Obituário: Pai Euclides

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

 

“Ninguém imagina que alguém que dança como ele dançava pode um dia morrer de infarto”, lamentou minha esposa, a meu lado no carro, após ler a notícia num grupo de whatsapp. Depois do susto e antes do comentário, murmurou, triste: “Pai Euclides morreu”.

Euclides Menezes Ferreira ou Euclides Talabyan era o líder religioso da Casa Fanti-Ashanti, localizada no Cruzeiro do Anil, bairro da periferia da capital maranhense. Tinha 78 anos e estava internado no Hospital Carlos Macieira desde a última sexta-feira (14), após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Faleceu ontem (17) à tarde.

Fundada em 1958, a Casa Fanti-Ashanti, ligada à nação jeje-nagô, está sediada no Cruzeiro do Anil desde 1964. Além de ser um dos mais importantes terreiros de culto afro do Brasil, é mais que um templo das religiões de matriz africanas: constitui-se em verdadeiro patrimônio cultural brasileiro, um celeiro de manifestações da cultura popular do Maranhão.

As vidas de Pai Euclides e da Casa Fanti-Ashanti confundiam-se, tendo partes registradas em obras como o livro-documentário Pedra da memória, da musicista e pesquisadora Renata Amaral, e a exposição Zeladores de voduns, do fotógrafo Márcio Vasconcellos. Ainda na década de 1990 o antropólogo Hermano Vianna visitou a casa, mostrando sua riqueza cultural para todo o país, através do projeto Música do Brasil, exibido pelo canal MTV.

Incorporando o caboclo Corre-Beirada, Pai Euclides era o principal autor das toadas do Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestação sediada na Fanti-Ashanti. Por lá também é possível ver e ouvir, nas diversas festas realizadas na casa ao longo do ano, o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Pajelança, Samba Angola, Mocambo, Canjerê, Festa do Divino, Baião de Princesas e o Tambor de Taboca. As duas últimas tiveram cds gravados pelo projeto Turista Aprendiz, desenvolvido pelo grupo musical A Barca. O Bumba Meu Boi Garotos do Cruzeiro teve disco lançado em 2009, fruto do Prêmio Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, produzido e dirigido por Renata Amaral.

“Adeus, dona da casa/ São João já deu as ordens/ temos que nos despedir/ dê-me um aperto de mão/ também quero agradecer/ com gosto por nos servir”, versa a toada Despedida (Euclides Menezes Ferreira), no citado disco.

Em dezembro passado, por iniciativa do então vereador Nelsinho Brito (PT), Pai Euclides foi agraciado com a medalha Simão Estácio da Silveira, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de São Luís.

A partida de Pai Euclides é uma perda irreparável para a religiosidade e a cultura maranhenses. Certamente continua vivo entre nós, no legado e na memória.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

4 comentários em “Obituário: Pai Euclides”

  1. Uma perca inestimável pra cultural Afro-Brasileira, pra seus admiradores e pra minha família. Um homem sábio, simples e muito humilde. O Brasil perde não só uma ícone das lutas dos negros no pais, porem, perde uma das mentes mais brilhantes que ja passaram nessas terras!
    Muito bonita a reportagem Deus te abençoe e te guarde, Márcio Vasconcelos!!

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