Um relato honesto e emocionante

Ex-esposa do vocalista do Joy Division traça retrato cru de seu relacionamento em biografia

Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division. Capa. Reprodução

 

Aos quase 35 anos do suicídio de Ian Curtis – recém-completados, no último 18 de maio; ele tinha 23 anos quando se enforcou – ganha tradução no Brasil a biografia Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], escrita por Deborah Curtis, sua viúva.

O livro apresenta um relato sobretudo da relação de Ian e Deborah, sem poupar um e outro nem revelar detalhes desnecessários de sua intimidade. O texto equilibrado dela descortina tão somente o que é necessário para compreendermos a figura do vocalista do Joy Division e a aura mítica criada e alimentada em torno dele, sobretudo após o suicídio. Em resumo, a autora não faz do ex-marido santo nem demônio: ele é tratado como um ser humano – acima da média, como são os gênios.

O livro é dedicado à filha dos dois, Natalie, e traz depoimentos dos outros membros da banda: Bernard Summer (guitarra e teclado), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), que após o precoce suicídio do líder vieram a formar o New Order. A obra remonta à adolescência dos Curtis, quando se conheceram – época em que ele já falava em suicídio –, até quando a fama do Joy Division começou a extrapolar a Inglaterra natal: Ian se enforca pouco antes da banda sair para sua primeira turnê pelos Estados Unidos.

O legado da banda é inquestionável e a carreira, apesar de curta, deixou obras-primas como Love will tear us apart, Transmission e She’s lost control. Influenciados por nomes como Sex Pistols, Velvet Underground e Iggy Pop – seu The idiot continuava girando na vitrola quando o corpo de Ian foi encontrado sem vida –, o Joy Division segue influenciando jovens mundo afora. Antes de se suicidar, Ian assistiu “Stroszek, de Werner Herzog, sobre um europeu vivendo na América que se mata em vez de escolher entre duas mulheres” [p. 160]

Originalmente publicado em 1995, e tendo inspirado o filme Control, de Anton Corbijn, em Tocando a distância estão registrados a inabilidade de Ian Curtis para com coisas práticas da vida de um adulto normal – por exemplo, dirigir, morar sozinho etc.; há um capítulo intitulado Decida por mim –, a oscilação de seu comportamento (ora carinhoso, ora agressivo), a certeza do sucesso (chega a abandonar empregos na certeza de que o Joy Division daria em algo), as crises epiléticas (muitos fãs julgavam serem apenas trejeitos de palco) e a bigamia – Deborah admite a fraqueza à época, mas documenta o caso do músico com a jornalista Annik Honoré (falecida ano passado).

Deborah cita, mas não publica, a longa carta deixada a ela por Ian por ocasião de seu suicídio, o que bastaria para provar que, longe de caça-níqueis, seu relato é um desabafo necessário, profundo, emocionante e corajoso.

A edição brasileira traz ainda letras gravadas e inéditas de Ian Curtis, escritos inacabados do artista, lista de shows do Joy Division, um pequeno álbum fotográfico e uma minuciosa e surpreendente discografia (listando, às vezes, coletâneas em que a banda comparece em apenas uma faixa).

Leia trecho de um dos escritos inacabados de Ian Curtis:

Nada parece real mais. Até mesmo as chamas do fogo parecem me chamar, atraindo-me a alguma vida passada grandiosa, enterrada em algum lugar profundo em meu subconsciente, se ao menos eu pudesse encontrar a chave… se ao menos… se ao menos. Desde minha doença, meu problema de saúde, tenho tentado encontrar alguma maneira lógica de passar meu tempo, de justificar um meio para um fim. [p. 277]

Leia um trecho da biografia:

Tanto quanto sei, fui a última pessoa a ver ou conversar com Ian. O carinho que todo mundo tinha por ele é óbvio pelo olhar em seus rostos quando me dizem que ainda não entendem por que ele t irou a própria vida. De qualquer maneira, a morte dele não foi simples. Enforcar-se foi somente o ato final em sua trama de autodestruição. O Joy Division e sua equipe não sabiam, mas ele falava sobre suicídio desde a adolescência. Quando eu tocava nesse assunto, mencionando seus anseios precoces de morrer jovem, minhas perguntas não eram respondidas nem com a negação, nem com a explicação. Contando com a ajuda leal daqueles ao seu redor para acobertar seu caso com Annik, Ian conseguiu me distanciar mais dos eventos e assegurar uma total quebra na comunicação. As histórias de Ian sobre como nosso casamento era ruim levaram o resto do Joy Division a grosseiramente subestimar a profundidade de nosso relacionamento. Além disso, ao difamar meu caráter, Ian teria fornecido a si mesmo os meios para justificar seu caso e, por um curto tempo, aliviar a culpa que ele acabaria por sentir. [p. 172]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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