Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

5 comentários em “Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles”

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