Os franco-sambas

Pas à pas. Capa. Reprodução
Pas à pas. Capa. Reprodução

A dupla francesa Aurélie & Verioca lançou, ano passado, seu segundo disco, o ótimo Pas à Pas, em que apresentam temas instrumentais e cantados, em francês e português, com sonoridade brasileiríssima: estão lá o choro, o samba e a bossa nova.

Gravado entre a França e o Brasil, o álbum é recheado de participações especiais daqui e de lá: [a flautista] Cléa Thomasset, Flor de Abacate [grupo formado por Marcos Flávio (trombone), Rubim do Bandolim, Silvio Carlos (violão sete cordas), Dudu Braga (cavaquinho) e Oszenclever Camargo (percussão)], [a cantora e compositora] Joyce Moreno, [o violonista] Luís Filipe de Lima, [o violonista e bandolinista] Marco Ruviaro, [o baterista e violoncelista] Médéric Bourgue, [o cavaquinista] Osman Martins, [o percussionista] Stéphane Edouard, [o violonista] Swami Jr., [o saxofonista] Thomas Vahle e [o percussionista] Zé Luis Nascimento.

Além de músicas autorais, o disco traz composições de nomes como Joyce Moreno [Chocolate for (h)all, versão delas para For hall], Swami Jr. [Le temps d’un samba, versão delas para O tempo de um samba] e Egberto Gismonti [À la dérive, versão delas para Loro].

Em abril elas voltam ao Brasil para uma turnê, o que fazem regularmente desde 2012. Já estão agendadas duas apresentações no Rio de Janeiro: dia 28 de abril, no Vinicius Bar (Rua Vinicius de Moraes, 39, Ipanema), com repertório mais voltado à bossa nova; e dia 30 de abril, na Casa das Artes da Ilha de Paquetá (Praça de São Roque, 31, Paquetá). Elas demonstram interesse em passar também por Brasília, Goiânia e São Luís – atenção, produtores! –, onde o público mais afeito a choro já ouviu faixas de seu disco mais recente no Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos.

Aurélie Tyszblat (voz e letras) e Verioca Lherm (violão, voz, cavaquinho, percussões vocais e músicas) conversaram por e-mail (em português) com o Homem de vícios antigos.

Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó
Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó

 

Está anunciada uma turnê de vocês pelo Brasil que pode passar por São Luís. O que está fechado e o que está faltando?
Aurélie – Estamos fazendo uma turnê por ano no Brasil desde 2012. Até o ano passado, essa turnê passava por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Para 2016, o nosso desejo é tentar atingir outros espaços. Pensamos em Goiânia, Brasília e São Luís do Maranhão, por que as nossas produtoras têm conexões nesses estados. A nossa experiência mostra que a maioria dos shows dessas turnês é fechada entre um e dois meses antes do início da temporada. Temos já dois shows marcados no Rio e ainda algumas semanas para completar a temporada.

Vocês são francesas. Como se conheceram? Algum parentesco? E como se apaixonaram pela música brasileira?
Verioca – Eu nasci perto de Clermont-Ferrand, no centro da França, e moro em Montpellier, no sul da França perto do mar, há mais de 10 anos. Não tenho nenhuma ligação familiar com o Brasil. Eu toco música brasileira há 30 anos, então essa música é mais que uma inspiração para mim, ela virou a minha música! Primeiro foi quando estudei violão clássico no conservatório. Tinha estudado algumas obras de [Heitor] Villa-Lobos, [Tom] Jobim, e logo depois eu descobri a pianista e cantora [maranhense] Tânia Maria. Foi como uma revelação: eu soube imediatamente que era este tipo de música que eu queria tocar. Desde esse tempo eu comecei a estudar e nunca parei. Hoje, além do meu violão de seis e da minha voz, eu toco percussões – surdo, pandeiro, tantan, repinique, alfaia, tamborim etc. –, cavaquinho, violão sete cordas. Como multi-instrumentista, eu toco em vários grupos de música na França. A maioria são grupos de música brasileira – o grupo Madrugada, que faz samba, Choro Sorrindo, que toca choro, Guaraná Samba, que toca música afro-brasileira, Onda Maracatu, que toca maracatu –, mas também com cantoras de canções francesas, Marie Busato, ou grupos de crianças, Les P’tits Loups du Jazz.

Aurélie – Eu nasci em Paris e moro lá desde sempre. O meu avô do lado do meu pai era da Polônia e a minha mãe nasceu na Argélia. Do meu lado também não tem nenhuma ligação com o Brasil na minha família. Quem sabe numa outra vida éramos formigas brasileiras… ou bem-te-vi talvez… Eu ouvi o meu primeiro disco de música brasileira quando tinha 14 anos de idade. Era um disco de Chico Buarque e a gravação ao vivo de Vinícius [de Moraes] com Toquinho e Maria Creuza, En La Fusa [gravado na boate homônima em Buenos Aires]. Depois comecei a cantar a música de [o pianista] Michel Legrand e standards de jazz. Mas nas partituras do Real Book, queria sempre cantar os temas brasileiros. Foi anos depois, em 2003, que encontrei um professor muito querido, Eduardo Lopes, que mora na França e faz oficinas sobre a música brasileira. Foi graças a ele que desenvolvi a minha paixão pela música brasileira de uma forma muito profunda, longe dos clichês. Comecei a minha vida profissional trabalhando com cinema, primeiro com produção e logo depois como roteirista. Eu queria contar histórias e acho que é exatamente o que eu quero fazer no palco hoje.

Verioca – Nós nos cruzamos pela primeira vez em 2002 numa oficina de jazz que eu estava dando. Depois a Aurélie me contatou em 2007 para me propor de montarmos juntas um repertório de versões de [o violonista] Guinga e [o compositor] Aldir Blanc. Eu só podia aceitar, pois admiro desde sempre o trabalho deles. Nós preparamos então umas vinte músicas e começamos a viajar com o show.

Aurélie – A Verioca tinha acabado de abrir o show da Tânia Maria no Olympia de Paris e eu fiquei muito fã do trabalho dela. Eu escutei os seus dois primeiros cds sem parar durante um certo tempo, antes de pensar em propor minhas letras. O começo da parceria na composição é mais recente, do final de 2009.

É interessante vocês falarem nesta distância de clichês. Em seu novo disco, por exemplo, vemos, entre os compositores, os nomes de Joyce Moreno e Egberto Gismonti, entre outros, além do nome dela e de Swami Jr. entre as muitas participações especiais. Gostaria que vocês comentassem um pouco o processo de realização deste disco.
Aurélie – Temos uma relação específica com cada músico que participou do nosso disco. Vamos começar com a Joyce. Ela conhece o trabalho solo da Verioca há mais de 15 anos, pois a empresária dela à época, Beth Bessa, que é agora a nossa produtora no Rio, tinha oferecido os dois primeiros discos dela. Ela já tinha gostado muito. Finalmente, nos encontramos no Rio em 2010 durante uma oficina sobre a música brasileira conduzida por meu professor Eduardo Lopes. Cantamos Essa mulher para ela e ela gostou. Uma amizade nasceu assim. E quando escrevi essa letra na música instrumental dela, For hall, pedi a autorização e ela me deu na hora. Ela fala fluentemente francês e aceitou o convite para participar do disco com a maior simplicidade e alegria. Ano passado foi uma alegria poder convidá-la no palco do Sesc Tijuca, onde tocamos uma das músicas mais recentes dela, chamada Claude et Maurice, em homenagem a Claude Debussy e Maurice Ravel. Com Gismonti foi diferente. Quando escrevi a letra do Loro e quando a Verioca chegou a um arranjo interessante, consegui o e-mail dele e pedi a autorização de mostrar essa versão. Ele demorou um pouco para me responder, mas quando respondeu, nos acolheu com uma generosidade incrível. Ele tinha “estudado” o nosso trabalho com muito carinho e nos deu sugestões e opiniões que vão ficar para sempre nos nossos corações. Com Swami Jr. foi um pouco do mesmo jeito, a gente tinha um amigo em comum, o [cantor] Marcelo Preto, que já tinha gravado no nosso primeiro disco [Além des nuages, 2011]. E quando eu fiz a versão de O tempo de um samba ele aceitou de nos encontrar para ouvi-la. Na época não sabia que ele falava francês, pois tinha morado em Paris alguns anos. De lá ele topou gravar na música dele e ficou lindo! É interessante notar que tanto a Joyce quanto Gismonti e Swami Jr. falam francês muito bem. Só pra dizer que essa ponte franco-brasileira funciona nos dois sentidos. Os outros convidados do disco são amigos que a gente escolheu com muito carinho para participar de tal faixa. Pode parecer esquisito, mas a gente gosta de apresentar músicos brasileiros que não se conhecem. Foi assim que o Luís Filipe de Lima faz um duo com Osman Martins no cavaquinho. Os dois nunca se encontraram – Osman mora na Bélgica há anos e Luís Filipe é radicado no Rio –, mas a musicalidade deles juntos é impressionante. Flor de Abacate que toca no Pas à pas são [nossos] amigos desde 2012, a primeira turnê que fizemos em Minas. Temos uma admiração muito grande pelo trabalho deles juntos e separados também. O irmão de Dudu e Ramon Braga até gravou uma música nossa no primeiro disco dele, Reconciliação. Mas também tem participações de músicos daqui: o Médéric Bourgue no cello é um dos raros músicos daqui que conhece bem a música brasileira e a suas síncopas tão particulares. Ele também toca bateria, mas tem um som lindo no cello. A Cléa Thomasset é uma amiga de longa data que tem uma relação muito forte com o Brasil, dedica a sua música ao chorinho. Ela faz parte da boemia de Paris, do que falamos em Naquele bar [faixa de Pas à pás]. O Marco Ruviaro é amigo dela, chorão de primeira, compositor, bandolinista e toca até clarinete muito bem! No total, levou um ano de produção para finalizar o disco, gravando no Rio, Belo Horizonte, São Paulo, mas também Paris, Bretanha. Pode parecer muito, mas é o tempo que precisamos para amadurecer cada música. Deveria dizer cada compasso de cada música [risos]. E também a vantagem de não ter gravadora. Como independente, podemos ter o tempo que precisamos. Basta ficar focadas. Vou acrescentar aqui que, como trabalhei com produtora de cinema na minha primeira experiência profissional, sei mexer nessa burocracia chata. Não é a minha praia como vocês falam, mas tem que fazer para poder viabilizar os nossos sonhos…

Pas à pas é um disco bilíngue. Mesmo quando cantando em francês, as músicas compostas por vocês, é um disco que soa brasileiríssimo. Quais os principais canais de fruição de música brasileira para vocês? Discos chegam ao mercado, vocês importam, baixam, ou um pouco de tudo isso?
Verioca – Comecei a me interessar por música brasileira nos anos 1980. Nesta época não tinha internet! Então eu sempre procurava discos de vinil. Tenho mais de 600 LPs de música brasileira e mais de 500 CDs, viajava no Brasil quando eu podia para caçar as pérolas que podia achar. Também assistia, sempre que possível, os brasileiros que tocavam na França, como por exemplo Les étoiles, com [os cantores] Rolando Faria e Luiz Antônio, ou Tânia Maria, que vem de São Luís do Maranhão, ou [a cantora e violinista] Mônica Passos. Nas minhas viagens, procurava partituras e voltava na França para estudar.

Aurélie – Hoje é mais fácil. Facebook é uma ferramenta que pode ser muito ruim, mas que é, sem dúvida, uma fonte incrível para descobrir novos talentos. Essa semana descobri o grupo vocal Ordinarius [formado pelos cantores André Miranda, Augusto Ordine, Letícia Carvalho, Luiza Sales, Maíra Martins e Marcelo Saboya] e me encantei! Mas cada vez que viajamos, a nossa mala volta cheia de discos novos. Pois o que é incrível no Brasil é que, apesar das dificuldades que têm os músicos bons para ter visibilidade na grande mídia, tem sempre novos compositores, intérpretes, talentos que surgem.

Vocês falaram na paixão inicial pela obra de Villa-Lobos. São Luís do Maranhão, de onde escrevo, é a terra de Turíbio Santos, um dos maiores divulgadores da obra de Villa mundo afora, já tendo morado na França, gravado diversos discos aí e vencido alguns concursos de violão. Vocês conhecem seu trabalho?
Verioca – Eu conheço Turíbio Santos, sim! O [violonista] Roland Dyens foi o meu professor e com certeza, quem estuda violão clássico conhece Turíbio Santos.

Aurélie – Não conhecia, mas gostei muito.

Foi a música brasileira que levou-as a aprender português?
Aurélie – Sim, foi por causa, ou seja, graças a música que a gente começou a estudar a língua portuguesa. Antes de me interessar nessa música, nunca tinha achado letras tão poéticas, tão ricas e com uma poesia do dia a dia que ajuda a viver.

Verioca – Eu também aprendi o português viajando para o Brasil e através das letras, mas também dos gibis do Zé Carioca. Por esse motivo o meu português é mais coloquial.

Sua nova turnê brasileira deve ser focada no Pas à pas, mas passar também pelo primeiro disco e outras afetividades, digamos assim. O que o público brasileiro das cidades por onde vocês passarão pode esperar de Aurélie e Verioca no palco?
Aurélie – A turnê oficial de lançamento de Pas à pas foi feita ano passado. Mas para muitas pessoas, esse disco ainda é novidade! Então pretendemos continuar a divulgar esse trabalho. Porém, como sempre, costumamos viajar com muitas coisas diferentes no nosso repertório. Temos por exemplo um repertório dedicado ao choro cantado, com obras de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim… São letras um pouco esquecidas que gostamos de resgatar, e também algumas surpresas em francês. Também, nesta temporada, faremos no Rio um show de homenagem a bossa nova, no Vinicius Bar, em Ipanema. Na França, apresentamos esse ano um show com um escritor francês, Jean-Paul Delfino, que inclusive viajou à São Luis em novembro de 2015, e que escreveu há alguns anos um livro sobre a bossa nova. Com ele, o nosso show mistura histórias ligadas a bossa nova e músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell que têm versões em Francês. Além disso tudo, gostamos sempre de homenagear os compositores que alimentaram a nossa identidade franco-brasileira: Guinga, Eduardo Gudin, Joyce Moreno e Egberto Gismonti fazem parte desse grupo. Mas o que eu posso dizer é que, independentemente do repertório, procuramos sempre fazer um show que mistura emoções, contando histórias, anedotas que nos levam também do lado da infância, da saudade e da joie de vivre. Isso tudo para que o nosso show vire um momento de encontro autêntico com o público.

Já é possível falar em disco novo? Se sim, o que vocês estão preparando?
Aurélie – Para o próximo disco temos ideais. Mas são apenas desejos que não podemos comentar ainda. Como eu já falei para você, produzir o Pas à pas foi um processo demorado e exigente de um ano de produção, sem falar dos inúmeros meses que a gente levou para escrever e selecionar o repertório. Então acho que ele merece uma vida longa  e vamos fazer tudo para defendê-lo no palco durante mais um tempo.

Vejam o clipe de Pas à pas:

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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