Camille Claudel em São Luís

Espetáculo baseado na biografia da escultora francesa será encenado sexta e sábado no Teatro Alcione Nazareth

Ceronha Pontes incorpora Camille Claudel. Foto: Camila Sergio

 

A atriz Ceronha Pontes não apenas incorpora a personagem: por Camille Claudel [1864-1943] tem verdadeira devoção. Tanto que, ao se atrasar ao devolver as respostas à entrevista que lhe enviei através do bate-papo de uma rede social, ela desculpou-se: alegou “estar em falta com você e com Camille, que precisa e agradece o seu trabalho”, escreveu.

O pequeno atraso era perfeitamente compreensível: ela estava às vésperas de embarcar para a capital maranhense, onde já havia estado em 2010, com o Coletivo Angu de Teatro, ocasião em que encenaram Angu de Sangue [Ateliê Editorial, 2000], peça baseada no livro homônimo do conterrâneo Marcelino Freire.

Camille Claudel, a peça, tem duração de uma hora, “entre o asilo e o ateliê de Camille”, revelou-me. Em cena, 250 quilos de barro, além do público, com quem interage durante o espetáculo e após (no primeiro dia), quando debaterá os temas evocados no texto – arte e loucura –, com a participação de artistas, arte-terapeutas e psicanalistas.

A artista francesa que inspirou a dramaturga recifense deixou a família por amor à escultura. O pai incentivava a pequena Camille ao perceber o talento precoce da garota para a arte; a mãe se incomodava com o que julgava ser um gasto excessivo com a educação da filha. Irmã mais velha do diplomata, dramaturgo e poeta Paul Claudel, Camille foi aluna de Auguste Rodin – de quem se tornaria também amante –, com cujas esculturas as suas guardam semelhanças.

A conturbada relação com Rodin deixaria profundas marcas em Camille. De seus 79 anos, passou mais de 30 internada, sofrendo com um estranho amor-ódio que nutria pelo ex-amante, com quem chegou a romper em definitivo.

A vida da escultora foi levada duas vezes ao cinema: em Camille Claudel, 1915 [biografia, França, 2013, direção: Bruno Dumont, 95min.] foi interpretada por Juliette Binoche; antes, em 1988, foi interpretada por Isabelle Adjani em Camille Claudel, dirigido por Bruno Nuytten. O filme, baseado no livro de Reine-Marie Paris, tem Gérard Depardieu como Rodin.

Ceronha Pontes escreveu Camille Claudel e interpreta a fascinante personagem. A peça venceu o prêmio Miryam Muniz de Circulação da Funarte, em 2014, e será encenada em São Luís dias 28 e 29 de agosto (sexta e sábado), às 20h, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) – veja ficha técnica ao final do post. Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira).

O blogue conversou com exclusividade com a dramaturga.

Zema Ribeiro – Quais as suas expectativas para a apresentação de Camille Claudel em São Luís?
Ceronha Pontes – Trabalho sempre pensando no melhor, desejando que os encontros sejam felizes, mas procuro não ficar ansiosa. Estive em São Luís em 2010, com o Coletivo Angu de Teatro. A peça era Angu de Sangue, do Marcelino Freire. Foi um contentamento aquela semana no Maranhão. Guardo com todo carinho uma apresentação na comunidade Anjo da Guarda, em que tivemos que abdicar de cenário, projeções e ainda fazer numa pequena arena uma peça concebida para um palco italiano. Entretanto, tivemos com aquele público um encontro tão verdadeiro e forte, que ficou em mim para sempre. São Luís é esta lembrança feliz. Espero que também minha Camille esteja plena e que a troca seja profunda e transformadora para todos que vamos estar na sala de espetáculo.

O que há de mais emblemático na personagem escolhida para dar nome e rumo ao espetáculo que traz você à capital maranhense?
Uma grande artista despojada de seu gênio. Fala-se muito da paixão entre ela e Rodin. É fato que foi uma relação intensa em sentidos vários e que certamente a afetou demais, mas não se trata apenas de uma mulher abandonada pelo seu amante. Isso não é pouco, eu sei, mas estamos falando de uma mulher que foi banida da sociedade porque era genial. Isso é gravíssimo. É sobretudo por isso que não pude me calar.

Você integra o coletivo Angu de Teatro, que já encenou Angu de Sangue, baseada no livro de Marcelino Freire, seu conterrâneo. Sua graduação em arte dramática, em 1991, no Ceará, se deu com Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues. Agora Camille Claudel. É uma gama grande e diversa de autores e personagens. O que te instiga a buscar este ou aquele autor e personagem?
Você foi buscar aquela Viúva da formatura… Nossa! Uma farsa inesquecível esta do Nelson na minha vida. Foi um momento bem divertido. Tanta água rolou depois disso. Até que o Marcelino e o Coletivo Angu, que você pontua, rasgaram meu peito, desataram vários nós da minha garganta. Sem essa de bom mocismo, fique bem claro, a gente vai para cena com os textos do Marcelino é como cães mesmo. Cães em fúria e com ganas fazer arder as feridas todas de uma sociedade tão escrota. Isso com alegria e beleza, é claro. Ao menos é o que desejamos. Camille nasce da minha indignação. Calaram uma artista extraordinária. Acusaram-na de louca e a abandonaram num asilo até a morte. A mulher que esculpiu Sakuntala, As faladeiras, Sonho ao canto da lareira, A implorante [obras de Camille Claudel]… Ela foi silenciada. Como mulher e como artista não pude me conter. Acho importante falarmos sobre isso. Meu percurso não foi premeditado, claro. Simplesmente foi acontecendo até que eu me desse conta de que a indignação me move. A indignação e a devoção ao belo. Aí os encontros se dão. Com autores e outros tantos companheiros de ofício.

Parece que de Rodin e Camille para cá as coisas pouco mudaram, com o machismo ainda predominando em nossa sociedade, mulheres ganhando ainda menos que os homens para realizar o mesmo trabalho, e homens não aceitando ser superados por mulheres em determinados campos. Há esperança?
A esperança somos nós. Eu, você e mais um monte de gente espalhada pelo mundo. Gente que peleja com os talentos que tem por dias mais felizes para todos. Muitas mulheres são violentadas todos os dias, em todos os lugares e de muitas formas. Isso é muito grave. Minha próxima peça vai tratar disso. Esse ano passei uma temporada em Montevidéu investigando a vida e a obra de uma poetisa uruguaia chamada Delmira Agustini [1886-1914]. Ela escrevia poesia erótica no começo do século passado. Foi publicada, lida e aclamada, mas não escapou de ser assassina pelo marido aos 28 anos de idade em 1914. Quero muito, através da história de Delmira e de sua poesia, falar de outras tantas mulheres, propor outros caminhos. Também não me interessa essa disputa com os homens. Não entendo essa dificuldade com as diferenças. Intolerância adoece e mata. Quero outra coisa. Que fique claro que, apesar de me atraírem os temas espinhosos, faço minha arte com absoluta alegria e compromisso com o belo.

Na peça você entrega cartas, com textos copiados das cartas reais da personagem. A interação de palco e plateia, no teatro, em geral se dá mais em espetáculos de veia cômica. É possível medir o grau de envolvimento e emoção do público por onde Camille Claudel, a peça, tem passado?
Não, isso não tem medida. Só sei dizer que já vivi momentos bem emocionantes nessa interação com o público. Muito emocionantes. Mas o teatro tem esse lance maravilhoso de acontecer na hora da vida, né? E a vida costuma surpreender. De modo que nunca espero repetir uma emoção. Concentro-me em fazer o que tenho que fazer, me mantendo aberta e humilde diante do inusitado.

Serviço

O quê: Camille Claudel
Quem: Ceronha Pontes (Recife-PE)
Quando: 28 e 29 de agosto, às 20h
Onde: Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (meia-entrada: R$ 10,00).

Ficha técnica

Gênero: drama (classificação indicativa: 16 anos) | Dramaturgia, direção e atuação: Ceronha Pontes | Concepção de cenário: Yuri Yamamoto | Confecção de cenário: Yuri Yamamoto, Ceronha Pontes, Gustavo Araújo e Sr. Isaque. | Concepção de iluminação: Walter Façanha | Operação de luz: Sávio Uchôa | Sonoplastia: Ceronha Pontes | Operação de som: Tadeu Gondim | Figurino: Ceronha Pontes | Orientação: Marcondes Lima | Confecção de figurino: Maria Lima e Antônia Castro | Coordenação de produção: Tadeu Gondim e Ceronha Pontes. | Produção local – São Luís: Carol Aragão | Assistência de produção e assessoria de imprensa – São Luís: Ana Lúcia Lopes | Realização: MC Apoio | Incentivo: Funarte e Governo Federal, através do Prêmio Miryam Muniz de Circulação 2014 | Apoio: Teatro Alcione Nazareth, Pousada Portas da Amazônia, Pizza Club e Máximo Locação e Turismo

Noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro terá música e cinema

[release]

Apresentação do compositor dá continuidade à temporada de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, seu disco de estreia. Na ocasião será exibido curta-metragem integrante da programação do Festival Avanca-São Luís

A cantora Milla Camões aplaude o compositor Joãozinho Ribeiro em edição da temporada Milhões de uns. Foto: Ton Bezerra

 

O compositor Joãozinho Ribeiro volta ao palco do Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II) dia 28 de agosto (sexta-feira), às 20h, dando continuidade à temporada de lançamentos e noites de autógrafos do cd Milhões de uns- vol. 1, trabalho que marca sua estreia no mercado fonográfico.

Cinema – A abertura da noite fica por conta da avant-première do festival Avanca-São Luís. Na ocasião Francisco Colombo apresentará um curta-metragem que integra a programação da mostra, que acontecerá dias 2 e 3 de setembro, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

O cineasta e professor universitário está cursando mestrado em Comunicação em Aveiro, Portugal, e selecionou alguns filmes de um festival local para mostrar em São Luís. “É uma oportunidade única, já que provavelmente estes filmes não chegarão ao circuito das salas de cinema no Brasil, mesmo as não comerciais”, avisa. O festival também acontecerá em Imperatriz, com produção de Marcos Fábio Belo Matos, professor da UFMA naquele município.

“Quem me conhece e acompanha minha trajetória sabe que sempre gostei de estimular o diálogo entre as mais variadas linguagens artísticas, seja como artista, seja como gestor”, afirmou Joãozinho Ribeiro, que já mesclou poesia à música das noites de Milhões de uns e agora traz o cinema para o centro das atenções.

Participações especiais – Os convidados do show são Milla Camões e Hugo Carafunim. À cantora o artista não poupou elogios quando de sua última apresentação e é conhecida a aclamação da plateia quando ela interpretou o blues Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro e Betto Pereira) no show de gravação do cd: escalada apenas para a primeira noite, acabou participando também da segunda, atendendo ao pedido do público.

O trompetista Hugo Carafunim é sobrinho de Joãozinho Ribeiro. Ex-aluno da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM) e da Banda do Bom Menino do Convento das Mercês – onde hoje dá aula –, suas primeiras aparições públicas foram justamente ao lado do tio, no circuito musical alternativo Samba da Minha Terra, que levou samba e choro a 18 comunidades de São Luís entre 2002 e 2003.

O repertório base da apresentação é o de Milhões de uns – vol. 1, mas Joãozinho Ribeiro deve interpretar ainda composições inéditas, além de outras, já gravadas por diversos artistas – convém lembrar que ele é um dos compositores mais requisitados do Maranhão. Durante a apresentação será acompanhado por Darkliwson (percussão), Elton Nascimento (flauta e saxofone), Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical) e Murilo Rego (teclado). Os ingressos individuais custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Serviço

O quê: show Milhões de uns – vol 1 e Avant-première do Festival de Cinema Avanca-São Luís
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Milla Camões, Hugo Carafunim e Francisco Colombo
Quando: 28 de agosto (sexta-feira), às 20h
Onde: Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II)
Quanto: R$ 20,00

Tarde de violência na Sete de Setembro

 

Quando estacionei o carro, já havia uma aglomeração na esquina. A caminho de uma loja de eletrônicos, encontrei um homem sangrando. Corpulento, cerca de 1,80m. Era o agressor, saberia mais tarde. O agredido eu veria depois, na calçada de uma loja: um coreano franzino. Não havia sido o único a apanhar. O motivo? O cliente que o agrediu queria nota fiscal na compra de uma caneta, me contou um camelô.

O clima era de tensão, como se os que estão ali todos os dias aguardassem a volta do homem, com reforços. “Todo dia a polícia passa aqui nesse horário. Hoje não aparece ninguém”, lamentou um camelô. Um rapaz de bermuda branca e sem camisa, passava para lá e para cá, um pedaço de pau transformado em porrete na mão. Outro, trajando um abadá, tentava dissuadi-lo de suas intenções.

Comentários xenofóbicos já eram ouvidos aqui e ali. “A gente pra entrar na terra desse povo é uma frescura; agora eles chegam aqui e ainda querem botar banca”, disse uma senhora.

De repente a correria e brasileiros e coreanos trocavam todo tipo de agressões: socos, chutes, pontapés. Um policial à paisana deu três tiros pra cima, tentando conter a turba enfurecida. “Esse policial veio só gastar bala”, um flanelinha fez pouco caso.

Filmei poucos segundos da ocorrência, interrompido pela memória entupida do celular, além do medo de bala perdida, de porrete, da ira de algum dos envolvidos na confusão.

Lamentamos os linchados e linchadores nossos de cada dia, mas querer resolver toda questão no braço é inaceitável. Está errado o comerciante estrangeiro que não fornece nota fiscal, ainda que pela venda de uma caneta? Sim, está. Mas há mecanismos legais para resolver a questão. Voltar à lei de Talião, da qual nunca saímos, é que não pode.

Obituário: Pai Euclides

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

 

“Ninguém imagina que alguém que dança como ele dançava pode um dia morrer de infarto”, lamentou minha esposa, a meu lado no carro, após ler a notícia num grupo de whatsapp. Depois do susto e antes do comentário, murmurou, triste: “Pai Euclides morreu”.

Euclides Menezes Ferreira ou Euclides Talabyan era o líder religioso da Casa Fanti-Ashanti, localizada no Cruzeiro do Anil, bairro da periferia da capital maranhense. Tinha 78 anos e estava internado no Hospital Carlos Macieira desde a última sexta-feira (14), após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Faleceu ontem (17) à tarde.

Fundada em 1958, a Casa Fanti-Ashanti, ligada à nação jeje-nagô, está sediada no Cruzeiro do Anil desde 1964. Além de ser um dos mais importantes terreiros de culto afro do Brasil, é mais que um templo das religiões de matriz africanas: constitui-se em verdadeiro patrimônio cultural brasileiro, um celeiro de manifestações da cultura popular do Maranhão.

As vidas de Pai Euclides e da Casa Fanti-Ashanti confundiam-se, tendo partes registradas em obras como o livro-documentário Pedra da memória, da musicista e pesquisadora Renata Amaral, e a exposição Zeladores de voduns, do fotógrafo Márcio Vasconcellos. Ainda na década de 1990 o antropólogo Hermano Vianna visitou a casa, mostrando sua riqueza cultural para todo o país, através do projeto Música do Brasil, exibido pelo canal MTV.

Incorporando o caboclo Corre-Beirada, Pai Euclides era o principal autor das toadas do Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestação sediada na Fanti-Ashanti. Por lá também é possível ver e ouvir, nas diversas festas realizadas na casa ao longo do ano, o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Pajelança, Samba Angola, Mocambo, Canjerê, Festa do Divino, Baião de Princesas e o Tambor de Taboca. As duas últimas tiveram cds gravados pelo projeto Turista Aprendiz, desenvolvido pelo grupo musical A Barca. O Bumba Meu Boi Garotos do Cruzeiro teve disco lançado em 2009, fruto do Prêmio Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, produzido e dirigido por Renata Amaral.

“Adeus, dona da casa/ São João já deu as ordens/ temos que nos despedir/ dê-me um aperto de mão/ também quero agradecer/ com gosto por nos servir”, versa a toada Despedida (Euclides Menezes Ferreira), no citado disco.

Em dezembro passado, por iniciativa do então vereador Nelsinho Brito (PT), Pai Euclides foi agraciado com a medalha Simão Estácio da Silveira, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de São Luís.

A partida de Pai Euclides é uma perda irreparável para a religiosidade e a cultura maranhenses. Certamente continua vivo entre nós, no legado e na memória.

Wilson Zara e Louro Seixas prestam tributo a Raul Seixas

[release]

Divulgação
Divulgação

 

Show acontece sábado (22) no Bar Contraponto (Praia Grande). Artista baiano completaria 70 anos em 2015

No ano em que Raul Seixas teria completado 70 anos (28 de junho), os cantores Wilson Zara e Louro Seixas sobem ao palco para mais uma edição do Tributo a Raul Seixas, apresentado anualmente, desde 1992, pelo primeiro. O artista homenageado faleceu aos 44 anos em 21 de agosto de 1989, dois dias depois de lançar seu último disco, A panela do diabo, dividido com o também roqueiro baiano Marcelo Nova (vocalista do Camisa de Vênus).

Foram a música e a filosofia de Raul, aliás, que empurraram Wilson Zara, ex-bancário, para a música. Com o dinheiro da indenização comprou violão, equipamento de som e aventurou-se na noite, ainda morando em Imperatriz, onde começou a celebrar a obra do ídolo, em show, à época intitulado A hora do trem passar – título de uma das faixas de Krig-ha, bandolo!, disco de 1973, um dos mais vendidos da carreira de Raul.

Wilson Zara realiza mais uma edição do show anual para homenagear o ídolo. Foto: divulgação
Wilson Zara realiza mais uma edição do show anual para homenagear o ídolo. Foto: divulgação

 

Em seguida, Zara mudou-se para São Luís, tendo sido bem acolhido no cenário musical da cidade, onde continuou realizando a homenagem anual ao roqueiro baiano, além de se apresentar regularmente por diversos bares e casas na noite da ilha.

Louro Seixas já participou de algumas edições do Tributo a Raul e já realizou eventos em homenagem ao roqueiro baiano. Foto: divulgação
Louro Seixas já participou de algumas edições do Tributo a Raul e já realizou eventos em homenagem ao roqueiro baiano. Foto: divulgação

 

Louro Seixas já participou de várias edições do Tributo a Raul Seixas e também já realizou eventos em homenagem ao “maluco beleza”. Este ano, os artistas resolveram somar forças e apresentar um grande repertório, marcado por grandes sucessos do autor de Mosca na sopa e outras canções menos conhecidas. A dupla promete mais de três horas de espetáculo, entre momentos em que cantam juntos ou separados – cada artista será acompanhado de sua própria banda.

A edição 2015 do Tributo a Raul Seixas, este ano batizada por outra música de Raul, Por quem os sinos dobram, acontecerá no Bar Contraponto (Praça dos Catraieiros, Praia Grande, próximo à Casa do Maranhão) no próximo sábado (22), às 22h. Os ingressos individuais custam R$ 20,00.

A noite será aberta por Louro Seixas, acompanhado da banda Os Malucos: Israel (bateria), Sidnei (contrabaixo), Jorge (violão solo) e Berg (teclado). A noite segue com a apresentação de Wilson Zara, acompanhado da banda formada por Marjone (bateria), Moisés Profeta (guitarra) e Mauro Izzy (contrabaixo).

Ouro de tolo, Gitâ, Eu nasci há 10 mil anos atrás, Carpinteiro do universo, A maçã, Baby, Ângela, Sessão das 10, Trem das Sete, Peixuxa, Carimbador maluco, Paranoia, Eu também vou reclamar, Al Capone, Loteria de Babilônia, Capim guiné e How could I know? estarão no repertório de Louro Seixas e Wilson Zara. Para Raul-maníaco nenhum botar defeito.

Serviço

O quê: Por quem os sinos dobram – Tributo a Raul Seixas
Quem: Wilson Zara e Louro Seixas
Quando: 22 de agosto (sábado), às 22h
Onde: Bar Contraponto (Praça dos Catraieiros, Praia Grande, próximo à Casa do Maranhão)
Quanto: R$ 20,00 (ingressos individuais, à venda no local
Maiores informações: (98) 999753999 (oi), 982221315 (tim) e 988332695 (oi)

Amilar: 100 anos de Choro

CESAR TEIXEIRA

Foto: divulgação
Capa da reedição em cd do disco de Amilar. Reprodução

 

Nascido na cidade de Pinheiro, em 15 de agosto de 1915, completa 100 anos de nascimento, hoje, o multi-instrumentista Amilar Arthur Costa Brenha, que se notabilizou no Maranhão como um dos grandes mestres do bandolim. Aos 11 anos de idade ele já se apresentava em emissoras de rádio, teatros e circos, onde teria como inspiração o virtuoso músico e amigo Laquimé.

Foi no circo que pode mostrar seu talento, a partir de 1926, não só como instrumentista, mas também como palhaço e atuando em comédias e dramas. Mudou-se aos 15 anos para São Luís, onde ampliou seus conhecimentos de violão e aprendeu banjo, rabecão, violão tenor, cavaquinho e bandolim, com o qual conquistaria fama.

Na capital, Amilar juntou-se a grandes músicos que tocavam em bailes e clubes. Entre eles, Chaminé (acordeom), Jorge Cego (trombone), Agnaldo (violão), Vital (bateria), Roque (rabecão), Hemetério (violino), que também alegravam as boates tradicionais da Zona do Baixo Meretrício (ZBM), como Monte Carlo, Cristal, Bela Vista, Casablanca, e as madames Maroca, Lili, Zilda… Depois curavam a ressaca no Hotel Central.

Viajando pelo norte do país com o Circo Teatro Íbis, o artista chegou até o Território Federal do Amapá. Para lá retornou no início de julho de 1958 no Rebocador Araguary, pondo um fim nas atividades circenses. Arranjou emprego na Companhia de Eletricidade do Amapá, guardou o bandolim, mas continuou participando com seus amigos das rodas seresteiras como violonista.

Em fevereiro de 1965, deixou a CEA e foi trabalhar na Prefeitura do município de Mazagão, ocupando os cargos de capataz, auxiliar administrativo e almoxarife. A essas alturas, seus dotes com o cavaquinho e o bandolim já tinham sido descobertos pelos seus colegas de trabalho, que sempre o convidavam para festividades públicas.

Candidatou-se e elegeu-se vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em 1972, tomando posse no ano seguinte, mas em 1976 renunciou ao mandato, descontente com o partido. Nesse mesmo ano foi convidado a ministrar aulas de violão na Escola Estadual D. Pedro I, o que iria compensar os baixos e atrasados salários da Prefeitura.

Para melhorar sua escolaridade, Amilar fez vários cursos na área da música e do folclore, capacitando-se para o Magistério de 1ª a 5ª Séries do 1º Grau, em 1980, por meio do Instituto de Educação do Território do Amapá, tendo recebido o registro de professor.

No Amapá integrou o conjunto de Aimoré Batista e os grupos de choro Os Piriricas, Café com Leite e o Regional E-2, da Rádio Difusora de Macapá, sempre tendo como fiel escudeiro o violonista Nonato Leal. Em 1986, com o apoio do governo do estado, gravou um disco em vinil com 12 músicas suas, entre outras, Piririca no Choro, Laquimé, Choro Café com Leite, Capitão Boca Torta e Mazagão no Choro.

Amilar Arthur Brenha sofria com as complicações do diabetes, que chegou a afetar seu olho direito. Faleceu em Macapá no dia 20 de abril de 1991. Muito querido no Amapá (considerado um verdadeiro tucujuense), na cidade de Mazagão virou nome de escola estadual e em Macapá nome de rua, no bairro Jardim Felicidade.

Desde maio deste ano o Projeto “Macapá no Choro”, reunindo músicos do grupo Pau e Cordas e seus convidados, vem realizando apresentações semanais no espaço cultural Casa do Chorinho para comemorar o centenário de Amilar, reconhecido como o precursor do choro no Amapá. No Maranhão, até agora, não foi lembrado. (Com informações de Nilson Montoril, Chico Terra e Renivaldo Costa)

RicoChoro ComVida (sobre a edição passada e a próxima)

[Escrevi no Medium os dois textos abaixo; rependuro-os aqui (com pequeníssimas edições), caso você não tenha lido lá, para ir entrando no clima…]

MAGIA MARCA ESTREIA DE RICOCHORO COMVIDA

Foto: Rivanio Almeida Santos

Uma alta dose de expectativa foi gerada em torno da estreia do projeto RicoChoro ComVida, desde seu anúncio. Em parte explicada pela orfandade musical deixada pelo saudoso Clube do Choro Recebe, realizado entre 2007 e 2010, também produzido por Ricarte Almeida Santos — para alguns o novo projeto é uma continuidade daquele.

A proposta e a dinâmica são quase as mesmas, sobretudo o diálogo entre o choro e ritmos da cultura popular maranhense e outras vertentes musicais, através do encontro de instrumentistas e cantores e, agora, DJs.

O Barulhinho Bom, palco da nova empreitada, estava completamente lotado para a inauguração do RicoChoro ComVida. As expectativas foram todas superadas em uma noite carregada de magia.

Entre vinis e o laptop, o DJ Franklin abriu os caminhos, os trabalhos, as trilhas da noite, tocando o melhor do samba e do choro, entre nomes como Paulinho da Viola, Cartola, Nourival Bahia, Clara Nunes, Nelson Cavaquinho e outros bambas. Ficou até fácil para o quarteto formado por João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho).

Fácil é modo de dizer, que música é trabalho duro e sério, e o quarteto inaugural do projeto passeou por um repertório de choros clássicos, entre nomes como Pixinguinha e Waldir Azevedo, incidentando, aqui e ali, sutilmente, a ginga e a malemolência da cultura popular do Maranhão.

Luiz Jr. pegou o microfone e ao declarar a emoção de estar ali, foi às lágrimas. “Eu me sinto honrado em estar aqui. Muito obrigado ao Ricarte, um eterno batalhador do choro e da nossa música. Esse projeto traduz a minha luta de quase 30 anos, pois tenho orgulho de dizer que me dedico exclusivamente à música, que é justamente o reconhecimento da nossa música”, declarou, antes de voltar ao ofício.

O convidado da noite era o cantor Cláudio Lima, que cantou sentado, obrigado por um aparelho ortopédico que trazia na perna esquerda. Esbanjou versatilidade, passeando por nomes como Cesar Teixeira, Marcos Magah, Acsa Serafim, Celso Borges, Alê Muniz e Bruno Batista, entre outros. O adjetivo “visceral” não é nenhum exagero: sentindo fortes dores durante a apresentação, o artista levou o show até o final, foi elegante ao negar o bis — “eu emendei tudo, por que com a perna desse jeito, sair e voltar ia dar trabalho”, disse sorrindo — e saiu do palco para o hospital.

Um momento muito aguardado do RicoChoro ComVida era também o das canjas, algo outrora tradicional no Clube do Choro Recebe: é o momento em que instrumentistas e cantores da plateia sobem ao palco, para uma jam sem ensaio. É a hora dos encontros, dos improvisos e de novo deleite da plateia. Sábado passado deram o ar da graça Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Osmar do Trombone, Osmar Jr. (saxofone) e Zé Carlos (pandeiro), além da cantora Célia Maria, próxima convidada do projeto, na edição de 5 de setembro, véspera de feriado.

Produtor e apresentador da empreitada, Ricarte Almeida Santos agradeceu aos deuses da música e aos patrocinadores (Fundação Municipal de Cultura e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré), apoiadores (Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas) e equipe de produção (RicoMar Produções Artísticas).

Quem achou pouco, talvez tenha razão, ainda mais que, ao contrário do semanal Clube do Choro Recebe, RicoChoro ComVida terá periodicidade mensal. Mas no fim da noite, o DJ Franklin já começou a abrir os caminhos, as trilhas para a próxima edição. Como diria o filho do chorão Godofredo: “quando entrar setembro”…

Veja fotos da edição inaugural de RicoChoro ComVida aqui.

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VOCÊ SABE O QUE É TRÍTONO?

Trítono? No dicionário é o “intervalo de três tons”. É um conceito musical, mas mesmo na música, pode ir além. E vai. É quando se juntam Israel Dantas (violão), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Rui Mário (sanfona): é o Trítono Trio.

Foto: Divulgação

A formação é recente na cena musical instrumental da cidade, mas somadas as trajetórias individuais de cada um, é possível falar em vasta bagagem e experiência de sobra, talento idem.

O Trítono Trio surgiu espontaneamente, nos intervalos de ensaios, shows e gravações em que seus membros se encontravam, com esta formação oportunizando a cada músico mostrar suas veias de instrumentista — de acompanhamento ou solista –, arranjador e compositor.

Vindo de searas diferentes da música, os componentes do Trítono Trio apresentam ao público suas releituras para clássicos e músicas menos conhecidas do repertório do choro e da música popular brasileira, além de composições próprias, com influências do jazz, da bossa nova, do baião e de ritmos da cultura popular do Maranhão.

Somados aos talentos de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo acústico), o Trítono Trio é o grupo anfitrião da próxima edição do projeto RicoChoro ComVida, que acontecerá dia 5 de setembro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

A trinca de ases com dois coringas receberá a dama Célia Maria, dona de um timbre inconfundível, desfilando sucessos de artistas do Maranhão e do Brasil, entre choro, bolero, samba canção, bossa nova e música popular brasileira em geral.

RicoChoro ComVida tem produção de RicoMar Produções Artísticas, patrocínio de Fundação Municipal de Cultura (Func) e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio de Barulhinho Bom, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Músika S.A. Produções Artísticas, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio e Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt.

Quem sabe das coisas mete a mão na cumbuca

Foto: Carolina Libério
Foto: Carolina Libério

 

Cumbuca é palavra que guarda sonoridades. É cuia, simplesmente, outra palavra interessante. A primeira vem do tupi kui’mbuka, “espécie de cuia”. Quem nunca tomou um banho de cuia não sabe o que está perdendo, embora do fruto da cuieira se façam também outros usos.

Como o que as Afrôs fazem em show hoje (7) no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), às 21h: Na cumbuca com Afrôs. A ideia é aliar música e gastronomia: da cumbuca sonora do grupo a sonoridade mestiça, calcada nos tambores tocados por mulheres, nos riffs de guitarra e no groove do contrabaixo; doutra cumbuca o sabor de surpresa inusitada preparada pelo chef Pieter, proprietário do restaurante.

A banda é formada por Cris Campos (percussão e voz), Fernanda Pretah (percussão e voz), Rebeca Alexandre (percussão), Hugo César (violão e guitarra), Jânia Lindoso (percussão), Melannie Carolina (contrabaixo e voz), Fofo Black (percuteria) e Tieta Macau (performer).

No repertório, músicas autorais, do primeiro EP do grupo, o homônimo Afrôs, além de inéditas e clássicos dos terreiros do Maranhão, todas com pegada dançante para instigar a interação com o público. O show de hoje é o primeiro de uma série com essa proposta, e percorrerá diversas casas em São Luís. Nesta edição inaugural as Afrôs recebem a cantora Dicy Rocha e o dançarino Igor Gauthier.

Os ingressos podem ser adquiridos no local e custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei).

Confiram as Afrôs em Entre o chão e a encantaria (Cris Campos, Camila Pinto Boullosa, Jânia Lindoso e Fernanda Pretah):

Chorografia do Maranhão: Marcelo Moreira

[O Imparcial, 28 de dezembro de 2014]

Fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da EMEM, violonista é o 45º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

“Já tá valendo tudo?”, indagou Marcelo Moreira ao perceber o gravador ligado sobre a mesa. Radicado no Maranhão desde 1981, o violonista carioca, ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM] conversou com a Chorografia do Maranhão no Cafofo da Tia Dica, charmoso restaurante por detrás da Livraria Poeme-se (Praia Grande).

Modesto, adverte os chororrepórteres: “minha participação nessa história é pequena”, diz, sobre sua relação com o choro. Marcelo Moreira de Oliveira chegou à terra do bumba meu boi pelas mãos da cantora Olga Mohana, ex-diretora da EMEM. “Ela estava iniciando um projeto importante, inédito no Maranhão, em relação à educação musical”, conta o capricorniano nascido em 8 de janeiro de 1961.

Marcelo estudou violão clássico na Proarte, à época um curso livre. Filho de Benvenuto Batista de Oliveira e de Judite Moreira de Oliveira, ele se lembra da oposição dos pais entre si em relação à sua opção pela música. O pai não se opôs, chegando a conseguir-lhe uma bolsa na instituição. “Era um curso livre, Seminário de Música Proarte, ficou em questionamento no MEC, se iam reconhecer. Era uma escola que na época tinha grandes músicos, Nicolas de Souza Barros [violonista], Marcelo Caiate [violonista], minha primeira apresentação foi com ele, ganhou praticamente todos os prêmios internacionais”, lembra. “Papai era apaixonado por música, quando estava em casa estava ouvindo ópera, baiano, cozinheiro, maître, mão fantástica, cozinhava maravilhosamente bem, cozinhava para um magnata, o dono do Oton, uma cadeia de hotéis, a gente ouvia violão, Rádio MEC”, continua. Da mãe lembra-se da “voz bonita, cantava muito em casa, não gostava muito da ideia de eu fazer música”. O irmão Leonardo também era bastante musical, “tocava flauta e percussão, mas foi ser engenheiro”.

Casado com Cristine e pai do pequeno João Marcelo, Marcelo Moreira riu bastante ao longo da entrevista, despertando também os risos dos chororrepórteres. Depois ainda mandou um e-mail complementando informações: passou o ano de 1992, quando da realização da Eco 92, de licença no Rio de Janeiro, ocasião em que realizou um curso de arranjo com o lendário Ian Guest. Informou ainda que acompanha, ao violão, a esposa, que canta na missa aos domingos, além de dar aula de violão popular a crianças da comunidade católica a que pertence.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como se deu sua vinda para São Luís? Eu estudava na Proarte, fui aluno de de Léo Soares, violonista, já tinha uma carreira internacional, foi professor de Bertoldo Vaz [do Água de Moringa], de Nicolas de Sousa Barros, foi professor de muita gente importante. Eu tinha 20 anos, tinha começado meu curso de História e um belo dia o Léo me chamou e disse: “olha, tem uma pessoa lá no Maranhão que está fundando uma escola e eu quero saber se você quer ir dar aula lá”. Eu com 20 anos, doido para sair de casa, ter minha independência, com música, não pestanejei, o salário era bom, eram mil dólares na época, o dólar lá em cima, isso em 1980, meu pai não tinha nem condição de dizer nada, eu ia ganhar mais do que ele. Ele achava que eu tinha que concluir a faculdade para ir trabalhar, ele não queria que eu interrompesse.

Você chegou a concluir algum curso fora da música? Rapaz, não. Eu entrei no curso de História, quando eu vim eu trouxe o curso de História mas não terminei. Eu estudei na UFMA.

Essa formação, digamos, mais acadêmica, da Proarte, foi tua formação ou você chegou a continuar isso? Eu me considero um músico clássico, erudito. Minha formação é basicamente isso. Fora um professor que tocava rock e um amigo meu, que a gente improvisava, a minha formação basicamente foi essa, de partitura, com repertório erudito.

Mas a pergunta é: depois da Proarte você não teve um estudo formal de música? Não! Depois eu fui fazer isso agora, já depois de muitos anos, concluí a licenciatura. Em 2000 eu fui para Fortaleza, passei uns anos lá e finalmente fiz minha graduação. Isso, poxa, 20 anos depois de trabalhar, graças a uma política, um interesse da instituição de qualificar, existia um problema muito sério com o corpo de professores da Escola de Música por que ninguém tinha formação acadêmica, todo mundo era curso livre, autodidatas e tal, todo mundo era assim. então tinha essa necessidade. O primeiro cara que saiu da Escola para fazer assim foi o Ciro de Castro, foi para a Espanha, fez o curso de canto dele, depois foi Ana Neuza, foi para o Rio, fez a graduação dela em piano. Eu fui o terceiro. Depois de mim houve uma porção. De uns anos para cá, finalmente com a inauguração da graduação aqui, na UEMA, aí os professores aderiram, poucos professores não têm ainda a graduação.

Você veio para cá em 1981. Você continuou indo frequentemente para o Rio? Como é tua relação? Todo ano eu vou, até hoje. Há dois anos houve uma interrupção, meu filho nasceu, muito pequenininho, eu não queria viajar com ele.

Primeiro filho? É. Fui ter o primeiro filho [gargalha, interrompendo-se].

Você veio para o Maranhão trazido por Olga Mohana. Quem foi o primeiro amigo que você fez aqui? Pixixita [José Carlos Martins, professor da EMEM, falecido], claro! [gargalhadas]. Na Escola de Música os violonistas que eu encontrei eram muito poucos. O professor anterior, não lembro, quem conhece é Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], é luthier, violonista, mora numa cidade em Minas, era o professor que eu substituí. Ele ficou pouco tempo e o trabalho dele foi pequeno, tinha um menino que eu tava outro dia lembrando, não mora mais em São Luís. Dessa geração, os alunos que eu herdei dele, nenhum continuou músico. Os primeiros alunos formados na Escola de Música por mim, violonistas, são Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e o Raimundo Nonato Privado [violonista], que são professores da Escola. Numa segunda leva, são guitarristas hoje, Norlan [Lima], Diógenes Torres. A Escola de Música tinha um problema muito sério naqueles primeiros anos, com o programa, a concepção do curso, eu queria falar uma coisa a esse respeito. Olga Mohana tinha um projeto acabado de educação musical, tinha uma proposta concreta para por em prática. Ela queria resgatar aquela memória que havia sido esquecida, da tradição erudita maranhense, a obra do João Mohana, aquelas missas de Antonio Rayol, ela queria que aquilo fosse executado, que houvesse músicos capazes de tocar aquele repertório. Ela queria montar uma orquestra sinfônica, então a ideia da Escola era essa, trabalhar a música erudita. Ela tinha uma ideia de que a música popular, nessa época existia um conflito de concepções pedagógicas no Brasil todo, dos conservatórios, da música europeia, daquele sistema positivista de ensino, aquela coisa evolucionista, eurocêntrica, e tinha uma concepção mais nova se delineando, uma coisa que hoje se chama de abordagem sociocultural da pedagogia musical, era um conceito que estava se formando. Aqui o choque foi esse, eu não tinha uma formação assim muito grande, do ponto de vista didático, eu ensinava como eu tinha aprendido, eu não tinha passado pelo banco da universidade, com disciplinas específicas sobre didática, sobre essa discussão toda, que na época ainda era pequena, mesmo nas universidades ainda era uma coisa confusa, isso começo dos anos 1980. O que acontecia: eu, ao mesmo tempo em que não tinha uma concepção acabada sobre isso, tinha uma coisa que me incomodava no meu trabalho com os alunos, eles não ouviam música erudita, não tinham a mínima ideia de como diferenciar, tocar Bach e aquilo não parecer um samba, como tocar um compositor clássico e não transformar numa coisa esquisita, meio caricatural, por que não tinham referências estilísticas, estéticas. O Maranhão carecia demais disso. Na época ninguém ouvia música erudita.

Você lembra o que tentou fazer na época para superar esse dilema? Isso daí foram anos. Eu, na verdade, nunca consegui uma solução. Quando eu vejo meus colegas hoje se deparando com os mesmos problemas, que eu vou tentar dizer “vai por aí”, e as pessoas não ouvem, inclusive eu não dou aula mais de violão na Escola de Música, muito em função dessa dificuldade de compreensão dessa diferença, da necessidade de você ter um método que seja realmente sintético, que considere essa coisa viva. Você vai fazer um cara tocar música erudita, tocar Bach, estudar, tocar, é difícil, só fica bonita se for perfeito, tem um conceito, uma norma, o cara passa anos… você pega um garoto sem referência, não acontece. O que aconteceu foi que eu não tinha a teoria, mas eu tinha Koellreutter, da necessidade do novo, você ter honestidade para abarcar o problema, não fantasiar, ser sincero.

Durante muito tempo se ouviu uma crítica muito forte à Escola de Música por conta dessa erudição. Parece que de uns anos para cá, ela deu uma popularizada, necessária, eu diria, embora ela tenha sido pensada inicialmente para dar vazão a essa coisa do popular no Maranhão. Pois é, eu acho que a importância do grupo Pixinguinha [o Instrumental Pixinguinha] é essa: vamos trabalhar técnica, trabalhar música brasileira, popular. Foi a primeira vez que um grupo quebrou a coisa do clássico lá dentro da Escola. Mas ainda existia muito preconceito, e não era só eu, tinha outros professores, com outras cabeças. O fato é que na década de 80 estavam acontecendo umas coisas, globalização pesando, aqui em São Luís surgiram os primeiros estúdios de gravação. Quer dizer, existia Nonato. Depois surgiu Pitomba e papocou pela cidade toda, Edinho [Bastos, guitarrista] da guitarra veio, montou o estúdio dele, Duailibe [Henrique Duailibe, pianista], Marcelo Carvalho [tecladista]. Aí começou a acontecer outra coisa diferente daquilo que eu encontrei, que era Josias [Sobrinho, compositor] com o Rabo de Vaca, Cesar Teixeira tocando violão. Foi nessa época. Essas pessoas que estavam vindo, tinham um conceito do que era música popular e tinham certa força dentro da cidade. Eu lembro que Laura Amélia [Damous] era secretária de cultura e nomeou Marcelo Carvalho diretor da Escola de Música e ele tinha essa ideia de que era importante que a música popular fosse ensinada, que a Escola fosse um veículo para isso, mas ele não tinha uma coisa de didática, política de ensino, essa coisa mais técnica. Acabou não dando certo. Dessa época surgiu o Instrumental Pixinguinha e surgiu também a Big Band, que foi também uma guinada nessa ideia. Como Olga saiu, depois de uma transição, chegou à direção da Escola de Música o Padilha [Antonio Francisco de Sales Padilha, trompetista, ex-secretário de Estado da Cultura], ele é um músico de sopro, e pensou “não, orquestra de cordas, não, vamos formar banda, orquestra de sopro”, e começou a investir nisso, a orquestra de sopros precisava de uma cozinha, aí se abriu curso de bateria, aí começou a refrescar um pouco a coisa, mas a resposta para a cidade era pequena ainda.

Se você tivesse que indicar teus mestres, quem são essas figuras? Primeiro de tudo eu tenho um amigo chamado Fernando Garcia, músico, no Rio, compositor, violonista fantástico, um artista incrível, foi um alento antes de eu entrar na Escola. Depois eu tive o Léo Soares, foi meu mestre, me ensinou a ler partitura, me ensinou repertório erudito, me ensinou estética. Ele me dizia: “eu não sou professor de violão, eu sou professor de música”, era esse o bordão do Léo Soares. Ele me deu aquele livro, História Social da Arte e Literatura [Arnold Hauser], eu tinha de 15 para 16 anos. Depois do Léo Soares foi a época que eu vim para São Luís. O grande músico que eu encontrei aqui, Mércia Pinto, grande concertista, a importância da disciplina, a música é um sacerdócio, o cara que é músico, ela tinha uma concepção que diferia muito da música como, do músico boêmio, para ela o músico era um operário, trabalhador, alguém que ralava, foi uma pessoa importante. Em Fortaleza, em 2000, quando fui morar lá, conheci o Heriberto Porto, flautista, líder do Syntagma e do Marimbanda, que trabalha jazz e música brasileira. Eu viajava muito, conheci esses violonistas todos. Marco Pereira, quando eu conheci, era um professor da Universidade de Brasília, muito metódico, compositor muito sério, foi maravilhosa a minha convivência. Conheci o Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Outro professor que foi importante para mim foi o João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013]. Ele quando veio para São Luís, eu achei muito legal, eu estava aqui sem pai e sem mãe, eu não tinha concluído meus estudos de violão clássico. As peças que eu toquei, eu fiquei num nível intermediário, não tocava as coisas mais cabeludas de violão. A ideia era ficar aqui dois anos, três anos. São Luís, eu não sei, tem uma coisa. A primeira vez que eu vi bumba boi, Pixixita me levou para a Vila Palmeira, eu fui lá, quando eu vi aquilo, eu não conseguia sair de dentro daquilo, eu fiquei completamente tomado.

Então você se considera um erudito mas tem uma paixão pela cultura popular. É. Eu não consigo ser insensível. Quando eu vi boi de orquestra, quando eu vi Leonardo, aí eu fiquei pirado, a polifonia, a ritmia daquilo, é incessante, é intenso, cada um fazendo uma célula. Tem um negócio que eu nunca entendi, tem uma hora que dá um barato. Aquelas partes individuais, quando eles estão tomados por aquela atmosfera, aquele transe, que aquelas dezenas de percussionistas entram em sintonia, um faz uma coisa, o outro completa o outro, o outro completa o outro, cara!, produz um efeito, meu Deus!

Antes de vir para o Maranhão você era frequentador de rodas de choro? Como era tua relação com essa música? Não. Eu vi choro, meu professor tocando choro, achei uma coisa ridícula, ele era um músico fantástico, mas não é músico de choro, pegou a partitura e tocou.

Mas você achou ridículo choro em si ou a execução dele? Eu não soube identificar, mas foi uma coisa que… eu vi ele tocando música espanhola, a música popular deles lá, aquela coisa, vi ele tocando Bach, depois vi tocando choro, não achei nada. Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] foi o cara que me apresentou realmente o choro. Solano e Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014].

E quando você ouviu com eles? Tua percepção mudou? Com certeza! Eram músicos autênticos, que tocavam choro com a alma, com propriedade, tocavam choro, aquilo era espontâneo. É diferente, passa, você tem um conteúdo. Por que música não é nota, não é instrumento, música é outra coisa, imaterial, impalpável. Você consegue exprimir ou não. Eu lembro, Vibrações [Jacob do Bandolim], eu ouvi com Solano e Jansen solando isso. Aí Solano: “tu gostou? Ouve isso aqui!”, aí me passou o disco Vibrações. Eu conhecia Pixinguinha, Carinhoso, essas coisas. Em música popular o que me chamava a atenção, que eu gostava, era Milton Nascimento, naquela época eu já ouvia Egberto Gismonti, já ouvia Hermeto [Pascoal].

Em todas essas referências há certa sofisticação, certa erudição. Sim, exato. Aquela música descompromissada.

Descompromissada com o mercado. Sim. E de fazer perfeito e tal, aquela alegria, aquela atmosfera, tipo “eu não estou aqui para sentar num palco e tocar com os melhores, ser comparado”.

Você sempre viveu de música? Graças a Deus! A minha primeira profissão foi como músico, me conservo até hoje. Eu tive uma sorte que muitos colegas talvez não tiveram, de ter um emprego, assim, com salário, professor de música. Isso me deu uma tranquilidade na minha vida pessoal.

Você chegou a tocar na noite? Aqui ou no Rio? Sim. Aqui! Eu vim do Rio muito novo.

Qual a tua relação afetiva com essa terra? Eu me considero maranhense. Eu não sei o que é isso. Eu adoro, gosto demais. Foi uma coisa que me tocou muito, a diferença das pessoas, aqui e lá, o jeito de ser. Aqui parecia que as pessoas eram mais humanas, ouviam mais. Lá parece que é cada um na sua e você é um inimigo em potencial, todo mundo desconfiado de todo mundo. Eu tive uma adolescência problemática no sentido da sociabilidade, muito introspectivo, muito tímido. Quando eu cheguei aqui eu desabrochei como pessoa, primeiro o pessoal da Universidade. Na UFMA conheci o pessoal do movimento estudantil, depois o pessoal do PT [Partido dos Trabalhadores], eu fui da primeira direção da CUT [Central Única dos Trabalhadores].

Conte um pouco de sua participação no Instrumental Pixinguinha. A gente tinha o seguinte objetivo: tocar Radamés [Gnattali, compositor, pianista, maestro e arranjador gaúcho]. Biné do Cavaco [Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014] tinha um amigo em Recife, Marcos César [bandolinista], conseguiu as partituras; Solano conseguiu várias partituras de outros arranjos de Radamés, arranjos de Wagner Tiso, aquele repertório da Camerata [Carioca, grupo liderado por Radamés Gnattali] a gente conseguiu. Durante um ano, mais ou menos, a gente ensaiou sistematicamente. O nome do grupo não é à toa: tinha a ideia de que o grupo era de choro mas não era um regional, a gente queria fazer música brasileira camerística, queria dar um salto, tinha Radamés como referência, Suíte Retratos [de Radamés Gnattali, em quatro movimentos – os retratos –, homenageia Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga], Choro de mãe [de Wagner Tiso], a gente tocava aquilo, aquilo é lindo demais! É uma obra-prima do choro. Solano, eu, a gente tinha essa coisa, quando falou Instrumental, vamos trabalhar música instrumental brasileira, era essa a ideia. Quando a gente fez o show, Homenagem à velha guarda, tocamos finalmente depois de um ano, notamos que criou uma ressaca violenta depois. Para continuar com aquela ideia era muito difícil para muito dos colegas manter um trabalho daqueles, muito ensaio, foram criadas algumas dificuldades. O grupo foi gravar seu primeiro disco muito tempo depois de eu ter saído, inclusive era ideia minha essa coisa do repertório maranhense, à época eu consegui música com Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], tinha umas coisas que eu fazia lá, Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] sabe. Depois que eu saí do Pixinguinha eu tive a felicidade de ao ir para Fortaleza, conhecer, lá na UECE [Universidade Estadual do Ceará] o Heriberto Porto, que era o líder do grupo Syntagma. Era um grupo que trabalhava o elo entre a música nordestina, dos cantadores, repentistas, aquela coisa modal, e a música europeia da idade média, dos menestréis, dos cantadores, das rabecas, dos alaúdes. Eles tocam música nordestina com viola da gamba, cravo, tem arranjo, por exemplo, de Asa Branca [Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira], pô! Conheci lá um grande músico, não pessoalmente, o trabalho, os arranjos, Liduíno Pitombeira. Ele é um gênio! Mas não tem uma produção que o promova, não é conhecido. Ele ganhou o prêmio da sinfonia do descobrimento do Brasil, o MEC fez um concurso quando o Brasil fez 500 anos, ele foi o ganhador.

E fora o Pixinguinha, você integrou algum grupo aqui? Eu acompanhei Rosa Reis [cantora], vez em quando as pessoas chamavam, acompanhei Anna Cláudia [cantora], fiz noite, participei de alguns festivais.

Você vem de uma formação mais erudita, de violão clássico, mas na sua opinião, o que significa o choro para a música brasileira? A gente está vivendo uma época de muitas tendências na música brasileira. Graças a Deus o choro ganhou uma força enorme dos anos 1980 para cá, com novos compositores, compondo coisas absolutamente inéditas, não é a coisa de pegar o modelo e fazer, mas linguagem nova, propor novas concepções para o choro, instrumentistas virtuoses incríveis. A música instrumental brasileira cresceu também com influências do jazz, do fusion com música modal, eletrônica. Eu andei ouvindo umas coisas de choro com guitarra, bateria, teclado. É música brasileira, tudo bem, mas choro é regional, cara!

Então você é tradicional? [Risos] Não, eu sou camerístico, eu adoro música eletrônica. Agora quando eu fico vendo bateria, guitarra, eu acho massa, mas é outra coisa. Tem muita coisa acontecendo. Eu acho que a renovação da linguagem no choro não tem a ver necessariamente com o abandono das formas tradicionais, e estou falando especificamente do instrumental, do tipo de instrumentos que produz, daquela sonoridade.

Além de O chá [registrada em Choros Maranhenses – Caderno de Partiruras, organizado por Zezé Alves], você tem outras composições? É, tenho umazinhas, até tenho um projeto com Zezé Alves, ele começou a editar [as partiruras], tem choros que eu compus na época, com o Pixinguinha, quero ver com ele se eu consigo editar, tirar do manuscrito.

Você foi diretor da Escola de Música. Como você avalia a experiência? Rapaz, eu saí de lá com depressão [gargalhadas]. Você tem uma instituição que você não tem recursos para botar a coisa pra frente, projeto, é uma dor de cabeça. Na época em que eu estive lá eu consegui colocar a nível interno uma discussão que talvez para a sociedade não importe muito, mas vai importar ainda, que foi a necessidade da modernização, de descartar aquele velho programa e ter um programa atualizado do curso de música. Eu não consegui fazer, mas consegui botar a semente naquelas cabeças, e fluiu depois. Falta ser aprovado. Eu sou feliz por isso, iniciei uma discussão que deu frutos. A questão política é muito frustrante.

Você acha que a Escola de Música deve estar, como está, vinculada à secretaria de Cultura ou deveria estar vinculada à secretaria de Educação? Do ponto de vista da gestão, da autonomia financeira, administrativa, eu acho que a Escola de Música deveria ser criado era uma fundação, uma coisa específica. Essa coisa de verbas é o problema central, problemas de contratação. Você abre um concurso para alunos novos, se inscrevem três mil jovens, cinco mil jovens. Quantas vagas? 200 vagas, 150 vagas. Isso não pode, é um desrespeito total. Uma instituição que tem essa demanda não pode ser tratada assim. Se não houver concurso para a Escola e dotação, esteja onde estiver vai ter problemas.

Você se considera um chorão? Considero. Me considero um chorão no seguinte sentido: amo música instrumental, amo música brasileira [enfático], gosto de ver performance. Quando eu vejo um instrumentista tocando bem música brasileira eu acho muito legal. Nesse sentido eu sou. Se eu tiver que fazer música eu quero fazer choro.