Camille Claudel em São Luís

Espetáculo baseado na biografia da escultora francesa será encenado sexta e sábado no Teatro Alcione Nazareth

Ceronha Pontes incorpora Camille Claudel. Foto: Camila Sergio

 

A atriz Ceronha Pontes não apenas incorpora a personagem: por Camille Claudel [1864-1943] tem verdadeira devoção. Tanto que, ao se atrasar ao devolver as respostas à entrevista que lhe enviei através do bate-papo de uma rede social, ela desculpou-se: alegou “estar em falta com você e com Camille, que precisa e agradece o seu trabalho”, escreveu.

O pequeno atraso era perfeitamente compreensível: ela estava às vésperas de embarcar para a capital maranhense, onde já havia estado em 2010, com o Coletivo Angu de Teatro, ocasião em que encenaram Angu de Sangue [Ateliê Editorial, 2000], peça baseada no livro homônimo do conterrâneo Marcelino Freire.

Camille Claudel, a peça, tem duração de uma hora, “entre o asilo e o ateliê de Camille”, revelou-me. Em cena, 250 quilos de barro, além do público, com quem interage durante o espetáculo e após (no primeiro dia), quando debaterá os temas evocados no texto – arte e loucura –, com a participação de artistas, arte-terapeutas e psicanalistas.

A artista francesa que inspirou a dramaturga recifense deixou a família por amor à escultura. O pai incentivava a pequena Camille ao perceber o talento precoce da garota para a arte; a mãe se incomodava com o que julgava ser um gasto excessivo com a educação da filha. Irmã mais velha do diplomata, dramaturgo e poeta Paul Claudel, Camille foi aluna de Auguste Rodin – de quem se tornaria também amante –, com cujas esculturas as suas guardam semelhanças.

A conturbada relação com Rodin deixaria profundas marcas em Camille. De seus 79 anos, passou mais de 30 internada, sofrendo com um estranho amor-ódio que nutria pelo ex-amante, com quem chegou a romper em definitivo.

A vida da escultora foi levada duas vezes ao cinema: em Camille Claudel, 1915 [biografia, França, 2013, direção: Bruno Dumont, 95min.] foi interpretada por Juliette Binoche; antes, em 1988, foi interpretada por Isabelle Adjani em Camille Claudel, dirigido por Bruno Nuytten. O filme, baseado no livro de Reine-Marie Paris, tem Gérard Depardieu como Rodin.

Ceronha Pontes escreveu Camille Claudel e interpreta a fascinante personagem. A peça venceu o prêmio Miryam Muniz de Circulação da Funarte, em 2014, e será encenada em São Luís dias 28 e 29 de agosto (sexta e sábado), às 20h, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) – veja ficha técnica ao final do post. Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira).

O blogue conversou com exclusividade com a dramaturga.

Zema Ribeiro – Quais as suas expectativas para a apresentação de Camille Claudel em São Luís?
Ceronha Pontes – Trabalho sempre pensando no melhor, desejando que os encontros sejam felizes, mas procuro não ficar ansiosa. Estive em São Luís em 2010, com o Coletivo Angu de Teatro. A peça era Angu de Sangue, do Marcelino Freire. Foi um contentamento aquela semana no Maranhão. Guardo com todo carinho uma apresentação na comunidade Anjo da Guarda, em que tivemos que abdicar de cenário, projeções e ainda fazer numa pequena arena uma peça concebida para um palco italiano. Entretanto, tivemos com aquele público um encontro tão verdadeiro e forte, que ficou em mim para sempre. São Luís é esta lembrança feliz. Espero que também minha Camille esteja plena e que a troca seja profunda e transformadora para todos que vamos estar na sala de espetáculo.

O que há de mais emblemático na personagem escolhida para dar nome e rumo ao espetáculo que traz você à capital maranhense?
Uma grande artista despojada de seu gênio. Fala-se muito da paixão entre ela e Rodin. É fato que foi uma relação intensa em sentidos vários e que certamente a afetou demais, mas não se trata apenas de uma mulher abandonada pelo seu amante. Isso não é pouco, eu sei, mas estamos falando de uma mulher que foi banida da sociedade porque era genial. Isso é gravíssimo. É sobretudo por isso que não pude me calar.

Você integra o coletivo Angu de Teatro, que já encenou Angu de Sangue, baseada no livro de Marcelino Freire, seu conterrâneo. Sua graduação em arte dramática, em 1991, no Ceará, se deu com Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues. Agora Camille Claudel. É uma gama grande e diversa de autores e personagens. O que te instiga a buscar este ou aquele autor e personagem?
Você foi buscar aquela Viúva da formatura… Nossa! Uma farsa inesquecível esta do Nelson na minha vida. Foi um momento bem divertido. Tanta água rolou depois disso. Até que o Marcelino e o Coletivo Angu, que você pontua, rasgaram meu peito, desataram vários nós da minha garganta. Sem essa de bom mocismo, fique bem claro, a gente vai para cena com os textos do Marcelino é como cães mesmo. Cães em fúria e com ganas fazer arder as feridas todas de uma sociedade tão escrota. Isso com alegria e beleza, é claro. Ao menos é o que desejamos. Camille nasce da minha indignação. Calaram uma artista extraordinária. Acusaram-na de louca e a abandonaram num asilo até a morte. A mulher que esculpiu Sakuntala, As faladeiras, Sonho ao canto da lareira, A implorante [obras de Camille Claudel]… Ela foi silenciada. Como mulher e como artista não pude me conter. Acho importante falarmos sobre isso. Meu percurso não foi premeditado, claro. Simplesmente foi acontecendo até que eu me desse conta de que a indignação me move. A indignação e a devoção ao belo. Aí os encontros se dão. Com autores e outros tantos companheiros de ofício.

Parece que de Rodin e Camille para cá as coisas pouco mudaram, com o machismo ainda predominando em nossa sociedade, mulheres ganhando ainda menos que os homens para realizar o mesmo trabalho, e homens não aceitando ser superados por mulheres em determinados campos. Há esperança?
A esperança somos nós. Eu, você e mais um monte de gente espalhada pelo mundo. Gente que peleja com os talentos que tem por dias mais felizes para todos. Muitas mulheres são violentadas todos os dias, em todos os lugares e de muitas formas. Isso é muito grave. Minha próxima peça vai tratar disso. Esse ano passei uma temporada em Montevidéu investigando a vida e a obra de uma poetisa uruguaia chamada Delmira Agustini [1886-1914]. Ela escrevia poesia erótica no começo do século passado. Foi publicada, lida e aclamada, mas não escapou de ser assassina pelo marido aos 28 anos de idade em 1914. Quero muito, através da história de Delmira e de sua poesia, falar de outras tantas mulheres, propor outros caminhos. Também não me interessa essa disputa com os homens. Não entendo essa dificuldade com as diferenças. Intolerância adoece e mata. Quero outra coisa. Que fique claro que, apesar de me atraírem os temas espinhosos, faço minha arte com absoluta alegria e compromisso com o belo.

Na peça você entrega cartas, com textos copiados das cartas reais da personagem. A interação de palco e plateia, no teatro, em geral se dá mais em espetáculos de veia cômica. É possível medir o grau de envolvimento e emoção do público por onde Camille Claudel, a peça, tem passado?
Não, isso não tem medida. Só sei dizer que já vivi momentos bem emocionantes nessa interação com o público. Muito emocionantes. Mas o teatro tem esse lance maravilhoso de acontecer na hora da vida, né? E a vida costuma surpreender. De modo que nunca espero repetir uma emoção. Concentro-me em fazer o que tenho que fazer, me mantendo aberta e humilde diante do inusitado.

Serviço

O quê: Camille Claudel
Quem: Ceronha Pontes (Recife-PE)
Quando: 28 e 29 de agosto, às 20h
Onde: Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (meia-entrada: R$ 10,00).

Ficha técnica

Gênero: drama (classificação indicativa: 16 anos) | Dramaturgia, direção e atuação: Ceronha Pontes | Concepção de cenário: Yuri Yamamoto | Confecção de cenário: Yuri Yamamoto, Ceronha Pontes, Gustavo Araújo e Sr. Isaque. | Concepção de iluminação: Walter Façanha | Operação de luz: Sávio Uchôa | Sonoplastia: Ceronha Pontes | Operação de som: Tadeu Gondim | Figurino: Ceronha Pontes | Orientação: Marcondes Lima | Confecção de figurino: Maria Lima e Antônia Castro | Coordenação de produção: Tadeu Gondim e Ceronha Pontes. | Produção local – São Luís: Carol Aragão | Assistência de produção e assessoria de imprensa – São Luís: Ana Lúcia Lopes | Realização: MC Apoio | Incentivo: Funarte e Governo Federal, através do Prêmio Miryam Muniz de Circulação 2014 | Apoio: Teatro Alcione Nazareth, Pousada Portas da Amazônia, Pizza Club e Máximo Locação e Turismo

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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