Nauro Machado: uma existência consumida pela poesia

 

Todos os sábados o poeta visitava seus pais. Morador do Centro em alguns intervalos da vida, eu mesmo encontrei-o várias vezes no percurso. Às vezes, apenas cumprimentávamo-nos e ele seguia seu caminho; às vezes atrasava-se para o compromisso semanal, quando esticávamos a conversa, sobre temas os mais diversos. O curioso é que a morada de seus pais é o Cemitério do Gavião, no bairro da Madre Deus.

“Não há poesia experimental sem vida experimental”, ensinou-nos Roberto Piva, outro grande. E eu via naquele gesto do poeta, pura poesia. Cumprimentava-me, como de resto a quase todo mundo, “meu poeta!”. A expressão “meu poeta, meu cabo de guerra!”, cunhada por ele, é, até hoje, usada por este obituarista e alguns conhecidos, como saudação.

Nascido em São Luís do Maranhão em 2 de agosto de 1935, Nauro Diniz Machado faleceu na madrugada de hoje (28), aos 80 anos. Tinha hérnia no intestino e há poucos anos lutou contra um câncer no esôfago, período lembrado em Esôfago terminal, seu penúltimo livro, lançado em 2014 – o último, O baldio som de Deus, foi publicado em setembro passado.

Nauro era casado com a também poeta Arlete Nogueira da Cruz, com quem teve um filho, o cineasta Frederico Machado, cujo Infernos, que abre este post, é um retrato cinematográfico do pai, abordando sua dedicação à poesia, a boemia, o alcoolismo e sua relação com a cidade natal. Narrado pelo próprio poeta, o enredo do filme é construído sobre alguns de seus poemas.

No primeiro poema, O parto, de seu primeiro livro, Campo sem base [1958], Nauro Machado já prenunciava suas quase seis décadas restantes: “Meu corpo está completo, o homem – não o poeta./ Mas eu quero e é necessário/ que me sofra e me solidifique em poeta,/ que destrua desde já o supérfluo e o ilusório/ e me alucine na essência de mim e das coisas,/ para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,/ trazer-me à tona do poema/ com um grito de alarma e de alarde:/ ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.

O velório de Nauro Machado está acontecendo na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro), sede da Academia Maranhense de Letras (AML), da qual não era membro por opção. O sepultamento acontece amanhã (29), às 10h, no Cemitério do Gavião.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

6 comentários em “Nauro Machado: uma existência consumida pela poesia”

  1. OFÍCIO

    Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
    Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
    enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
    e dois centímetros, o humano de quebra.
    Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
    serviços de excrementos em papéis caídos
    numa máquina Remington, ou outra qualquer.
    E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
    pior que este inumano existir burocrático.
    E depois há o escárnio da minha província.
    E a minha vida para cima e para baixo,
    para baixo sem cima, ponte umbilical
    partida, raiz viva de morta inocência.
    Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
    E depois ninguém sabe mesmo do espaço
    que ocupo, desnecessário espaço de pernas
    e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
    E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
    o mundo restará o mesmo sem minha quota
    de angústia e sem minha parcela de nada.

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