O auto da compadecida) lembra o primeiro filme que assistiu, “nunca mais vi algo tão ruim, passei um tempo resistente a cinema por conta dele”, e o dia em que levou uma tia para ver um filme de terror no cinema, para gargalhada geral da plateia. Salvatore Cascio lembra, no local em que foi filmado, a sorte de ter sido escolhido, entre 250 candidatos, para atuar em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Bela Tarr tece comentários sobre a liberdade, necessária ao ofício dos atores.

Os diretores comentam aspectos mais técnicos, como planos, sequências, enquadramentos e outras convenções cinematográficas. Fugindo delas – “mesmo o não convencional é uma convenção”, adverte Júlio Bressane – Walter Carvalho se vale da pluralidade de cenários, câmera na mão, garantindo certo nervosismo, talvez uma metáfora para nos lembrar de que estamos diante de alguns dos maiores nomes do cinema brasileiro e mundial.

Um filme de cinema pré-estreia no Maranhão na Tela, em sessão gratuita e aberta ao público no próximo dia 23 de março (quarta-feira), às 20h30, no Cine Praia Grande.

Homem de vícios antigos assistiu ao filme a convite da produção do festival.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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