Transmúsica

As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit
As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit

 

O grupo As Bahias e a Cozinha Mineira fez um dos mais surpreendentes discos da música brasileira em 2015. O álbum intitula-se simplesmente Mulher, o que por si só pode parecer provocação: as duas vocalistas são transexuais.

Assucena Assucena é baiana de Vitória da Conquista; Raquel Virgínia é paulistana, mas morou em Salvador, onde chegou a cantar em trios elétricos em carnavais. Ambas têm 27 anos, cursam história na USP e o mesmo apelido: Bahia – são as cantoras as Bahias do nome do grupo.

Entre suas principais referências musicais estão a Gal Costa tropicalista e o Clube da Esquina mineiro – hoje, apenas um músico da formação é da terra de Beto Guedes; antes, eram todos, daí vem a segunda parte do nome do grupo.

Mulher. Capa. Reprodução
Mulher. Capa. Reprodução

A capa do disco, do artista plástico Will Cega, outra provocação, traz uma textura rubro-negra, que evoca símbolos femininos: um púbis que parece contrariar a ditadura da depilação total, arrodeado pela menstruação nossa de cada mês.

As letras, outra provocação, tapas na cara de uma sociedade que ousa abordar senhores compositores – literalmente – apenas por conta de suas (coerentes) convicções políticas. Sua música transita entre o carnaval e o protesto. Mulher está plenamente sintonizado com as discussões feministas que ocuparam sobretudo as redes sociais nos últimos meses.

Apologia às virgens mães, Josefa Maria, Lavadeira água e Uma canção pra você (Jaqueta amarela) contam as histórias de mulheres simples, com rara beleza e força poética. “Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?/ Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?/ Quantos beiços beberam do teu peito o afã?/ e dos seios sugaram o suco sem dor, dos teus zelos/ Senhora de saia, de ventre pré-destino/ quantos tempos cruzaram num ponto de cruz teu destino?”, perguntam-se na primeira.

Além de Assucena e Raquel, As Bahias e a Cozinha Mineira é formado pelos músicos Carlos Eduardo Samuel (eletroacústica), Danilo Moura (percussão), Rafael Acerbi (guitarra e violão), único mineiro da formação, Rob Ashttofen (contrabaixo elétrico e fretless) e Vitor Coimbra (bateria). Produtor musical da banda, Deivid Santos gravou piano e teclado no disco.

Mulher é recheado de participações especiais: André Andrade (beat e programações), Chico Ceará (acordeom), Joabe Reis (trombone), João Paulo Ramos Barbosa (saxofone tenor), Marcel Martins (cavaquinho), Mestre Dinho Nascimento (berimbau), Sarah Alencar (flauta e vocais), Sérgio Barba (cuíca), Sidmar Vieira Souza (trompete) e Vinicius Chagas (saxofone tenor).

Uma primeira tiragem promocional do disco está esgotada. Mulher pode ser ouvido na íntegra no youtube.

EP Descostura marca estreia de Valéria Sotão

Artista disponibilizou três faixas, antecipando o álbum que gravará em 2016. Também já está no ar o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das faixas de Descostura

 

Este é o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das três faixas de Descostura, EP que Valéria Sotão acaba de disponibilizar na internet. Compositora e cantora – é ela quem prefere ser chamada nesta ordem – que acrescenta um “de voz miúda” ao se apresentar nas redes sociais.

Descostura. Capa. Reprodução
Descostura. Capa. Reprodução

Chocolate meio amargo tem direção de Emilio Andrade e atuação de Luciano Teixeira e Larissa Ferreira. Descostura, o EP, está disponível para audição no soundcloud da artista, que promete para ano que vem o álbum completo de estreia. Apesar de jovem, Valéria já deu algumas guinadas na vida.

Primeiro, abandonou o jornalismo. “Fiz jornalismo porque queria mudar o mundo, mas aprendi logo a falta de autonomia na área. Sempre quis música; mas minha família queria uma garantia, então fiz faculdade e adiei a música”, conta. Dedicou-se por algum tempo à fotografia, profissionalmente. Com Descostura alça, agora, voo musical.

“Acho que o jornalismo me trouxe uma bagagem cultural única, que posso usar na música, e a fotografia é uma arte e todas as artes são relacionadas”, afirma, costurando suas áreas de atuação.

Valéria Sotão, compositora e cantora "de voz miúda". Foto: divulgação
Valéria Sotão, compositora e cantora “de voz miúda”. Foto: divulgação

Ela compõe desde os 15 anos, mas só recentemente fez sua estreia num palco, durante o evento Lição de moda, no recém-inaugurado Shopping Passeio, no Cohatrac. “O produtor do evento me chamou sem nunca ter me ouvido, pois disse que confiava no meu bom gosto. Moda é arte, forma de expressão assim como a música”, acredita.

Descostura tem uma pegada pop, cujas influências, ela mesmo confessa, são Caetano Veloso, Rita Lee, Secos & Molhados, Placebo e David Bowie. Ela, no entanto, não renega a cultura popular – o clipe de Chocolate meio amargo tem trechos rodados num de seus principais palcos no Maranhão, a Praia Grande. “Eu adoro a cultura popular maranhense. Já vivi muitas coisas na Praia Grande, já fiz faculdade de música – que não terminei – por ali… Adoro bumba meu boi”, revela.

Raflea (nome artístico de Rafael Cunha França, integrantes de bandas como Torre de Papel e Casaloca), um exército de um homem só, tocou todos os instrumentos do disco, exceto a bateria, assinada por Carlos Silva, e o violão da faixa-título, tocado pela própria Valéria. A capa do EP é um desenho de Ksyfux (nome artístico de Agnaldo da Silva Jr.).

As três faixas são ótimo aperitivo. É esperar, em 2016, pelo início da gravação do álbum completo, que incluirá as faixas de Descostura e outras inéditas e, após isso, por shows de lançamento.

Busca

O poeta Joãozinho Ribeiro resgatou, entre objetos deixados por um cunhado recentemente falecido, um trecho do poema Guerra que te quero paz, que segue publicado ao fim deste post. O intento é encontrar o restante do poema, com alguém que o autor de Milhões de uns possa tê-lo compartilhado no passado. Notem: Joãozinho não procura um parceiro para fechar o poema. Quer saber se, entre os amigos de longa data, alguém sabe, lembra, viu, tem cópia com a outra parte etc., etc., etc. Se alguém puder ajudar, agradecemos antecipadamente.

GUERRA QUE TE QUERO PAZ

Entre as feridas da bomba
Uma criança sem rosto
Vagueia pelos subúrbios
Da cidade destruída
Catando os cacos de infância
Subtraídos da vida

Sem pátria, sem geografia
Perdida num continente,
Delinquente, guerrilheira,
Ensaia para o futuro
Uma canção de esperança
Bordada em letras de muro

Dos cacos que vai juntando
Edifica sobre as perdas
Uma palavra sofrida
Que vaza as dores do mundo
Queixando as rosas da vida
Esmagadas num segundo

A palavra peregrina,
Imitando o voo dos pássaros
Sobe alpes, cordilheiras,
Invade vitrines, praças,
Devassa quartéis, igrejas
Pelos países que passa

A grandeza de Cesar Teixeira

O compositor (já no chão) e seu "batalhão pesado" de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)
O compositor (já no chão) e seu “batalhão pesado” de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)

 

Cesar Teixeira estava à vontade no palco da Casa das Dunas, onde se apresentou ontem (19). Cercou-se de alguns de seus melhores intérpretes, para um passeio por diversas fases de sua obra.

A vantagem de um show fora dos períodos carnavalesco ou junino é poder conhecer-lhe diversas vertentes. Teve São João – abriu e fechou com Boi da lua –, teve carnaval –Dias felizes, na interpretação das vocalistas do grupo Lamparina –, teve protesto – Oração latina foi entoada pela multidão de pé –, mas teve muito mais.

Flávia Bittencourt cantou Dolores e Flor do mal, que gravou em seu disco de estreia, em 2005, e Parangolé, que gravou em No movimento, o mais recente. Cláudio Lima cantou Ray ban, que gravou antes mesmo do compositor, em seu disco de estreia, em 2001, e Bis, cujo verso “cada mesa é um palco”, dá nome a seu segundo disco, de voz e piano, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles. Célia Maria cantou a inédita A cruz do palhaço e Lápis de cor, gravada por ela em seu disco de estreia, o homônimo Célia Maria, de 2001. Lena Machado cantou Flanelinha de avião, gravada por ela em Canção de vida, seu disco de estreia, de 2006, e Quem roubou minha aquarela?, com que ela e o compositor participaram de um festival nacional de samba. As vocalistas do grupo Lamparina cantaram a marcha rancho com que obtiveram o segundo lugar no Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação. Com cada intérprete Cesar, autor solitário da íntegra do repertório, dividiu os vocais em uma música.

A base do repertório que Cesar cantou sozinho era Shopping Brazil, o único disco lançado por ele, em 2004. A Met(amor)fose, Vestindo a zebra, Namorada do cangaço e a faixa-título daquele trabalho, somaram-se Das cinzas à paixão, gravada por Serrinha e Companhia com participação especial de Zeca do Cavaco, e Canção da partilha, lançada há cerca de 10 anos, como um poema, declamado pelo próprio Cesar, em Regar a terra, um disco comemorativo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Maranhão.

Cesar estava acompanhado por Cleuton Silva (contrabaixo acústico e elétrico), Daniel Cavalcanti (trompete), Danilo Santos (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra, viola caipira e direção musical), Raquel (vocal), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim), Ronald Nascimento (bateria), Rui Mário (teclado e sanfona) e Wanderson Silva (percussão).

O espetáculo irmanou palco e plateia – não foram poucos os momentos em que o público que lotou a Casa das Dunas fez um bonito coro acompanhando as músicas mais conhecidas do compositor. Cesar dialogou com a plateia, brincou por diversas vezes, dizendo da felicidade para com os muitos amigos ali presentes.

Aos gritos de “mais um”, não se fez de rogado. Voltou ao palco para hastear sua Bandeira de aço e repetir o Boi da lua com que abriu o espetáculo. Reunindo todos os convidados para entoar um dos hinos do São João do Maranhão, finalizou o show junto ao público, cantando com ele.

Toda a apresentação foi filmada e os melhores momentos integrarão um documentário dirigido pelo cineasta Marcos Ponts.

Tendo encerrado o ano musical com a maior categoria, Cesar Teixeira já está de olho no futuro: anunciou com exclusividade a este Homem de vícios antigos o próximo encontro com o público. Em janeiro, em data e local a definir, fará um show dedicado a sambas de sua autoria e de compositores da Madre Deus e outros bairros de São Luís. Dividirá o palco com Patativa, Zé Pivó e a Velha Guarda dos Fuzileiros da Fuzarca – o blogue voltará ao assunto em breve.

A herança musical de Alice Passos

Com o Maranhão e a música no DNA, a cantora e flautista Alice Passos é a convidada da última edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015. O sarau musical acontece hoje (19), a partir das 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite contará ainda com as apresentações do dj Marcelo Guzmán e do Regional Chorando Callado, que acompanhará a artista carioca.

O grupo se formou por ocasião do projeto Clube do Choro Recebe, produzido por Ricarte Almeida Santos entre 2007 e 2010, no Bar e Restaurante Chico Canhoto. João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho) – a formação para hoje –, à época eram jovens estudantes de música; hoje são dos mais requisitados e frequentes nomes em fichas técnicas de discos e shows de artistas locais e nacionais.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão, irmã da cantora e cavaquinhista Mariana Bernardes e afilhada do multi-instrumentista Egberto Gimonti. Apesar da pouca idade – 25 anos recém-completados – já é vasto seu currículo: aos oito anos entrou para os Flautistas da Pro Arte, passando em seguida a se apresentar com a Orquestra de Sopros da Pro Arte. Integrou por quatro anos a Orquestra Corações Futuristas, fundada e regida por Gismonti.

Em 2006 ela participou do disco Mario Lago – O homem do século XX. Atualmente prepara seu disco solo de estreia. A artista conversou com O homem de vícios antigos.

Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação
Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação

Homem de vícios antigos – Você é filha de maranhense e já se apresentou em São Luís diversas vezes. Qual sua relação com a cidade?
Alice Passos
– São Luís é minha segunda casa. Tenho diversos tios e primos aqui na ilha e desde que vim a primeira vez que venho pelo menos uma vez por ano. Excepcionalmente nos últimos três anos não pude vir, por isso estou muito alegre de estar voltando pra cá, onde me sinto em casa, onde danço o bumba meu boi, o tambor de crioula… Me identifico muito com a música e a culinária da cidade.

Com que sentimento você recebeu o convite para encerrar a temporada de RicoChoro ComVida em 2015?
Fiquei muito contente, pois já não vinha à ilha há três anos e estava morrendo de saudade da família, das praias, do vento, da comida…

Qual a base do repertório de sua apresentação amanhã?
Mesclei músicas que eu imagino que sejam conhecidas do público daqui e que gosto muito com músicas do repertório que venho pesquisando ao longo dos meus 10 anos de atividade como cantora

Você já conhecia os músicos do Chorando Callado? Qual o clima dos ensaios?
Conhecia o João Eudes do violão e o João [Neto] da flauta. É como se tocássemos juntos há 10 anos.

Seu disco solo de estreia, prometido para ano que vem, terá, entre compositores e participações especiais, nomes como Guinga, Paulo César Pinheiro, Francis Hime, Maurício Carrilho, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. O que significa para você o endosso de tantos nomes tão importantes para a música brasileira?
Conheço o Egberto desde criança. É meu padrinho. Engraçado que a nossa relação é muito mais pessoal do que musical, apesar d’eu ter participado da Orquestra Corações Futuristas, regida por ele, durante quatro anos. Fora o Francis, com quem encontrei poucas vezes, tenho uma forte relação de amizade e afeto com todos os outros compositores e músicos citados. Seja encontrando para tomar um chope, seja ensaiando juntos, gravando… Engraçado que, por ter uma amizade com eles há tanto tempo, acho que não tenho muita dimensão do que significa o nome deles no meu projeto. Claro que tenho consciência da importância deles pra a música brasileira, mas pra mim é muito natural tê-los no meu primeiro disco. No caso, acaba que o Yamandu e o Egberto infelizmente não puderam participar. Mas estão no disco Dori Caymmi, Guinga, Sérgio Santos e Théo de Barros. Me sinto muito honrada e agradecida pela generosidade de todos que participaram do meu disco.

Você chegou a tentar outra profissão fora da música?
Nunca! Canto desde os nove anos, tanto em show quanto em gravação.

O fato de ter nascido numa família de músicos ajudou ou atrapalhou em sua decisão de seguir a carreira musical?
Os dois. Atrapalhou no sentido que eu, por rebeldia adolescente, tentei querer outra coisa, só pra ser do contra. Mas não foi pra frente. Ajudou em todos os outros sentidos. Tive muita ajuda.

Você é cantora e flautista. O público de São Luís também terá a oportunidade de ouvir você tocando flauta?
Desta vez não. Toquei flauta praticamente só em orquestras. Faz dois anos que não trabalho mais como flautista, só dou aulas.

Você é reconhecida como um dos nomes que colaborou para a revitalização e o reconhecimento da Lapa enquanto centro sambista do Rio de Janeiro. Você conhece ou acompanha o cenário do samba ou da música popular de modo geral no Maranhão? Se sim, que nomes destacaria?
Muito menos do que eu gostaria. Conheço o grupo Espinha de Bacalhau, Feijoada Completa, torço desde sempre pelo Roberto Chinês que é um baita instrumentista… Sempre que venho tenho pouco tempo pra fazer essa garimpada da música que não conheço. Acabo vendo os mesmo amigos, fico muito tempo com a família. Mas espero voltar a vir anualmente e me inteirar do que tá rolando.

Prece para corações cansados encerra temporada 2015 do grupo Teatrodança

A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação
A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação

 

O Grupo Teatrodança encerra as atividades de 2015 com a apresentação, nesta sexta (18), do espetáculo Prece para corações cansados, na Livraria Leitura (São Luís Shopping), às 19h, de graça – na ocasião o livro Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade será vendido por R$ 20,00.

Coordenado pela artista Júlia Emília, o grupo Teatrodança foi fundado em 1985, embora os trabalhos de investigação da proposta diferenciada em dança, unindo corpo, cena, literatura e música, tenham começado antes. “O trabalho com os dançarinos-atores-criadores se caracteriza pela experiência continuada e progressiva que passa pelas memórias, consciências, trânsitos e experimentações em determinados momentos das vidas de cada um ou do coletivo artístico do qual somos parte. Praticamos e estudamos em trabalho exigente porque nos colocamos à disposição da criação”, explica.

Ao longo de 2015 foram diversas as apresentações do grupo, dialogando com noites de autógrafos do livro Vivendo Teatrodança, que reúne os estudos e experimentações que resultaram nos espetáculos Bicho Solto Buriti Bravo, O Baile das Lavandeiras e Meninos em Terras Impuras.

“A sabedoria decorre da experiência. Não há nada proibido, nãohá punições, há apenas um momento e a vontade de saboreá-lo para responder ao chamado do que se passa em nossas almas. Somos abençoados porque estamos cansados de sentir a ignorância e o sofrimento se alastrando nas vidas. Digamos chega! Sejamos livres para retomar o caminho do espírito!”, diz trecho do texto sobre o espetáculo distribuído à imprensa.

Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”

Bumba meu dub

Vibração poética. Foto: ZR (12/12/2015)
Vibrações poéticas. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.

Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).

Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.

Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.

Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.

“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.

Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.

A incansável máquina humana de fazer música

Foto: ZR (11 12 2015)
Curumin e Os Aipins. Foto: ZR (11/12/2015)

 

Que Curumin é um músico que sabe o que fazer no estúdio já estamos cansados de saber e seus três discos são a prova disso. Em Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012), ele compõe, canta, toca, sampleia e reinventa a música pop(ular) produzida no Brasil.

Que Curumin sabe o que fazer no palco, o show dele ontem (11), na programação do Festival BR135, sua primeira vez em São Luís, não deixou a menor dúvida. Pilotando bateria e samples, trajando calça vermelha, chapéu e uma camisa quase nas cores do Sampaio Corrêa (o laranja predominava, em vez do vermelho), o artista estava escoltado pelos Aipins José Nigro (contrabaixo e samples) e Lucas Martins (guitarra e samples), “uma banda que tá há muito tempo tocando junta”, como revelou em entrevista ao Homem de vícios antigos.

Curumin canta, toca, programa, protesta, improvisa, não se dá descanso ao longo de toda a apresentação, em que emenda uma música na outra, como se fosse uma máquina de fazer música – embora não o faça mecanicamente e o prazer em tocar, e particularmente em tocar em São Luís, era perceptível. Não há vazios em sua música – ou nas poucas alheias que interpreta. É de um vigor impressionante.

Começou por Vestido de prata (Jorge Alfredo Guimarães), sucesso do novo-baiano Paulinho Boca de Cantor, regravada por ele no disco mais recente. Com quase uma década, Mal estar card atualiza o momento político cretino que o Brasil atravessa. Samba Japa traduzia o sentimento dos que lotaram a praça: na música, a menina sonhou e sambou ali, “no meio da rua na Avenida Central ela não podia parar”; os que estávamos na Praça Nauro Machado também não.

O refrão de Compacto foi cantado pela plateia, em resposta aos “Eu só quero ouvir” de Curumin. Seguiram-se Passarinho, de Russo Passapusso, Selvage e Afoxoque, com o trio esbanjando versatilidade, habilidade e alegria, esta última entrecortada pela caixa de música que abre Salto no vácuo com joelhada (que ele não cantou), preenchida por rimas improvisadas contra “a polícia que trata todo estudante como maconheiro” e a corrupção na política – não disse, mas certamente se referia à São Paulo e a guerra travada pelo governo Alckmin contra estudantes ocupando escolas para mantê-las abertas, contra projeto de “reorganização” do governador.

Mistério Stereo foi dedicada às pessoas que ainda amam, “são poucas”, disse. Vem, menina foi a única música de Achados e perdidos que compareceu ao repertório. Ao vivo, o bloco final ganhou em peso. Em Kyoto o protesto voltou à baila, contra as elites que querem decidir o destino dos menos favorecidos; em Caixa preta Zé Nigro enfiou de incidental trechos de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, de Fausto Fawcett; Magrela fever tornou a praça uma grande festa em clube de carnaval, com direito a trenzinho e tudo.

Sabe-se lá se a polícia local tomou para si os protestos de Curumin, mas, diante das ameaças de tomarem o palco e acabar com o show na marra, após negociações com a produção, não coube bis. Policiais alegavam ter o show extrapolado o horário – o que se fosse o caso, mereceria uma honrosa exceção.

Incansável, Curumin fez quase duas horas de um show impecável, um apanhado do melhor de sua carreira. Certamente teria pique para mais, ao menos o bis, mas nem isso tirou o brilho da noite e, particularmente de sua apresentação, que ficará por muito tempo na memória dos que presenciaram esse momento grandioso e raro.

Comunhão

Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Projeto BR135
Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135

 

Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.

Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.

Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.

Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.

Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.

Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.

Skarnaval

A OBMJ na capital brasileira do reggae. Foto: Projeto BR135
A OBMJ na capital brasileira do reggae. Foto: Projeto BR135

 

Na mesa de que tive a honra de participar na programação do Conecta Música – evento de formação paralelo ao Festival BR135 – Roberta Martinelli, comentando sua trajetória e os embates constantes pela manutenção do que idealizou para seu programa Cultura Livre, lembrou a resposta que deu a um “você nunca traz uma banda grande” que ouviu de alguém. “Trago sim, já trouxe a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, a Filarmônica de Pasárgada, o Bixiga 70”, enumerou, bem humorada.

A Orquestra Brasileira de Música Jamaicana – ou simplesmente OBMJ para os íntimos – aterrissou no palco da Praça Nauro Machado, ontem (11), trazendo ao público ludovicense sua adaptação de repertório brasileiríssimo a ritmos como reggae, ska e rocksteady.

Martinelli está certa: é uma grande banda e uma banda grande. São nove músicos, o naipe de metais tem cinco sopros. Elegantemente trajados, uns de terno, outros de boina, todos de gravata, dançavam em engraçadas coreografias. Em determinado momento me peguei pensando se eles nunca erraram e o trombonista acertou um companheiro do lado – ontem, não.

Entre versões instrumentais e cantadas, clássicos da música brasileira vertidos à Jamaica: Pagode russo (Luiz Gonzaga), Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro), Águas de março (Tom Jobim), Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), Sítio do pica-pau amarelo (Gilberto Gil), Trem das onze (Adoniran Barbosa), País tropical (Jorge Ben) e Deixa a gira girar (Mateus Aleluia/ Dadinho), sucesso dos Tincoãs regravado por eles e uma pá de gente da mpb.

Hugo Hori (sax e flauta), ex-Karnak e com longa folha de serviços prestados à música brasileira, substituiu um membro que não pode vir à São Luís. A interação com os colegas de banda e público foi tão perfeita que nem parecia tratar-se de um “reserva” – ainda que da categoria “amuleto”, qual um Tupãzinho no Corinthians do início dos anos 1990.

O final foi apoteótico, um “skarnaval”, como anunciou Sérgio Soffiatti (voz e guitarra), antes de emendarem um medley com Aurora (Mário Lago/ Roberto Roberti), Chiquita bacana (João de Barro/ Alberto Ribeiro), O teu cabelo não nega (Lamartine Babo/ João Victor Valença/ José Raul Valença) e Frevo mulher (Zé Ramalho). Quem foi ao show dançou; quem não foi, “dançou”.

Arnaldo Antunes passeia por várias fases da carreira na primeira noite de BR135

Foto: ZR (10/12/2015)
Foto: ZR (10/12/2015)

 

A expressão “mar de gente” não seria clichê para dar ideia do público que lotou a praça Nauro Machado, na Praia Grande, ontem (10) para ver Arnaldo Antunes e os shows que precederam o seu: as Caixeiras do Divino, Sulfúrica Bili, Phill Veras e o DJ Chico Correa tiveram, todos, ótima audiência, na primeira noite da edição 2015 do Festival BR135 – veja a programação completa no site.

O ex-Titãs subiu ao palco escoltado apenas por Chico Salem (guitarra e violão) e André Lima (teclado e sanfona), que lhe bastaram para um passeio por diversas fases de sua carreira solo, com pitadas de Tribalistas e da banda que fundou há mais de 30 anos.

Apropriadamente ele abriu o show com Fim do dia (Arnaldo Antunes/ Paulo Miklos). Os presentes à Nauro Machado tinham certeza do que seus versos diziam: o dia havia chegado ao fim e não havia o que lamentar, pelo contrário. Seguiram-se Sem você (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown) – com o incidental de Preta pretinha (Luiz Galvão/ Moraes Moreira) – e Meu coração (Arnaldo Antunes/ Ortinho). “É o único herói ainda vivo. Todos os outros morreram de overdose”, ouvi alguém dizer na plateia. “Ou viraram reaças”, pensei.

Arnaldo Antunes estava à vontade, todo de preto, usando grandes anéis, dançando, dizendo da alegria de voltar à São Luís após tanto tempo. Depois de Contato imediato (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte) e Pedido de casamento (Arnaldo Antunes), lembrou o falecimento recente de Nauro Machado, louvando-o como grande poeta que era e recitou sua Odisseia: “Depois de nos cortarmos a nós mesmos,/ separando a cabeça do olho impuro,/ o olho dos membros e as pernas das mãos,/ depois de separarmos em nós mesmos,/ o que se come do que nos vomita/ por meio escuso de sombrio canal,/ depois de tudo em nós quebrado e inútil,/ na angústia em pelo de uma opaca terra,/ juntamos as partes e/ continuamos”.

Nunca é demais lembrar que Arnaldo Antunes é poeta, com diversos livros publicados. Mesmo na música, sua vertente mais conhecida, à surrada pergunta “letra de música é poesia?” a resposta, no caso de sua obra, é sim: suas letras são tão boas que sobreviveriam descoladas das melodias. As justas homenagens a Nauro Machado já haviam começado com a lembrança de Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, idealizadores e produtores do Festival BR135, com o mestre de cerimônias Preto Nando e com a atriz Áurea Maranhão, a bordo de pernas de pau, atravessando o mar multicolorido e diverso de gente, recitando, em meio ao povo, trechos de poemas do poeta que deu nome à praça que abriga parte da programação do festival, como Pequena ode a Tróia e Câmara mortuária.

Mas voltemos à Arnaldo Antunes, que cantou por mais de hora e meia e deixou no público o gosto de quero mais. Depois do poema do maranhense ele cantou Saiba (Arnaldo Antunes): “saiba, todo mundo vai morrer/ presidente, general ou rei”. Que nos sirva de consolo.

Seguiram-se Invejoso (Arnaldo Antunes e Liminha) e Consumado (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte), cuja letra fala em “rádio sem jabá”, tema de palestra proferida à tarde por Patrícia Palumbo – por cujo Vozes do Brasil Antunes já foi entrevistado – na programação do Conecta Música, evento de formação, paralelo ao festival.

Arnaldo elogiou o trabalho de Chico Salem, que está lançando disco solo e deixou-o no palco para imediata empatia do público. Ele cantou Real demais pra você (Chico Salem), música animada de letra galhofeira: fala de uma usuária de redes sociais cuja vida real é diferente da postada no facebook, tuiter e instagram – qualquer semelhança é mera coincidência: a plateia ria e cantava junto, empunhando celulares que não pararam de fotografar e filmar o show inteiro. Ou, às vezes, apenas cabeças e mãos pra cima à sua frente.

Dos discos mais recentes, ele fez blocos. De Disco, cantou Muito muito pouco (Arnaldo Antunes) e Ela é tarja preta (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ Felipe Cordeiro/ Luê/ Manoel Cordeiro); de Já é, Põe fé que já é (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ André Lima) e Naturalmente, naturalmente (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte/ Dadi).

“Essa é pra lembrar de quando a gente tava dentro da barriga da mamãe”, disse antes de cantar Debaixo d’água (Arnaldo Antunes). Depois de Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira), Velha infância (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Davi Moraes/ Marisa Monte/ Pedro Baby) emocionou grande parte do público, que ajudou Arnaldo a cantar o hit tribalista. Não vou me adaptar (Arnaldo Antunes) atendeu aos deselegantes e insistentes gritos de “Titãs!” ouvidos desde o início do show.

“Tudo fica mais bonito com vocês cantando”, agradeceu ao deixar o público cantar sozinho os versos finais de Socorro (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz): “qualquer coisa que se sinta/ tem tanto sentimento/ deve ter algum que sirva”. Com Passe em casa (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Margareth Menezes), outro vibrante hit tribalista, o trio deixou o palco.

Os gritos de “mais um” demoraram um pouco mais: cigarro entre os dedos, Arnaldo Antunes, ao voltar do camarim, posou para selfies com a equipe de produção, técnicos e quem mais estivesse na lateral de acesso ao palco. No bis, atacou de Envelhecer (Arnaldo Antunes/ Marcelo Jeneci/ Ortinho) e O pulso (Arnaldo Antunes/ Marcelo Fromer/ Toni Bellotto).

Shows como o de Arnaldo Antunes e festivais como o BR135 estão aí para provar que São Luís ainda pulsa. Seu coração de paralelepípedos bombeou emoção aos de carne e sangue ali presentes.

A vasta bagagem de Curumin

 

Com três discos na bagagem, o cantor, compositor e multi-instrumentista Curumin é um dos mais interessantes artistas da música brasileira surgidos nos anos zero zero. Além dos discos solo – Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012) – é nome fácil em fichas técnicas de discos de artistas diversos.

Arrocha. Capa. Reprodução
Arrocha. Capa. Reprodução

Pilotando bateria, percussão, guitarra e/ou contrabaixo, para citar apenas a cozinha básica – a lista de instrumentos que toca é enorme – lá está Curumin, titular dos times de, entre outros, Arnaldo Antunes (Disco, Ao vivo lá em casa, Iê iê iê), Marcelo Jeneci (seu companheiro na banda do ex-Titãs, Feito pra acabar), Céu (Vagarosa), Itamar Assumpção (o póstumo Maldito vírgula), Lucas Santtana (Sem nostalgia), Rodrigo Campos (São Mateus não é um lugar assim tão longe), Rômulo Fróes (Cão, No chão sem o chão), Russo Passapusso (Paraíso da miragem), Walter Franco (Tutano), Zélia Duncan (Pelo sabor do gesto) e Anelis Assumpção (Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários), com quem é casado.

Esse trânsito intenso torna impossível rotular a música deste descendente de espanhóis e japoneses com nome artístico indígena. Sua obra agrega elementos de samba, funk, forró, hip hop, afoxé, reggae, eletrônica e mais um rosário de referências. Seus discos são, ao mesmo tempo, dançantes e inteligentes, com letras por vezes fazendo denúncia social – Caixa preta aborda as relações entre mídia e os outros poderes e Mal estar card trocadilha a exclusão social, para ficarmos apenas nestes exemplos.

Curumin se apresenta pela primeira vez em São Luís amanhã (11), de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR135, que acontece de hoje (10) a sábado (12). Arnaldo Antunes (que se apresenta hoje na noite de abertura), Siba (na de encerramento) e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana são alguns dos outros nomes da grade – veja programação completa no site.

Às vésperas de baixar na Ilha, Curumin conversou com o Homem de vícios antigos.

Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep
Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep

 

Quais as expectativas para esta sua primeira apresentação em São Luís?
As minhas expectativas são as melhores. Eu conheço São Luís, eu sei que é um lugar único no Brasil, com uma mistura, uma cultura ímpar que só tem aí, e também a gente vai chegar aí com um show muito trabalhado, na ponta dos cascos, que a gente já tocou bastante, já rodou o Brasil todo, pelo mundo, é uma banda que tá há muito tempo tocando junta, então tá soando bem natural, bem tranquilo.

O que você conhece da música popular produzida no Maranhão? Destacaria algum nome?
Sinceramente não lembrava de nenhum nome e vim pesquisar com a certeza que conhecia algo daí, mas não sabia que era daí, como por exemplo, João do Vale, Nonato e Seu Conjunto, que são duas referências antigas e de sons únicos. João do Vale tem um disco maravilhoso, O poeta do povo, enfim, um som muito importante para a música popular brasileira. E além disso também os sons novos, da Rita Ribeiro [hoje Benneditto], Zeca Baleiro, Tânia Maria, não tão nova, Tião Carvalho, e toda tradição de reggae que tem aí. Então, eu sei que é um lugar muito prolífico, que respira uma cultura, como eu já disse, única. Eu tenho certeza que tem muita música aí, o tambor de crioula e todas as manifestações, a [Casa] Fanti-Ashanti também, enfim.

Em Arrocha, seu mais recente disco, você regravou Vestido de prata, de Paulinho Boca de Cantor. Em algum sentido, uma espécie de liquidificador fundindo sonoridades aproxima você da trupe, como se seu som fosse uma atualização, possivelmente o que eles estariam fazendo hoje, caso estivessem na ativa enquanto grupo. Em que medida os Novos Baianos são uma referência?
Os Novos Baianos são uma referência, sem dúvida. Eu acho que eles tinham uma coisa, uma proposta mesmo ousada para a época, à frente, tentando ver lá pra frente, tentando chutar regras antigas, tentando inovar, procurando coisas novas, misturas, que falassem a respeito da vida deles. Com certeza eu acho que os Novos Baianos são uma referência, eu escutei muito e tive aquilo muito como influência pra mim.

Você é casado com Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção e sua herdeira musical. Você já o admirava? Qual a importância e o lugar em que você o coloca? É também uma referência importante?
Com certeza eu já admirava o Itamar, mas estando aqui com a Anelis eu pude admirar cada vez mais, todas as histórias que eu fui ouvindo, e todo o amor que existia em torno dele, e que ele criou na vida dele, e também a história maravilhosa, [corrige-se] quer dizer, maravilhosa, uma história difícil, mas por isso mesmo, talvez, gloriosa, de ter nadado contra o sistema, contra a maré pra conseguir seguir o caminho que ele acreditava e todos os percalços que ele encontrou na frente, mas também toda dignidade que ele teve pra botar isso em frente e fazer música no Brasil.

Você tem uma carreira solo consolidada, mas também é músico de diversos artistas importantes. É difícil conciliar as agendas? O quanto uma coisa atrapalha a outra?
Eu não sinto que atrapalha, muito pelo contrário, eu sinto que me ajuda, por que dá uma desbaratinada, você começa a fazer um trabalho, vai pra outro, isso ajuda também a tirar um pouco uma coisa só da cabeça, a pensar outras coisas, pensar outras formas, e também cada artista que você acompanha você tem uma visão diferente da música. Isso é bom, amplia o repertório, amplia as formas que eu posso me relacionar com ela.

Curumim, com m, é como se chamam as crianças indígenas. Curumin, com n, é seu nome artístico. De onde surge essa assinatura, já que você descende de japoneses e espanhóis?
Curumin foi um apelido de escola, de criança, desde pequeno eu tenho. É um apelido que foi grudando em mim de jeito que meu filho, hoje, se eu falar que meu nome é Luciano [Nakata Albuquerque] ele acha estranho [risos]. Aqui em casa todo mundo me chama de Curumin. Essa coisa do n no final, eu não sei direito em que momento eu resolvi colocar, acho que era também um jeito de diferenciar do curumim indígena, acho que é isso.

Você toca diversos instrumentos e a produção de seus álbuns é, em parte, caseira. A tecnologia favorece os experimentos, colagens. Você mexe muito numa música, seja compondo ou gravando, até decidir que ela está pronta para entrar num disco?
Cara, depende. Cada música tem meio um percurso. Compacto, por exemplo, é uma coisa que saiu assim, surgiu. Até o JapanPopShow eu fazia muito música assim, ah, pintou uma ideia, pluf, eu colocava e pronto, deixava aquela ideia bruta ali. No Arrocha já foi um processo diferente, eu pensava mais, eu fazia o groove, depois ia lapidando, lapidando. E gravando eu mexo, normal, assim, eu tenho uma coisa de ter um cuidado, às vezes eu fico meio cuidando até demais, mas eu sei também de um limite, não é uma coisa exagerada. É até um ponto que eu aguento, que não me enche o saco [risos].

O que você está preparando para o sucessor de Arrocha?
[Pensativo] Olha, o que eu tenho [interrompe-se]. Isso já veio com o Arrocha já um pouco, as experiências de tocar ao vivo com a banda que a gente tem, foi me levando a um conceito da nossa banda, do nosso elo, de como a gente soa, que tipo de música soa bem com a banda que eu tenho agora, que eu já tenho já faz tempo. Mas isso é sempre uma busca, acho que esse disco vai ter essa busca um pouquinho também. Minha banda sou eu e mais dois baixistas, só que um dos baixistas toca guitarra, eu tenho fundado muito esse disco na coisa da linha de baixo, na bateria e baixo. Eu tenho pensado todas as músicas a partir daí. Uma primeira ideia de melodia simples que vem na minha cabeça eu transformo em linha de baixo pra depois criar o resto em cima. É quase como se fosse assim a estrutura da casa, primeiro eu penso na estrutura bem firme, nas vigas, aí depois eu vou construindo o resto.

Músicas como Caixa preta e Mal estar card, de JapanPopShow, traduzem as tenebrosas transações do cenário político brasileiro e são músicas mais atuais do que nunca. Como você avalia o atual momento por que passa o país?
É claro que é um horror, né? Mas tem um lado bom, eu não sei se posso dizer que é bom, mas tem um lado que até então, até esse momento de crise que a gente vive hoje, a gente sempre soube que as coisas horríveis do país existiam. Mas agora todas as máscaras tão caindo e acho que isso, apesar do sentimento horrível que a gente tem, a desesperança, a frustração que a gente tem mesmo em relação a nosso plano de país, eu acho que tem um lado bom, que é – eu ainda tou custando a falar que é um lado bom, mas assim –, tem esse lado de caírem todas as máscaras. Tudo o que é errado está aparecendo, tá vindo à tona. Isso tem sido importante, vai ser um processo que a gente vai ter que passar, dolorido mesmo, e espero que [as coisas mudem] para melhor.

Um relato humano sobre uma tragédia nacional

Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde

Presos que menstruam. Capa. Reprodução
Presos que menstruam. Capa. Reprodução

A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.

A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.

Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.

A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).

Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.

Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.

Nana Queiroz em foto de João Fellet
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet

 

Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema?
Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.

Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis?
Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?

Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra?
Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.

Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações?
Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.

Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto?
Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.

Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa?
Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.

Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades?
Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.

Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres?
Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.