Vai Juliano, ser Gauche na vida

Quando Juliano Gauche lançou, com o Duo Zebedeu (os violonistas Fábio do Carmo e Julio Santos), Hoje não (2009), inteiramente dedicado à obra do também capixaba Sérgio Sampaio, impressionou-me certa dubiedade: o disco exalava o homenageado sem, no entanto, relegar Gauche à condição de mero cover (apesar da semelhança física). Havia ali respeito e devoção pela obra de Sampaio, mas uma voz personalíssima do intérprete.

Antes, ele já tinha sido vocalista da Solana. Depois Juliano Gauche, já morando em São Paulo, lançou um disco solo (2013) que levava apenas seu nome. Quase completamente autoral, o disco voltava a homenagear o ídolo em Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, cabeça do Cérebro Eletrônico, seu produtor.

Uma cópia de Juliano Gauche rodou muito entre lá em casa e o trânsito, sem que eu nunca tenha me arriscado a dizer nada sobre o ótimo disco. Este textinho tampouco é tentativa de fazer isso tardiamente. O original eu só consegui comprar recentemente, numa ida ao Recife. Festejei o achado, como convém a um homem de vícios antigos.

Hoje, a revista Tpm lançou o videoclipe de Cuspa, maltrate, ofenda, porrada de amor que abre Juliano Gauche, dedicada à sua esposa e produtora executiva Sil Ramalhete (que aparece no clipe). Embora a publicação tenha anunciado exclusividade, roubo-o de lá e penduro-o aqui.

Chorografia do Maranhão: Henrique Cardoso

[O Imparcial, 10 de agosto de 2014]

Hoje integrante do grupo Bossa Nossa, o violonista sete cordas Henrique Cardoso é o 37º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Henrique Cardoso de Oliveira Junior começou a ser conhecido na cena choro de São Luís como violonista do grupo Um a Zero. À época seu nome artístico era Henrique Junior. O músico nasceu em São Luís, em 31 de maio de 1983 e passou a infância entre São Paulo e Rio de Janeiro.

É filho do educador físico Henrique Cardoso de Oliveira e da professora Rosete Franco Lopes, a quem reconhece a influência. “Ela nunca mediu esforços para pagar professores ou me deixar ir procurar alguém para me ensinar. Até hoje ela gosta de cantar”, revela o hobby da mãe, que já deu canjas no Clube do Choro Recebe, palco do filho no início da carreira.

Outro palco de importância na carreira do músico foi a Praia Grande: muitas foram as segundas-feiras regadas a choro no extinto Bar Antigamente. Não por acaso o bairro do Centro Histórico ludovicense foi escolhido para que Henrique Junior desse seu depoimento à Chorografia do Maranhão.

Os tempos mudaram: da Praça dos Catraieiros, chororrepórteres e músico – ele estava acompanhado de sua esposa, Rafaele Lopes – tiveram que se mudar, pois o barulho dos bares da região impediam a conversa. No Cafofo da Tia Dica (atrás da Livraria Poeme-se) o pagode invadia até mesmo o ambiente fechado e climatizado, em geral silencioso. Nesse clima mesmo, a agenda foi cumprida.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te levou a morar no Rio e em São Paulo? Meu pai é de uma cultura meio que nômade. Ele é cearense, meu avô era sanfoneiro, e tinha o hábito de, de tempos em tempos, estar mudando de um lugar para o outro. Isso ele [o avô] passou para ele [o pai]. Quando eu já estava com um, dois anos, fomos morar em São Paulo, depois viemos para São Luís, depois São Paulo de novo, depois um tempo no Rio de Janeiro morando na Glória. Aí quando eu voltei para cá de novo eu já tinha uns 12 anos. Foi uma enrolada muito doida, meu pai tinha isso de ficar viajando. E isso foi bom por que eu também fui conhecendo já um pouco da música de vários lados, de vários locais.

Essas viagens influenciaram teu fazer musical? Nem tanto. Teria influenciado se eu tivesse ficado mais tempo morando lá. Eu fiquei morando em Pirapora, uma cidade de São Paulo, com oito anos eu passei para fazer piano. Eu cheguei a me matricular, fiz umas poucas aulas de teoria, só que a gente acabou viajando e eu não cheguei a pegar em instrumento. Ficou um pouco precoce minha ida para a música, ainda não era hora, na verdade. Meu contato com música só viria a se dar aqui em São Luís, eu já chegando na adolescência.

Teu pai é músico também? Da família é o único que não é músico. Ele é educador físico. Os irmãos dele, a maioria, ou é cantor, ou é dj, ou é músico.

O que se ouvia no ambiente musical de tua infância? Minha mãe me influenciou muito nisso. Era na casa de meus avós que se ouviam discos de Elizeth Cardoso e Altemar Dutra. Foi ali que eu comecei a prestar atenção nos sons graves e já a gostar do lado do violão, do violão sete cordas. Aquela música, “Jurei não amar ninguém” [cantarola trecho de Toalha de Mesa, de Noite Ilustrada e Carminha Mascarenhas], Noite Ilustrada. Meu pai era um pouco avesso a música, mas minha mãe até gosta de cantar.

O que te levou a escolher a música, já que teu pai não era adepto? Eu ganhei um violão desde pequeno, na verdade. É um instrumento que meu avô já tinha dado, desde criança ele estava lá no meu quarto, guardado em cima de um case, mas eu não tinha ninguém para me ensinar. Meu pai tinha essa questão de prioridade no estudo, o instrumento sempre estava perto de mim, mas eu nunca tive contato para aprender, de fato. Só na adolescência. Minha mãe sempre gostou de música, na casa de minha avó, fins de semana eram regados a música, a radiola tocando elepês, Altemar Dutra, Noite Ilustrada, músicas variadas, anos 80, Earth, Wind and Fire, Michael Jackson, Lionel Ritchie, entre outros. Sempre fui bem eclético, rock na minha adolescência, e o choro também. Meu avô tinha discos de Dilermando Reis, até hoje tem. Isso ajudou muito na minha vivência, aprendi a gostar de vários estilos, a não ter preconceito com nenhum estilo.

Por que você resolveu trocar o Henrique Junior pelo Henrique Cardoso? Embora o Junior sempre traga aquela coisa do novo, acho que Cardoso impõe certo respeito e também relembra um pouco o lado da família de músicos, Cardoso, que vem de meu avô [incomodados com o aumento do volume do som de diversos bares, chororrepórteres e entrevistado pagam a conta e seguem a pé até outro bar para continuar a entrevista; infelizmente, o barulho continua].

Você tinha quantos anos quando começou a estudar música? Uns 16 anos, já comecei um pouco tarde. Meu contato com a música foi maior por que eu tive, como amigo de colégio, o Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013]. Eu só fui pegar em instrumento depois que meus pais se separaram e quem me ajudou muito foi Rui Mário. Eu vivia na casa do pai dele, seu Raimundinho [sanfoneiro], a gente morava relativamente perto, eu pegava a bicicleta e ia para a casa deles e Rui ficava me enchendo o saco, me enchendo o saco para o bom lado, né? “Rapaz, aprende a tocar um instrumento, tu tem um bom ouvido” e tal. Me incentivou. Na música ele foi o primeiro a me orientar, a ensinar alguma coisa de música, acorde.

Quando você volta à São Luís, a que você credita o despertar imediato para a música? Na verdade, quando eu voltei, ainda não foi a época que eu peguei no instrumento. Eu comecei a ter maior contato com a música quando meu pai ganhou um toca discos usado e veio, junto com o toca discos, alguns elepês: Waldir Azevedo, Pixinguinha, e eu comecei a ouvir tudo. Foi uma noite que até hoje eu me lembro. Quando chegou, que ele armou na sala, eu não dormi. E passei vários dias sem assistir televisão, eu passava dia e noite ouvindo música, o tempo todo. Eles ficaram espantados, impressionados, “por que ele não para para assistir televisão? Não faz nada?”. Um cavaquinho acontece [disco de Waldir Azevedo, de 1960] eu escutava todo dia, Os oito batutas [disco de Pixinguinha com o grupo homônimo, s/d] eu escutava direto.

Que idade você tinha? A cronologia não é o meu forte, mas acho que de 11 para 12 anos.

Você disse que em discos de samba as baixarias te chamavam a atenção. Sim, principalmente no choro. Quando eu escutei, eu não sabia qual era aquele instrumento. Eu me seduzi pelo contracanto, eu ficava admirado com aquilo. Eu só fui descobrir muito tempo depois, ouvindo o Chorinhos e Chorões [programa dominical de choro, na rádio Universidade FM, 106,9MHz, produzido e apresentado por Ricarte Almeida Santos], na verdade; foi ali que eu fui descobrir que existia, no choro, o violão sete cordas. Aqui em São Luís a gente ouvia pouco falar. Eu fui atrás de quem tocava violão sete cordas. Na época foi um pouco difícil, não tinha redes sociais, como hoje em dia. Eu fui para o lado mais fácil para chegar mais perto do choro, eu já havia sido seduzido pelo choro, achava bonito, queria tocar, mas por onde começo? Comecei tocando samba por que via proximidade entre os dois gêneros. Depois de um tempo foi que veio a ideia de montar o grupo de choro.

O Um a Zero? Isso! O Um a Zero. Depois de um tempo, já tocando em alguns grupos de samba aqui em São Luís, eu tocava [violão] seis cordas, mas já no estilo sete cordas. Quando eu entrei no [grupo] Amigos do Samba, eu ouvi falar em Roquinho [cavaquinista e bandolinista]. Eu sabia que o cara do bandolim e do cavaquinho, aqui, era ele. Eu comecei a organizar as ideias e a montar o grupo na minha cabeça. Eu teria que convencê-los que valeria a pena. Daí começou minha história no choro. A primeira coisa que eu sabia é que a música que ele gostava de tocar era Czardas, que não é um choro, é uma música de Victorio Monti [compositor italiano], e ele disse que era muito difícil tocar acompanhando ao violão. Graças a Deus, eu tenho um bom ouvido. Cheguei em casa, fui atrás, encontrei, e peguei a música. Quando eu fui pra casa dele, só pra mostrar do que eu era capaz, eu já fui com Czardas na mão, aí ele abriu o olho: “não, esse rapaz leva jeito!”. Pode ver que todo show do Um a Zero tinha que tocar Czardas. Isso foi interessante pra caramba! Ele me ajudou muito, conhece muito choro, me passava as coisas. A música pra mim era uma maré mansa, de repente veio um tsunami, eu tive que estudar demais.

Que figura você considera sua principal influência, que foi decisivo em tua ida para a música e, especificamente, para o choro? Das pessoas que estão na minha vida, em ordem cronológica, o Rui, muita coisa eu aprendi só na convivência com ele. Ele era um rapaz de 17 anos que tocava em tudo o que é lugar, e muito bem. No choro, especificamente, Roquinho foi o maior. Me apresentou o repertório de choro, eu almoçava na casa dele, jantava lá, e a gente ficava tocando o dia todo.

E foi você quem insistiu para que se criasse um grupo de choro? Isso! Não demorou muito tempo. Na primeira apresentação do Um a Zero o grupo não tinha nem nome. Foi o seguinte: a gente estava tocando a música Um a Zero, de Pixinguinha [parceria com Benedito Lacerda], veio alguém e perguntou o nome do grupo. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, a gente não sabia o que falar, e eu falei: “Um a Zero” [risos], e ficou. Nesse show estava até seu Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], ele tocou com a gente. Era um restaurante no Tropical Shopping. Lá começou certo movimento, a gente fazia um dia e o grupo de Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o Chorando Callado, fazia outro. Foi interessante. O primeiro show foi com seu Agnaldo por que eu não sabia se ia dar conta de tocar três horas de choro, o grupo ia fazer um mês ainda. Eu fui tocar na cara e na coragem. No domingo seguinte eu fui sozinho.

O que você acha de seu Agnaldo? Uma referência. Foi um desbravador do instrumento aqui em São Luís. Não existia internet, que é um facilitador, e ele sabe muita música. Você tinha que pegar os discos. Tem que tirar o chapéu para ele, para esse pessoal de antigamente. É um ótimo músico, eu admiro, embora não tenha tanto contato.

Houve algum momento em que algum familiar aconselhou a procurar outra coisa, por não ver futuro na profissão de músico? Ser músico é uma profissão que às vezes se torna um pouco desestimulante. Um advogado passa cinco anos na faculdade, se forma, vai fazer concurso, pode ser juiz, promotor. O músico tem que estar todo dia tocando o instrumento, o tempo todo. É uma profissão que a pessoa tem que estar todo o tempo trabalhando. Isso às vezes gera um desestímulo, até a questão financeira. Hoje em dia, com os projetos em que estou envolvido, a gente consegue pagar as contas, viver. Já somos bem vistos pelo público. Mas ninguém sabe como vai ser amanhã, daqui a dois meses. Às vezes bate a pergunta: será que eu não devo ser músico, mas fazer um vestibular, sei lá, pra direito? Pra mim foi um diferencial, ser músico, me ver como profissional da música, como empreendedor. Essa foi a diferença que a gente tinha com o Um a Zero e tem hoje com o Bossa Nossa, é a forma de ser empreendedor. Eu já tinha trabalhado em Ribamar [a cidade de São José de Ribamar, na Ilha de São Luís], já tinha trabalhado no Paraíba [rede de armazéns], então, a forma de me portar nestes trabalhos, eu levei para a música, eu virei um músico profissional.

Você chegou a estudar outra coisa? Eu tenho o [curso de] técnico em Eletromecânica. Foi a época pós-Um a Zero. Eu tinha meio que desistido da música, “ah, vou fazer outra coisa”.

O Um a Zero foi tua grande escola, mas foi, ao mesmo tempo, o grupo que te levou a uma crise existencial enquanto músico. É, por que foi o trabalho que eu posso dizer que foi a minha maior escola. A gente tocava toda quarta no Boteco da Lagoa, sexta a gente estava tocando no Taberna Grill, que hoje em dia é Távola Grill. E segunda-feira no Antigamente. Isso já entrava na renda, esses contratos era eu quem ia atrás. Aí teve certos problemas e eu pensei: será que vale a pena tanto esforço? Será que não é melhor eu procurar um emprego de verdade? Já estava faltando um mês para terminar Eletromecânica e a música me chamou de volta. Eu trabalhava em Ribamar, era concursado, trabalhava na área administrativa. Aí eu entrei no [grupo] Argumento, pedi exoneração, valeu a pena. Passei quatro anos no Argumento, foram bons anos.

A tua saída do Argumento se deu por opção? Sim. Eu tinha vontade de me dedicar a um projeto de música instrumental, que é o que a gente tem hoje. O Argumento é um grupo voltado ao público da noite, então tem que tocar tudo.

Como se deu a arregimentação do Bossa Nossa? Quem é o grupo? Eu e Lee Sousa [flautista e saxofonista] começamos a estudar juntos, entramos juntos na faculdade de música. Lá a gente começou alguns projetos, inclusive de choro. A gente entrou com a intenção de tocar também. Embora estejamos fazendo a licenciatura, tocar é o que nos move. Foi nessa época que a gente conheceu o Bruno Agrella, que é percussionista, no grupo toca bateria, o Cleuton [Wanderson], toca violão seis cordas, mas no grupo toca baixo acústico. Foi lá que começou. A gente pensou em levar nosso profissionalismo pra fora. A ideia inicial era tocar só choro, mas ampliamos, então tem choro, bossa, samba, música internacional.

Mas tudo instrumental? Este é o projeto, hoje, com que você está envolvido? Tudo instrumental. Isso! Tocamos no Lençóis Jazz e Blues Festival [em Barreirinhas], já tocamos em eventos do Sesc. Fizemos um show no Sesc só com música maranhense, todo mundo se levantou da cadeira para aplaudir. Há espaço para o instrumental, mas é preciso certo empreendedorismo do músico, saber como se portar, se vestir, isso tudo influencia.

Qual a agenda fixa do Bossa Nossa? Deixa eu falar a respeito do nome: é um nome que a gente pretende trocar, até por que a gente pretende fazer coisas maiores, pra fora. Levar o nome bossa, para um projeto que é maranhense, a gente não acha muito legal. Ainda vamos achar um nome. O Bossa Nossa toca no Shopping São Luís, meio dia [aos sábados], no Restaurante Manu, que varia entre quinta e sábado [à noite].

Em tua trajetória percebemos esse perfil empreendedor. Hoje, dá para viver de música? Hoje dá. Não dá para ficar rico com música, mas dá para viver. Tem que ter uma postura profissional, logicamente. Saber ser um pouco produto, um pouco se vender como produto. Logicamente no cenário instrumental já é tachado, já é visto um pouco como piegas, mas estamos mudando isso no palco. A nossa forma de tocar, de levar uma música internacional, uma música mais atual. Dá moral. Me olha, eu tou aqui! Tou tocando Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra] instrumental! Aliás, essa é uma música que tem feito a diferença, as pessoas levantam, aplaudem. Bela mocidade [toada do bumba meu boi de Axixá, de autoria de Donato Alves] também, Carinhoso [Pixinguinha e João de Barro], lógico!

O Um a Zero acabou? O Um a Zero, o término dele, eu não sei como explicar bem. Foi o seguinte: na época em que eu fiquei um pouco desmotivado, que eu comecei a fazer o curso, eu não pude mais vir tocar com o Um a Zero no Antigamente, nem em outros locais, por que meu curso era à noite. Então ficou o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], só que ele já tinha outros serviços, outras ocupações. Ele é um amigo, ficou por lá, é uma pessoa muito educada, podíamos contar com ele. Mas não teve alguém que fosse atrás de outros locais, ver o que poderia acontecer, conseguir a mais. O grupo acabou ficando muito restrito ao Antigamente. O bar mudou muito o perfil, principalmente depois que a Ana Lula [ex-proprietária] saiu, os donos novos queriam para tocar tudo.

Além do Um a Zero e do Bossa Nossa, houve outros grupos de que você fez parte? Teve muito grupo de samba, muitos artistas maranhenses. Da área do choro eu fiz participações com o [Instrumental] Pixinguinha, o que foi muito importante para mim, o convívio com Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], o pessoal que traz o choro tradicional na veia, ver como tocam. O Roquinho, o jeito de tocar dele, é bem moderno. Ele é autodidata. No Instrumental Pixinguinha, eles são tradicionais, foi muito importante eu perceber coisas que eu não percebia no Um a Zero. Fui vendo Juca, Raimundo Luiz, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. Eu cresci como músico, logicamente, isso foi muito bom.

O que significou para você o projeto Clube do Choro Recebe? Desses movimentos culturais que já aconteceram no Maranhão um dos que teve maior relevância foi o Clube do Choro Recebe. Foi num momento oportuno, colocou em evidência os grupos de choro. As redes sociais não eram tão populares, a gente usava a mídia para dizer que estava ali. Foi muito bom. Precisava de alguém para tomar essa atitude, para dizer que o movimento precisava tomar força. Até hoje é um dos movimentos de maior relevância, ao lado do Festival [Internacional] de Música [promovido pela Prefeitura de São Luís, em 2002], eu posso comparar pela importância histórica. Saber que era uma coisa organizada dava muito respaldo para a gente.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Como compositor eu nunca expus tanto, isso vai acontecer agora, pois estamos pensando num trabalho autoral. Com arranjo a coisa se dá em função do grupo, o grupo me deu mais liberdade de poder colocar tudo na mesa. Nós estamos nivelados, somos jovens que queremos tocar bem, é um laboratório de ideias. A gente se encontra e começa a testar e ver o que acontece. Esse está sendo um dos melhores momentos da minha vida. No Um a Zero, até por uma questão de respeito, eu deixava que Roquinho direcionasse.

Como funciona a dinâmica do Bossa Nossa? Os meios de comunicação modernos têm ajudado muito, whatsapp, facebook, então a gente faz uma conversa prévia, por esses meios, falando a respeito do repertório. Por exemplo, a gente vai tocar em um lugar, alguém pediu um jazz, a gente já guarda essa informação, em casa já pensa no pedido, compartilha as ideias. Quando a gente se encontra, coloca as ideias em prática, “olha, eu pensei no arranjo”, e nunca é feito só por um, tem um pouco do tempero de cada um.

Então o Bossa Nossa está pensando em disco? Já! É importante o momento que estamos vivendo, todo mundo olhando a gente, sendo bem recebido pelo público. Nosso cd já vai servir de portfolio e porta de entrada para outros grandes eventos. Para a gente vai ser muito bom, para o Maranhão, mostrar para o público de fora que São Luís tem músicos bons, pessoas que são comprometidas em tocar bem, em dar o melhor de si.

Para você, o que é o choro? Qual a importância dessa música no cenário brasileiro? Deixa ver se eu sintetizo bem essa importância. É nossa herança. É o que esperam de nós quando a gente vai pra fora. Quando a gente tocava no Antigamente e um turista sentava, ele queria ouvir choro, por saber que aquilo é genuinamente brasileiro. Eu lembro que uma vez um italiano falou que o choro era a música que mais descrevia o comportamento do brasileiro. Depois eu fui perceber isso, a gente se completa tocando aquilo.

Como qualquer processo cultural o choro é uma música em transformação. Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A minha ida para Brasília, para um festival de música há dois anos, eu percebi muito melhor o comportamento do chorão. Brasília é um foco, lá a cultura do choro é muito forte, tem choro todo dia em Brasília. Nessa viagem, fomos eu e Wendell, a gente foi todas as noites em rodas de choro diferentes. Lá a gente pode perceber um pouco mais a respeito do choro, perceber a diferença que faz a galera mais jovem tocando essa música. A tendência cultural, pop, eletrônica, acaba sendo levada para essa música. Tem a coisa tradicional, mas acaba indo a coisa do trânsito, buzina, a correria, acordar cedo para pegar ônibus, metrô e chegar cedo, eles estão levando. A gente nota isso.

Você se considera chorão? A gente nunca deixa de se considerar chorão: uma vez chorão a gente sempre vai se considerar aquilo. Eu estou menos chorão agora, mas o choro está comigo sempre, não tem como desprender. Toda vez que a gente toca Naquele tempo [Pixinguinha] eu imagino o Pixinguinha tocando, aquela coisa que está sempre aqui comigo. [O choro] é uma música que faz pulsar. A gente toca e nos toca.

Alice ainda: um sonho realizado de Nathália Ferro

Após 10 meses de gestação, a cantora e compositora Nathália Ferro, 30, disponibilizou ontem (sábado, 25), para audição e download em seu canal no soundcloud, seu segundo disco, Alice ainda, sucessor do ep Instante (2013), que ela considera seu disco de estreia. A artista já conta 10 anos de carreira.

Produzido por Adnon Soares, da CasaLoca, o álbum traz 12 faixas, de 12 compositores, incluindo ela própria, e reflete seu amadurecimento artístico. A maioria das faixas é inédita. Pelo meio do disco, um bloco de regravações: O que não é de mim (Hermes de Castro/ Marcos Lamy), Maria de Jesus (Beto Ehongue), com incidental do poema O bicho, de Manuel Bandeira, e Ana e a Lua (Betto Pereira).

Também merecem destaque Porcelana (parceria de Nathália com Laila Razzo, autora do projeto gráfico de Alice ainda), Música do sereno (de Paulo César Linhares, seu namorado), Como qualquer chiclete (Phil Veras), Neguinha (Nathália Ferro) e Te deixando aos poucos (Adnon Soares e Léo Del Nery).

A banda base de Alice ainda é formada por Adnon Soares (guitarra, violão, teclado e sintetizador), Marlon (contrabaixo) e Sandoval Filho (bateria). O disco tem ainda participações especiais de João Simas (guitarra) e André Grolli (bateria). Memel Nogueira, que mixou o álbum, também gravou uma guitarra. Adnon divide com ela os vocais de Estranho seu, versão em português de Strange of mine, da Soulvenir, banda dele. Lucas Maciel canta com ela em Música do sereno. A eles, todos, ela derrete-se em elogios: “músicos excepcionais e amigos muito queridos”.

Alice ainda. Capa. Reprodução
Alice ainda. Capa. Reprodução

 

Através de uma rede social ela concedeu a entrevista a seguir ao blogue.

A Alice do título é uma personagem. Quem é Alice? E o que ela tem de Nathália Ferro? Há algo em tua Alice da Alice de Lewis Carroll; o que não pode faltar em teu país das maravilhas? A Alice do título é a parte sonhadora da Nathália. É preciso reservar em si uma parcela bem grande de devaneio pra trabalhar com arte sem deixar o sistema te sufocar. Eu vendi o meu carro pra pagar esse disco, dormi seis meses na CasaLoca, troquei o dia pela noite, fiquei longe da minha família e da vida “normal” pra fazer esse trabalho. Foi muita loucura. E foi incrível.

Ao longo desse período, algum arrependimento? Eu me arrependo de muita coisa, mas no entanto, não me adianta de nada, já que a gente só faz aquilo que tá apto e pronto pra fazer. Mesmo o errado tava certo. Eu tinha que aprender, tinha que caminhar pro que sou hoje. Eu gosto de aprender sempre, e me despojar daquilo que não serve. Então não sou muito de dar atenção pra nostalgias ou arrependimentos. Prefiro gastar minha energia com o presente.

São 12 faixas, 12 compositores, você se reafirmando como tal, o que já havia ocorrido em Instante. Como foi juntar tudo isso e dar unidade ao disco? Sinceramente, organizar esse repertório foi uma das partes mais gostosas do processo. Todas as músicas foram se insinuando pra mim de maneira muito natural, inclusive as que não compus. Tudo ali diz muito mais do que eu poderia dizer, e não diz nada do que eu não gostaria. Foi muito bom descobrir a efervescência de compositores muito jovens, e dar versões a músicas de outros consagrados. Difícil mesmo, e penoso, foi organizar a ordem do disco.

Praticamente morar na CasaLoca deve ter dado ainda mais organicidade ao disco. Conte um pouco mais da experiência de ter Adnon como compositor, produtor e participação especial. E instrumentista também [risos]. Ele é um irmão pra mim. Até quando a gente briga parece briga de irmão. Eu nunca vou poder expressar a gratidão que tenho por esse cara ter usado tanto do talento e do tempo dele pra me ajudar a realizar esse sonho. O Adnon tem um método bem heterodoxo de trabalho, o que às vezes torra a paciência da gente. Mas por outro lado ele é tão gênio, e tem um coração tão genuíno, que a gente releva. Pra mim foi um aprendizado pra vida inteira viver esses meses de imersão mesmo. Me ajudou a valorizar ainda mais esse trabalho e o trabalho criativo de quem se dedica à música.

Ele é, hoje, um produtor bastante requisitado, além de ter seus projetos próprios, CasaLoca, Soulvenir. Foi difícil conciliar a agenda? Foi [risos]. Muito. Eu sinceramente não sei como ele consegue. É um mistério pra todo ser vivente, e mais louco ainda é que ele vem fazendo trabalhos cada vez melhores. Eu gosto de ouvi-lo dizer: “o melhor trabalho da minha vida é sempre o que estou fazendo”.

Apesar do lançamento exclusivo em meio digital agora, há intenção de lançar o disco em formato físico? Ah, sim. Eu tô juntando a grana pra prensagem. Vai ter pré-lançamento dias 8 [na Calourada Geral da UFMA] e 31 de maio [no Teatro Arthur Azevedo, na abertura do show do 14 Bis, pelo projeto MPB Petrobras]. O show de lançamento oficial tá pra julho, tô com projeto aprovado pra patrocínio e devo fazer um catarse [site especializado em crowdfunding] nos próximos dias.

Papiros do Egito segue aberto

O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)
O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)

 

Entre a costureira e o supermercado, subindo a Sete de Setembro, dei com o portão do Papiros do Egito aberto. A placa de venda continua lá, com o número de um celular e do velho 32310910 com o qual, vez por outra, perguntava a Moema Alvim, se tinha isso ou aquilo. “Fala alto, que eu sou surda!”, retrucava gritando, depois de um alô, para eu então aumentar o tom de voz, ser reconhecido e ela me responder se tinha e quanto era o livro ou disco que eu procurava.

Desci do carro e fui até lá. Um segundo portão é mantido fechado, por questões de segurança, e por um espelho que serve de retrovisor, dei de cara com Josilene, que há alguns anos abrira um sebo especializado em livros escolares, na Rua do Egito, a partir de uma cota da generosidade de dona Moema – também conheci sua ex-funcionária há mais de 20 anos, quando ainda menino comecei a frequentar o Papiros do Egito, cujo nome herdou da rua do primeiro endereço, no Centro, à época já funcionando na Rua dos Afogados, depois mudando-se para a Sete de Setembro, onde permaneceu até o falecimento da proprietária, em outubro passado. A última vez que havíamos nos visto fora justamente no velório e sepultamento da amiga comum.

Entabulei rápida conversa com Josilene, afinal de conta os vícios antigos são importantes, mas o supermercado não poderia esperar muito. Lembramo-nos de dona Moema. “Ela parecia uma adolescente, era só nesse negócio de face, direto”, ela comentou, lembrando o ativismo da professora aposentada na rede social. Rimos, saudosos. Ela me disse estar abrindo o sebo já há algum tempo [de segunda a sexta das 10h às 17h; sábados de 9h ao meio dia], cuidando de catalogar o acervo – até para avaliá-lo, já que pretende comprá-lo, junto com o casarão – e devolvendo as consignações aos donos. Dei-lhe parabéns, era importante a manutenção do Papiros do Egito aberto e, consequentemente, viva a memória de dona Moema. Desejei-lhe sorte e fiquei de aparecer com mais tempo e dinheiro. Esperei-a terminar um telefonema e pedi: “Deixa eu tirar uma foto tua, pra botar na internet e divulgar que estás abrindo o sebo”. Vaidosa, ela recusou-se, alegou estar descabelada. “Tira só do sebo”, devolveu, entregando-me a sacola com os três discos que catei, para não perder a oportunidade e o hábito.

Arte e política em festa coletiva

O Coletivo Gororoba. Foto: divulgação
Show marca ingresso de Áurea Maranhão no Coletivo Gororoba. Foto: divulgação

 

Um acontecimento artístico plural e com componentes políticos. É o que promete ser a ManiFesta, cujo título já traduz suas pretensões. Realização do Coletivo Gororoba e Conexão Espaço Habitação, o evento acontece neste sábado (25), a partir das 20h, na Guest House (Rua da Palma, 142, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 antecipado, meia entrada e na lista amiga, pelo e-mail coletivo.0.gororoba@gmail.com

A programação junta cinema, instalação, teatro, fotografia e música. Membro do Coletivo Gororoba, Ramusyo Brasil exibirá, na abertura da ManiFesta, o filme Maranhão 669 – Jogos de Phoder. “Nessa exibição será realizada uma tríplice projeção, com inclusão de imagens que ficaram fora da montagem final, além de jogos de percepção e atenção a partir das imagens projetadas nas diferentes telas”, anuncia o material de divulgação distribuído aos meios de comunicação.

Com Nayra Albuquerque e Luciano Linhares, Ramusyo Brasil também é autor da vídeo-performance Massa estanque, baseada na intervenção urbana Cegos, do grupo paulista Desvio Coletivo, apresentada pelas ruas de São Luís na 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes do ano passado. Às 21h a vídeo-performance será trilhada ao vivo pelo trio de autores.

A partir das 21h30, de meia em meia hora, Áurea Maranhão, Luciano Teixeira, Tieta Macau e Ruan Paz apresentam, respectivamente, Tá tudo à venda, Não é vício, A loira no banheiro, O’Culto. A primeira performance de corpo, um work in progress, terá escolha de três cenas pelo público, a serem interpretadas pela atriz.

Fotografia de Adnon Soares foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís
Fotografia de Adson Carvalho foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís

 

Desde as 20h, a fotografia também ocupará a Guest House. Diones Caldas exibirá a fotomontagem Fotos preto e branco de um banho de chuva, com fotografias realizadas e editadas com um telefone celular. No ensaio fotográfico R$ 2,80 é um roubo, Adson Carvalho explora as tensões das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus na capital maranhense e os conflitos entre a Polícia Militar e estudantes nas ruas de São Luís. A foto-instalação Atlas #ProtestoBR, projeto de Bruno Barata, Carolina Libério e Jane Maciel, do Laboratório Experimental de Pesquisa em Redes, Visualidades, Tecnopolíticas e Subjetividades (MediaLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coleciona, através de uma plataforma online imagens dos protestos ocorridos no Brasil a partir de 2013.

Haverá ainda discotecagem de Dani P e Fernanda Preta. Às 23h30 acontece o show Coração Cordel Canção, do Coletivo Gororoba, com participações especiais de Madian, Criolina e Walberth Guimarães. O espetáculo tem “inspiração visual e sonora na música e no estar-no-mundo nordestinos”.

Celso Borges e Nosly celebram longeva parceria

Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro

 

Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.

Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.

Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.

O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.

Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.

A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.

 

Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.

Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.

Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.

“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.

 

Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.

Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.

Fábio Cabral de Mello e a Passa Disco: lendas vivíssimas do Recife

TEXTO E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco
Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco

 

Recife – De passagem por Recife, a trabalho, leio no Jornal do Commercio, um texto de José Teles sobre o lançamento do dvd Vizinho de grito, de Jessier Quirino. O texto me leva à Passa Disco, lendária loja especializada em música pernambucana – mas que vende boa música brasileira em geral – que completará 12 anos de bons serviços prestados no próximo novembro.

O lançamento estava marcado para às 19h. Terminada a atividade de que eu participava na capital pernambucana, dirigi-me para lá, a fim de conhecer a loja e seu proprietário, Fábio Cabral de Mello, 52 – primo do poeta João Cabral de Mello Neto: o pai deste era irmão do avô daquele –, e, com sorte, pegar o autógrafo de Jessier Quirino, o que consegui, embora não tenha sido possível ficar para o recital, já que não podia me arriscar a perder o voo de volta à Ilha.

Além de loja, localizada no Shopping Sítio Trindade (Estrada do Encanamento, 480, loja 7, Parnamirim), a Passa Disco é também um selo, já contando oito títulos no catálogo – sempre pernambucanos para o mundo. Seu proprietário atende os clientes pelo site, facebook e pelo telefone (81) 3268 0888, cujos endereços e número ele diz pausadamente ao fim da entrevista, com o celular ainda funcionando como gravador.

Até a hora de a loja e seus arredores ficarem tomados pelo público de Jessier Quirino, eu ainda daria uma carga no aparelho, compraria discos (óbvio, como bom homem de vícios antigos) e experimentaria uma dose da cachaça Sanhaçu, oferecimento dos novos amigos Paulo Carvalho (que me fotografou com o poeta-cantador) e Luiz Berto, vulgo Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana – como bons habitantes do Recife, eles chegaram de “greia” o Fábio, perguntando-lhe se a loja tinha algum disco do Calcinha Preta ou coisa que o valha.

O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja
O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja

 

Você tinha um bar e restaurante com os irmãos, se desentendeu e abriu a loja? Me desentendi com os funcionários, não com meus irmãos. Os irmãos continuamos juntos. Eu sou agrônomo, trabalhava com jardinagem. Quando saí do bar fiquei só com a jardinagem, aí depois que eu montei a loja ainda passei um ano e meio, dois anos fazendo as duas coisas, depois só com a loja. Há praticamente 10 anos eu trabalho só com a loja.

O que te fez ter esse estalo?: vou viver de vender música! Já era um grande ouvinte, colecionador? Sempre, sempre! Desde garoto, com 10 anos de idade eu comecei a comprar lp, fita k7, essa coisa toda. O estalo pra isso foi quando Silvério Pessoa lançou um cd sobre Jackson do Pandeiro, o Micróbio do Frevo [2002], fez um encontro com a imprensa, José Teles, Michele Assunção, diversos jornalistas, e me convidou para participar, de gaiato na história. As declarações dele sobre a música, aí os jornalistas comentaram que Recife estava vivendo uma efervescência imensa de música, todo mundo lançando discos, e não tinha uma loja especializada em música. Eu saí dali meio… eu digo que o Micróbio do Frevo me contaminou também. Eu sai de lá com essa ideia, fui para casa dirigindo e pensando. Uns seis meses depois eu concretizei. Foi o tempo de ver abertura de firma, loja, depois eu montei a loja a partir dessa ideia. Esse foi o pontapé inicial.

Micróbio do Frevo foi lançado quase 10 anos depois do boom do manguebeat, ali com Da lama ao caos [1994], de Chico Science [& Nação Zumbi]. Você acompanhou de perto a explosão do manguebeat? É, mais ou menos isso, nessa faixa. Acompanhei. Cheguei a ir a diversos shows de Chico Science. Nessa época do bar, a turma frequentava, Chico não chegou a frequentar por que ele logo viajou.

Como era o nome de teu bar? Era O Rei do Cangaço. Otto, Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], Silvério [Pessoa], Lula Queiroga, Lenine, esse pessoal todo, minha permanência no bar nesse período foi importante para a música, para criar laços com essas pessoas. Comecei a vender discos no bar, discos independentes, Lula Queiroga, Josildo Sá, músicos locais, faziam algum evento no bar, levavam discos para vender, não vendiam todos, eu falava “deixa aqui” e comecei.

Às vezes nós temos uma dificuldade de nos distanciarmos quando estamos dentro do olho do furacão. Você já tinha noção da importância que teria o manguebeat? Eu percebi. A coisa foi tão assim, tão forte. Eu sempre acompanhei muito a música de Pernambuco e ficava sentindo a necessidade de um movimento que o Brasil todo tomasse conhecimento, que eu espero que tenha tomado, né? Achava, quando começou, no final dos anos 1970, início dos 80, o grande sucesso de Alceu [Valença], Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, eu achava, “opa, vai ter um movimento!”, por que nunca tinha tido um movimento como teve na Bahia a Tropicália, o Pessoal do Ceará, nunca teve um movimento forte aqui, muito embora, antes deles, Luiz Gonzaga foi o maior de todos, talvez do Brasil, o mais revolucionário, a estética de roupa, de criar estilo, sem internet, sem televisão, sem nada, e ele de ponta a ponta do Brasil conheceram o trabalho dele.

O nome Passa Disco vem de onde? Você também lida com sebo ou só discos novos? Eu tenho um sebo de vinil, mas surgiu depois, uns cinco, ou seis anos depois. O nome Passa Disco foi uma criação de Lula Queiroga. Lula é publicitário, aí eu conversando com ele, eu fazia inclusive jardinagem no escritório dele, e comentei que ia fazer uma loja. Aí ele: “vai fazer uma loja? Legal! Bota Passa Disco!”

Como você avalia esse cenário de derrocada da indústria fonográfica e do próprio formato cd? Eu já comecei com ele quebrado. Quando eu comecei a loja, as grandes lojas do Recife já estavam fechando. Tinha algumas pequenas, algumas ainda permanecem, outras fecharam. Eu já sabia que era difícil. Tanto é que quando eu comecei aqui eu continuei com a jardinagem por que tinha que ter a sobrevivência. Com o passar do tempo foi solidificando e eu fui levando. Ruim deve ter sido para quem, na época, vendia milhares, aí veio a internet, download, deve ter tido uma quebra. Como eu já comecei por baixo…

Que discos da música pernambucana entrariam em um top five particular? Olho de Peixe [1993], de Lenine e [Marcos] Suzano, com certeza. Da lama ao caos. Vivo [1976], de Alceu Valença, qualquer disco de Luiz Gonzaga, qualquer disco de Capiba, são top. Desses que eu acompanhei, vi nascer, estes dois [Olho de peixe e Da lama ao caos]

Você é amigo dessa turma, isso facilita um pouco, não é? É, já no bar comecei, e depois é natural, as pessoas vão se chegando.

Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco (16/4)
Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco

Hoje haverá o lançamento de Jessier Quirino, e a Passa Disco acabou virando também este ponto de encontro. É possível listar alguns outros lançamentos, mais ou menos recentes, realizados aqui? Acredito que a gente já fez nesse período, a uma média de dois por mês, mais de 100. Fizemos lançamentos de Elba Ramalho, Dominguinhos, Silvério, Geraldo Maia, Maciel Melo. São constantes os lançamentos.

A Passa Disco também é um selo, não é? Sim. A gente lança coletâneas. Desde 2006 a gente vem lançando coletâneas. Já lançamos volume 1, volume 2 e volume 3 de [Pernambuco] Cantando para o Mundo, aí tem dois volumes de Pernambuco Frevando para o Mundo, dois volumes de Pernambuco Forrozando para o Mundo e mais um outro projeto que a gente iniciou, artistas que já lançaram discos, estão esgotados, e a gente faz o relançamento. Começamos ano passado com Josildo Sá. Aí tira o nome, aí fica Josildo Sá Cantando para o Mundo. Vai ser sempre nessas frentes.

Chorografia do Maranhão: Adelino Valente

[O Imparcial, 20 de julho de 2014]

Engenheiro civil, professor universitário, bandolinista e pianista, fundador do Regional Tira-Teima, Adelino Valente é o 36º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Adelino Valente, em sua casa, no Calhau, começa com ele mostrando uma velha fotografia emoldurada sobre uma mesa de centro: ao lado de outros músicos, ele figura como integrante do Conjunto Marista, sua “primeira escola musical”, um grupo especializado em jovem guarda, cujo sucesso extrapolou os muros do tradicional colégio, então no Centro de São Luís, e chegou a fazer muitos shows em cidades do interior, próximas à capital.

Sobre o piano vários discos, sobretudo de pianistas nacionais e internacionais, entre a bossa nova e o jazz, e um retrato de Letice Valente, sua filha, psicóloga e cantora, que ele elogia.

Adelino Valente da Silva Filho é filho de Dóris Moura da Silva e Adelino Valente da Silva, um português que chegou a vice-cônsul de Portugal, tendo aportado por aqui já com uma vocação musical. É o quinto de oito irmãos, todos com aptidões musicais. Em 16 de setembro de 1953, quando nasceu, sua família morava na Rua dos Afogados, esquina com Rua da Alegria, onde funcionava o vice-consulado de Portugal.

Arregimentador e arranjador de Antoniologia Vieira, disco dedicado à obra do compositor Antonio Vieira, com a participação de diversos nomes da música do Maranhão, entre os quais Zeca do Cavaco [cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Zé Carlos [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013] e Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], chegou a acompanhar o compositor, ao bandolim e piano, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo, em 2005. Também dividiu um disco, hoje esgotado, com o violonista Turíbio Santos [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013].

 

Adelino Valente define-se como “um apaixonado pela música, engenharia e magistério”. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Todo o Sentimento [Chico Buarque e Cristóvão Bastos] e um medley de Ernesto Nazareth, executados ao piano.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando sua vocação para a música começou a aparecer? Minhas duas irmãs, Ana Clara e Fátima, estudavam piano. Eu, com cinco, seis anos, lembro de papai reclamando: “vocês não estão progredindo, vocês precisam estudar mais”. Quem ensinava minhas irmãs era Maria José Cunha, uma professora da Rua do Sol, Sinhazinha Carvalho, tia de [os irmãos] Marcelo [Carvalho, pianista] e Tutuca [cantor, compositor e produtor cultural], então, papai sempre reclamando, ele era muito exigente pra que todo mundo tocasse. E elas diziam: “papai, a gente nem piano tem, como é que a gente vai progredir?” Papai, “bom, se for o caso a gente vai comprar um piano”, e terminou comprando. Quando esse piano chegou eu tinha uns oito anos de idade. Quando minhas irmãs começaram a estudar, aquilo batia aqui no coração e eu não sabia explicar o porquê. Eu querendo me aproximar e elas me dando bisca, “sai daqui menino, tu vais desafinar o piano novo”. Eu não conseguia nem botar um dedo numa tecla. Meu irmão Fernando Silva, que estudava violino, chegou em casa, abriu o piano, tocou boleros, eu achava maravilhoso. Ele me deu oportunidade: “vem ouvir aqui, deixa eu te mostrar”. A primeira noção que eu tive de piano: tem essas duas pretinhas, o dó tá bem aqui; tem essas três pretinhas, o fá tá bem aqui [aponta teclas no instrumento], nunca me esqueci disso. Eu sentia uma emoção diferente; com oito anos consegui chegar ao piano, minhas irmãs não estavam lá. Eu comecei a tocar as músicas bobinhas que eu sabia, Parabéns a você, muito fácil, Noite feliz, eu cheguei e comecei a catar. Comecei a ver que o que eu sabia aqui dentro eu conseguia passar para o piano com a mão direita. Uma das vezes mamãe escutou eu tocar uma música de brincar de roda, e ela chamou papai: “Adelininho tá tocando Atirei o pau no gato”. Papai, que era músico, percebeu em mim alguma tendência musical. Com isso, minhas duas irmãs, que já tocavam clássicos, começaram a desistir. E eu comecei a chegar perto do meu primeiro instrumento, o piano. Com 10 anos, Fernando Silva, hoje juiz aposentado, começou a me orientar, eu achava que ele era o maestro. Nessa época eu já estudava no Marista e lá encontrei outras pessoas com aptidão musical. Esse grupo musical do Marista foi uma pré-escola, onde tivemos uma orientação importante do professor Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ele era do Liceu [Maranhense] e conheceu nosso grupo.

 

Esse grupo era o Conjunto Marista? Sim. O mais novo era Luiz Fernando [guitarrista], Celso [baterista] era o mais velho. Eu [contrabaixo], Rodrigo Caracas [tecladista] e Jomar Sadok [guitarrista] somos da mesma faixa etária. A gente começou a tocar tudo o que Roberto Carlos lançava, jovem guarda etc. Ubiratan chegou lá uma vez, nunca esqueço, mostrando a harmonia de Garota da Ipanema [Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes]. Aquilo, cada vez que ele mostrava, era um impacto. Acabou que terminei me especializando nisso, harmonias complicadas, dissonâncias, jazz, bossa. Mas naquele tempo… eu sei que esse conjunto nosso foi uma coisa importantíssima. Eu tocava em casa, devagarinho, minhas irmãs se conformaram e no Marista começou isso. Durou uns seis, sete anos. E todas as sessões [os eventos] no colégio tinham que ter participação desse grupo. E tocar bem naquela época era tocar igual ao disco.

Quem você considera seus principais mestres no piano? Eu já tive os principais mestres depois de bastante tempo. César Camargo Mariano, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzzetta e Tom Jobim, entre outros.

Mesmo sem ter tido aulas com eles? Ou você teve aulas com algum deles? Pessoalmente não. Eu ia fazer a escola de Antonio Adolfo, no Rio, mas não cheguei a frequentar. Ele é maravilhoso, a filha dele, Carol Saboia, maravilhosa também. Isso foi numa etapa bem posterior, por que o primeiro instrumento foi piano, mas eu não continuei tocando fora de casa.

Então teu irmão acabou cumprindo um papel de te encaminhar para o piano. O primeiro mestre foi meu irmão. Fernando Silva, advogado, juiz, ele tem atualmente um piano de cauda em casa. No Marista eu tocava contrabaixo, meu professor era o Neném [da banda Os Incríveis, fenômeno da jovem guarda].

Ao que parece você já estava caminhando para ser multi-instrumentista. É, eu tocava ouvindo bastante o Pitomba [contrabaixista], do Nonato e Seu Conjunto. Eu ia para o [clube] Jaguarema, no carnaval, eu não dançava, eu e meu irmão Luis Fernando ficávamos observando. Olhei muito Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] também, ele era guitarrista dos Fantoches. Neném, fora daqui, e Pitomba, aqui, foram dois caras em que me inspirei muito para tocar contrabaixo. Tinha também o Osmar, filho do maestro Pedro Gromwell, que tocava baixo acústico.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você chegou a conhecer o professor Pedro Gromwell? Eu conheci, tive duas aulas com ele de violino, eu tinha apenas sete anos de idade, mas fiquei com medo. Ele era um senhor com o cabelo partido no meio, e papai dizia “tu vais ter que aprender com ele”. Ele me deu duas aulas teóricas. A primeira noção de compasso e tempo, eu não cheguei a pegar em instrumento nenhum. Ele chegou, na primeira aula, eu já estava dividindo. Eu, sem um preparo psicológico. Ele era um cara moreno, com os olhos claros, o cabelo partido no meio, uma gravata borboleta, era estranho. Mas foi bom. Na verdade, eu sou 90% autodidata. Depois eu fiz uns cursos por correspondência, harmonia para piano. É uma coisa intuitiva que foi crescendo.

O que vocês ouviam em casa, em termos de música? O que papai ouvia era fado, a música portuguesa. Eu realmente nunca fui muito voltado para ela. Ele trazia discos de Portugal, novidades, gravações. É uma música muito sentimental, mas não me emocionava, em termos de harmonia eu achava muito simples. E papai além de violino, tocava um pouco de violão.

Isso se mantém hoje ou sua relação com o fado mudou? Se mantém. Eu ouço se alguém tocar, mas eu comprar, eu não compro. Eu prefiro o trabalho da música brasileira. Agora papai se emocionava, chorava, ouvindo.

A música nunca pareceu ter a perspectiva de profissão. Não gostaria de dizer que ela tem ou teve um papel secundário, mas você tem outras formações? Sempre gostei muito de Matemática e Física. Eu entrei na Universidade para cursar Engenharia Civil e depois Licenciatura Plena. Fiz as pós-graduações já como professor da Universidade Federal do Maranhão. Agora, a paixão de nascença é a arte musical.

Houve alguma fase de sua vida em que você viveu de música? Ou ela sempre foi mais hobby? Levo a música muito a sério, sou muito perfeccionista, não é tocar por tocar. A música é um complemento. Apareceu um trabalho, ótimo! Não apareceu, a gente tem como se manter.

Com quem você aprendeu bandolim? É o seguinte: papai me deu as primeiras noções e eu fui evoluindo, ele tirando algumas dúvidas; como ele queria que eu estudasse violino e não deu certo, ele disse “meu filho, você vai estudar guitarra portuguesa”. Guitarra portuguesa é o xodó de todo português. Fomos passar umas férias em São Paulo e papai me levou na escola do professor Manoel Marques. Era o cara da guitarra portuguesa aqui no Brasil. Chegamos lá, pelo sotaque um já reconheceu que o outro era português, “esse é meu filho, tem 14 anos, toca um pouco de piano, um pouco de bandolim”. O professor me recebeu, pediu que eu tocasse os instrumentos que eu já estava tocando e ele se interessou: “esse menino tem que ficar aqui, não pode voltar para São Luís”, mas é tudo aquela coisa que você não tem condições de decidir. “Olha, o que ele já toca de bandolim, não vai dar trabalho nenhum para passar para a guitarra portuguesa, agora ele tem que passar aqui uns três meses, estudando a teoria musical”. É outra coisa que não vingou. Ele me deu um método de guitarra portuguesa, eu tenho até hoje guardado. Aí, papai tinha uma guitarra portuguesa, a influência dele foi fundamental. Ele não era um exímio tocador, mas na época, para a gente, era. Eu já estava tocando bandolim e a guitarra portuguesa era uma coisa nova, eu cheguei a tocar, com o livrinho do professor. Eu nunca tive dificuldade de tocar nenhum instrumento. Todos os instrumentos que eu peguei, eu consegui entender e tocar. Mas a gente precisa definir uns dois ou três instrumentos, no máximo.

 

Além do piano e bandolim, que outros instrumentos você toca? No segundo científico do colégio Marista, eu devia ter uns 17 anos, mais ou menos. Regina Telles [professora de artes], muito conhecida, apresentava um programa num canal de televisão, e eu fui escolhido para tocar todos os instrumentos que eu sabia. Eu cheguei a tocar 12 instrumentos,acompanhado por Zé Américo Bastos e Ubiratan Sousa. Não lembro se Antonio Paiva participou no baixo. Eu toquei piano, contrabaixo, bandolim, cavaquinho, violão, flauta doce, lápis – um instrumento inventado por nós no Marista, batendo o lápis no dente –, toquei Tico Tico no fubá [Zequinha de Abreu], toquei também guitarra e pistom. Não sei se esqueci de algum instrumento. Fiquei conhecido lá como o homem 10 instrumentos. Foi um programa muito bom, divulgou um trabalho, não lembro agora o canal. Eu fazia parte da banda do colégio Marista, era cornetista solo. O pistom eu toquei olhando o Helinho do Nonato [e Seu Conjunto]. Eu acabei me dedicando a dois instrumentos: o bandolim e o piano.

 

Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução
Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução

Foi por essa época que surgiu o Regional Tira-Teima? Como foi essa história? Ubiratan queria montar esse grupo. O bandolinista que ele conhecia era eu, do Marista. Na época em que ele me conheceu eu já me apresentava ao bandolim, fora do conjunto Marista. Dizia-me Ubiratan, “vamos montar um grupo”, mas quem? Ubiratan me ligou falando “encontrei um percussionista maravilhoso, vou levar no teu apartamento”. Liguei pra papai, pra ele ir conhecer a formação do grupo. Quando eu chego lá, vejo um senhor. Ubiratan me apresentou ao percussionista. “Como é seu nome?” “Antonio Vieira”. Ele foi o primeiro percussionista do Tira-Teima. Nós somos fundadores, sob o comando de Ubiratan. Eu peguei o bandolim, nesse tempo estava me dedicando muito, o piano estava até esquecido. Papai gostou, deu sua opinião favorável. Faltava cavaquinho, violão. Ubiratan convidou Cesar Teixeira, ele foi o primeiro cavaquinista do Tira-Teima. Às vezes ele ia num [ensaio], não podia ir em outro, chegou-se à conclusão que não ia dar, tinha outras ocupações, composição, inteligente demais, gosto muito dele. Ubiratan lembrou que tinha um rapaz estudando violão com ele, “muito interessado, Paulinho”. Eu disse: “rapaz, Paulinho é primo de minha esposa”. Era Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], eu o conhecia do Marista. Paulo chegou se justificando, “olha, pessoal, eu estou começando, eu toco violão, cavaquinho eu estou arranhando”. Começou a treinar, Ubiratan orientando. Aí ficou Paulo no cavaquinho. Nós começamos a ser conhecidos até fora do Maranhão. Nos encontramos com o [Conjunto] Época de Ouro, Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinhista, fundador do Clube do Choro de Brasília]. O Regional foi crescendo, faltava um violão, foi entrando gente. Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] assumiu a segunda percussão, Fernando Vieira, que chamavam Fernando Cafeteira, já falecido, tocava violão, Chico Saldanha [compositor] também e depois Sadi Ericeira [violonista, irmão de Paulo Trabulsi].  Nós tivemos a grande sorte de contar com Hamilton Rayol como crooner, que voz maravilhosa! Faleceu com 57 anos. Ele cantava muito choro e muita MPB de qualidade. Feitio de oração [Noel Rosa e Vadico], Olhos nos olhos, de Chico Buarque, dentre outras canções. Além de grande cantor era uma pessoa maravilhosa. O Regional seguia seu trabalho e intuitivamente Vieira começou a me mostrar suas composições. Ao final dos ensaios, pegava o violão, tocava, eu ficava admirado. “Vieira, isso dá um trabalho bonito! A gente vai ter que fazer um disco”. Depois Zeca Baleiro entrou na jogada também. O disco que eu fiz [Antoniologia Vieira] foi primeiro,mas o show [O samba é bom, produzido por Zeca Baleiro, disco gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo] foi primeiro a ser apresentado. Isso foi por volta de 2000. O Regional Tira-Teima já tinha acabado em 1984 por que Ubiratan foi embora daqui, se mudou para São Paulo. O Regional acabou com essa formação.

De onde vem o nome Tira-Teima? Tira-Teima é uma música de Ubiratan. É como se fosse um desafio para alguma música. É uma música muito bonita, inclusive nós tocávamos no grupo, entre outras. O Regional acabou em 1984, mais ou menos, mas a gente se encontrava sempre que podíamos.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Por que você não tocou em Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão? Eu ia tocar nesse disco, só tem que no dia da gravação [o disco foi gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro] nasceu o Bruno, meu primeiro filho, artista, dublador de filmes e Analista de Sistemas, hoje residindo no Rio de Janeiro.

Além do Conjunto Marista e do Tira-Teima, de que outros grupos musicais você participou? A gente montou um grupo de bossa e jazz, eu no piano, Luiz Cláudio [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de junho de 2014] na percussão, Paulo Lima no baixo e Athos [Lima], filho dele [Paulo], na guitarra. O baterista era Celso Raposo, o mesmo do conjunto Marista. O grupo se apresentou em vários eventos sociais. Depois Paulo Lima saiu e entrou Antonio Paiva. Esse grupo tinha uma das melhores cantoras do Maranhão, que eu considero até hoje e pouca gente conhece: Lúcia Faria. É a Leny Andrade do Maranhão! Ela cantou muito por muito tempo no Rio de Janeiro, acompanhada por grandes pianistas, dentre eles Luiz Eça. Depois nós montamos o Quarteto Insensatez. A formação inicial sou eu no piano, Luiz Mochel [cantor], voz, [Arlindo] Pipiu no contrabaixo acústico e Arlindo Carvalho na bateria. Depois Pipiu se ocupou com o seu estúdio, aí entrou o Antonio Paiva no lugar dele, alternando com Pedro Duarte [contrabaixista e saxofonista]. Estamos fazendo diversos shows com a integração de Milla Camões e participação de Marina Vasconcelos [cantoras].

E como está a atividade musical hoje? O Insensatez a partir de agosto, setembro, voltará às suas atividades musicais. Tive participação especial como pianista em oito músicas no show do Marconi [Rezende, cantor], o último, [celebrando os] 70 anos de Chico Buarque, um show maravilhoso no Barulhinho Bom, muita gente, jovem, inclusive. Já estou começando a preparar um novo show, provavelmente em agosto, de Roberto Rafa [cantor e compositor]. Estudamos juntos no Marista, já fiz dois shows com ele, depois que ele retornou, ele passou 20 anos em Brasília. Em 2012 tocamos no Teatro Arthur Azevedo, depois na sede da Caixa Econômica [a APCEF, Associação do Pessoal da Caixa].

Além de multi-instrumentista você desempenha outras funções na música? Faço arranjos e componho temas. Depois que sair aposentado como professor da Universidade Federal do Maranhão pretendo começar a gravar os meus discos, com convidados, a maior parte de músicas de maranhenses. Aqui nós temos belas canções. Uma música que eu quero gravar, chama-se Fuga e Anti-fuga, de Sérgio Habibe. É lindíssima! Já mostrei para ele o arranjo que fiz no piano. Pretendo também incluir nesses trabalhos, músicas de Marcelo Carvalho, Tutuca, Ubiratan Sousa, Giordano Mochel, Luiz Reis e Tânia Maria, dentre outros compositores maranhenses.

Quem são os instrumentistas, no piano e no bandolim, que te chamam a atenção, hoje? No piano, Gilson Peranzzetta, César Camargo Mariano, Francis Hime, Cristovão Bastos. No bandolim, Jacob foi o mestre, Hamilton de Holanda, Déo Rian e admiro demais o Joel Nascimento.

No piano você dá mais ênfase à bossa; no bandolim, ao choro. O que significa essa música para você? Pra mim o choro é o Brasil. A bossa nova já é uma mistura que vem dos Estados Unidos, com o jazz misturado com o samba, com aquela batida atravessada. Mas no bandolim eu não toco só choro, eu toco música popular brasileira.

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

Gildomar Marinho lançará dois discos em 2015

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Fortaleza – Numa conexão em Fortaleza/CE, a caminho do Recife/PE, marquei com o amigo e compositor Gildomar Marinho. Entre alguns chopes, no tempo curto entre um avião e outro, ele revelou estar gravando nada menos que dois discos, ambos com previsão de lançamento ainda este ano.

“São dois trabalhos bastante distintos, Porta sentidos e Mar do Gil. O primeiro deve ser lançado apenas em vinil, em tiragem limitada”, contou-me, ainda com dúvidas sobre o assunto. Mas ambos, a exemplos dos outros três discos de Gildomar lançados até aqui, devem ser disponibilizados para download.

Sem previsão de visitar a terra natal, o Maranhão acabou não sendo palco dos lançamentos de Tocantes e Pedra de Cantaria, apesar de shows bissextos, a exemplo do Salão do Livro de Imperatriz e no L’Apero, em São Luís. Olho de boi, o disco de estreia, foi lançado no Teatro João do Vale. Gildomar revela, no entanto, à vontade de se apresentar mais por estas bandas.

Gravados no estúdio Som do Mar, em Fortaleza, os discos novos têm direção musical do percussionista Hoto Jr. Nos repertórios, completamente autorais e inéditos, parcerias com o radialista Ricarte Almeida Santos, o poeta arariense Ely Cruz e com este que vos perturba.

“Já vendi um carro”, revelou-me, sem perder o senso de humor, a fonte de financiamento da gravação dos discos. Gildomar deve recorrer ao financiamento coletivo para as etapas de mixagem, masterização, prensagem e lançamento.

Chorografia do Maranhão: Nonatinho

[O Imparcial, 6 de julho de 2014]

Natural de Penalva, professor da Escola de Música e pandeirista do Instrumental Pixinguinha, o percussionista Nonatinho é o 35º. Entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Raimundo Nonato Soeiro Oliveira aparentava certa timidez quando a chororreportagem o encontrou na porta da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Carregando o case com o pandeiro, o músico convida o primeiro chororrepórter a entrar e sentar. A tevê da recepção transmite Bélgica e Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e instrumentista e entrevistador dividem educadamente as atenções entre a partida e a conversa – não necessariamente nessa ordem.

No papo, Nonatinho, como é mais conhecido o percussionista do Instrumental Pixinguinha, professor da EMEM há 12 anos, revela ter lido algumas edições anteriores da série Chorografia do Maranhão, cuja 35ª. edição traria seu depoimento. O chororrepórter tranquiliza-o contando causos de entrevistas anteriores, informando-lhe que a conversa tem um caráter completamente informal.

Mas o penalvense nascido em 9 de julho de 1967 já parecia ter perdido totalmente a timidez. Com a chegada do restante do time, diga-se, o outro chororrepórter e o chorofotógrafo, o professor conduziu todos ao salão Leny Cotrim Nagy, o mesmo em que a série conversou com Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], seu colega de Escola e Pixinguinha.

Filho de José Oliveira, comerciante e músico, e da dona de casa Maria José Soeiro Oliveira, Nonatinho é o único homem entre os cinco filhos. Já apresentou monografia ao curso de graduação em Música da Universidade Federal do Maranhão. “Estou concluindo uns créditos que fiquei devendo”, disse ele, que pretende publicar o trabalho.

No dia seguinte à entrevista, pelo chat do facebook, ele complementou-a, destacando a importância da série e de Deus – é evangélico – em sua vida: “Hoje sou evangélico e tudo o que faço me sinto na obrigação de agradecer a Deus. Inclusive por um bom período atuei como ministro de louvor. Não fiz isso na entrevista. Como esse é um registro que vai permanecer na história do nosso estado não gostaria de perder a oportunidade de falar dEle”, registrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Teu pai sustentava a família com música? Eu não sei dizer. A partir de quando eu tinha uns cinco anos, ele sustentava com um comércio. Quando se desfez a história dos conjuntos, cada colega procurou seu rumo, uns foram ser alfaiates, sapateiros, comerciantes. Ele foi ser comerciante e também trabalhar numa terra herdada, ele foi tomar conta. Ele ainda chegou a trazer algum sustento, mas em épocas festivas, carnaval, ele parava o comércio para se dedicar um pouco à música. A vida dele era basicamente isso, ele gostava muito de pescar, chamava o pessoal, passava três dias, vinha, tudo ele comercializava.

Você lembra, na infância, de como era a atmosfera musical em tua casa? O que se ouvia? Geralmente essas festas que ele fazia eram de promessa. Ele gostava muito de fazer o Baile de São Gonçalo, tambor de crioula. Sempre que ele fazia, ele fazia o barraco ao lado e fazia o baile. Eu ouvia o que as bandas tocavam na época, forró, sempre instrumental, não tinha nada cantado, marchas. Depois eles começaram a tocar a própria discoteca [a disco music], imitando as radiolas.

Você acha que o fato de seu pai ser baterista e percussionista influenciou no teu fazer musical ou você só veio se interessar por isso depois? Essa influência foi total. A minha mãe tinha um problema muito sério, os primeiros filhos dela, ou ela abortava ou, quando nascia, geralmente com dois anos, no máximo, morriam. Eu sou de um grupo que entre três, um morria, dentre esses três eu escapei. Eu via que meu pai lutava muito comigo nesse sentido, de me mostrar as coisas, me mostrar a vida. Quando eu me entendi ele me levava pra festa, eu tava o tempo todo do lado dele. Quando ele ia tocar fora, ele levava, ele tinha a preocupação de tentar passar. Quando a festa ia ser lá, os colegas dele deixavam os instrumentos, então o meu brinquedo passou a ser esses instrumentos. Às vezes na própria quitanda ele montava a bateria e ficava tocando, o pessoal gostava de vê-lo tocando, e ele tocava muito bem, diziam isso. Hoje essa coisa de apreciar, de ver músico tocar, de ver performance, vai muito [da herança] dele. Depois, passado um tempo, ele viu que eu precisava estudar, eu tive que ir para a cidade, Penalva.

Você morava num povoado. Como era o nome? Bom Jesus, que era [onde ficava] a terra dele com os três irmãos.

Essa lembrança de você ir para festas acompanhando teu pai, você tem desde que idade? Acho que aos oito anos. É aquela coisa de garoto que vai sendo levado e de repente está ali envolvido.

Então sempre houve apoio por parte de teus pais para que você seguisse o ofício da música? Sim, da parte do meu pai. A minha mãe não gostava muito, pela própria questão, pra ela não era uma profissão, não trouxe muita coisa para ela, mesmo como esposa, tanto que quando ela viu que eu queria estudar música, ela disse “será que tu vai seguir o mesmo caminho do teu pai?”, aquela coisa. Ele mesmo, por essa questão de não ter aquele sucesso, dizia “vai depender de você, você tem outras opções”. Ele tinha um filho do primeiro casamento, esse filho fez concurso para a marinha, era enfermeiro, vivia bem. E ele vivia me apontando: “olha, segue o exemplo de teu irmão, teu irmão tá bem”. A vontade dele mesmo era que eu fosse militar.

Você chegou a tocar com ele nessas festas? Não cheguei a tocar. Cheguei a dar umas canjas, ele me botava, em determinado momento, ele dizia “olha meu filho aí”, e os músicos gostavam, ficavam elogiando.

Você tocava o quê? Pandeiro? Bateria. Tem uma coisa interessante que eu acho que marcou muito, era um senhor que tocava sempre do lado dele, muito bem. Ele ia muito lá pra casa, era muito amigo de meu pai. Quando era festa ele era o primeiro a chegar. Não consigo lembrar [o nome dele], eu era muito garoto. Eu lembro dessa pessoa, tocava muito bem, ele tinha uma forma, meu pai dizia [que ele] “jogava muito bem”. Ele não falava tocar, falava jogar.

Você chegou a estudar música em Penalva ou só depois de vir à São Luís? Quando eu saí de lá, eu perdi totalmente o contato com música. Fui mesmo [para a sede de Penalva] para estudar, morar com um padrinho, foi mesmo a questão de estudo, não tive mais oportunidade. Mas eu ficava assim, aquela coisa tava dentro do sangue. Quando eu saía do colégio, no meu caminho tinha uma casa que tinha um conjunto, eles ensaiavam. Às vezes eu saía da escola e ficava ali em frente ouvindo. Mas também não passava daquilo, não cheguei a me aproximar. Passei aquele tempo todo mais dedicado aos estudos, recuperar o tempo perdido. Eu só fui estudar mesmo a partir dos nove anos. Lá no interior as escolas não tinham muita base. Aí perdi totalmente o contato. Ele [seu pai] também deixou mais de fazer festa. Com 14 anos eu voltei pra lá [para o povoado Bom Jesus], e já fui ter outra vida, na roça mesmo. Passei aquela fase de adolescência, que eu não queria mais ficar, queria voltar para casa [dos pais]. Só vim retomar [o contato com música] quando eu vim pra cá [para São Luís].

Quando é que você veio para cá? Eu vim com 17 anos. A oportunidade que eu tive de vir para cá para São Luís foi o seguinte: na época tinha uma juíza, ela ia medir as terras e papai pegou amizade com essa juíza e um advogado. Uma dessas vezes, eu indo para lá, levar alguns documentos, ela disse: “rapaz, tu não quer ir para São Luís? Não quer trabalhar lá em casa? Você pode trabalhar de vigia, estou precisando de alguém”, ela vivia procurando. Eu disse “olha, vou falar com meu pai, se ele aceitar…” Aí fui falar com ele, ele disse “tu que sabe”. Quando ele disse “tu que sabe”, no outro dia eu já estava lá com a bolsa e foi uma nova fase. Eu via a possibilidade de retomar meus estudos. Mas não pensando na questão musical.

Você disse que passou um tempo afastado da música. Você chegou a ter outra formação, que não a musical? Não, só trabalhando lá mesmo. A princípio foi como vigia mesmo, depois eu comecei a trabalhar com documentos, levava documentos no tribunal eleitoral, ela era juíza eleitoral. Eu fiquei como uma pessoa de ir resolvendo as coisas, e morando na casa dela.

E a partir de quando você se interessou novamente pela música? Outra coisa interessante. Eu já estava querendo trabalhar, arrumar outro tipo de trabalho, procurar uma independência maior, até em termos de moradia, ajudar os pais. Aí um dia eu vi no jornal um anúncio que um escritório estava precisando de pessoas. Eu peguei o dinheiro, sempre fui de guardar, aí saí para comprar uma beca bacana, calça social, sapato social, para ir ao escritório. Na época era a Mesbla [extinta loja de departamentos], era ali na Rua Grande. Quando eu chego lá, eu não sei por que, no segundo andar, bem na prateleira, a primeira coisa que deu na vista foi um pandeiro, um pandeirinho vermelho. A princípio eu pensei que era decoração. Uma loja de roupa, vendia outras coisas, estava lá. Chamei o vendedor: “vem cá, esse instrumento aí está à venda?” Aí ele deu o valor. O que vocês acham? Eu comprei a roupa ou o pandeiro? [risos]. Comprei o pandeiro!

Aí você nem foi ao escritório? Nem fui. Aí depois bateu a depressão. O quê que eu vou fazer com isso? Aí era época de eleição, nessa época os candidatos pegavam os ônibus, levavam o povo em caravanas para votar. Eu fui numa, levei o pandeiro. Quando o ônibus parou bem em frente à casa de meu tio, sempre muito rígido, da Sucam [a extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão do governo federal], mandava estudar, queria ver as coisas melhores. Quando ele me viu chegar com o instrumento, que eu fui cumprimentá-lo, ele disse: “ah, tu tá nessa bagunça?” Depois eu fui à casa de meu pai, pensei que ele também ia falar algo, ele disse: “agora você vai ser um músico, comprou seu instrumento”. Aquilo foi tão forte em mim que eu disse “rapaz, agora eu vou estudar”. Foi um incentivo. Voltei para São Luís, mas sem saber onde estudar, onde procurar. Um belo dia eu vi um jornal falando da Rita Ribeiro [cantora, hoje Rita Beneditto], foi quando eu soube que havia uma escola de música. Eu guardei esse jornal, já estava no Liceu Maranhense. E com esse pandeirinho já comecei a formar grupos, a gente fazia apresentações, mas já de olho na Escola [de Música]. Comecei primeiro no Liceu. Quando foi em 1992, eu passando por acaso na Rua de Santo Antonio, ouvi o som dos instrumentos, “ah, é aqui que é a Escola”. Foi uma entrada para nunca mais sair.

Quem te recebeu? Eu fiz o teste com Raimundo Luiz [bandolinista, hoje diretor da EMEM, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013] e tudo aconteceu muito rápido, por que eu já tinha essa experiência do interior, com o pai com banda. Eu comecei logo a participar de grupos. Meus primeiros parceiros foram a Java, que hoje está na Paraíba, é professora de sax, o Fernando, foi professor aqui, hoje está em Brasília. Começamos a nos apresentar no auditório.

Você entrou [na EMEM] para estudar percussão? Bateria. Havia uma bateria que ficava lá no mirante e ninguém usava. Havia um grupo de jazz, eu me entrosei com eles e comecei. Depois eu entrei nos grupos, tipo Big Band, depois Metal e Cia. Como eu já estava no Metal e Cia. com [Antonio] Padilha, foram contratados Rogério [Leitão, baterista] e Jeca [percussionista] e eu comecei a ter aulas com eles. O Jeca mais, o Rogério me influenciou muito na coisa da leitura, ele sempre estava pelos corredores lendo, com métodos.

Como é que o Instrumental Pixinguinha surge nessa história? Eu costumava ver o Instrumental ensaiando, as apresentações, mas eram só professores, na época. Eram [os instrumentos de] cordas, Garrincha [baterista] e Lazico [Lázaro Pereira, percussionista]. Me chamava a atenção, mas não me interessava na época, por que meu trabalho era a Big Band, o Metal e algumas coisas de MPB, eu comecei com Shirley, é uma cantora de coral, que resolveu cantar em algumas salas. Foram as primeiras apresentações que eu fiz fora, fizemos no DAC [o Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], éramos eu, Nonato Privado [violonista] e ela. Eu tinha vontade [de tocar no Instrumental Pixinguinha], mas tinha muito receio, pois tinha-os como mestres. Marcelo [Moreira, violonista], Lazico, eu considerava muito bom no pandeiro, “será que eu vou conseguir tocar?” Quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília, fazer um curso de verão, eu me entrosei com a turma, Marcelo, Raimundo, e eles “vamos ali, tem uma turma de choro e tal”. Na época eu andava com um pandeiro 12 [polegadas], a turma se reunia lá, mas não tinha pandeirista. Eu cheguei com o pandeiro, comecei a tocar, eu sem saber com quem eu estava tocando [risos]. A gente passou 15 dias lá fazendo o curso de verão. Depois Raimundo chegou e disse assim: “rapaz, tu sabe quem tá tocando aí?” Eu: “quem?” E ele: “Henrique Cazes [cavaquinista]” Aí foi que caiu a ficha! Quando foi no outro dia, o pessoal se reunia, sempre muito brincalhões, um deles: “e aí, pandeiro? Vai hoje?” Aí aquela música começou a entrar. Eu sempre fui um cara muito inseguro, às vezes eu sabia que tinha aquela coisa dentro de mim, mas não sabia se eu queria ser músico. E entra outra figura, do interior, um senhor que sempre me deu muita força, falava de meu pai, dizia “olha, você vai ser um grande músico”, me incentivava. Uma vez eu organizei lá a questão do 7 de setembro [as comemorações alusivas ao Dia da Independência do Brasil] e ele se empolgou muito com isso, eu sempre gostei de participar das bandinhas, tocando tarol. Certo dia a gente tocando lá, eu vi esse senhor assistindo, montado no cavalo. Quando eu olhei para ele, o vi com aquele sorriso, como quem diz “eu não disse?” E por incrível que pareça, quando eu cheguei em Brasília me veio essa figura. Aí bateu o medo, mas eu lembrei dele dizendo “você consegue, você é capaz”. Quando eu voltei eu sabia que era o caminho que eu queria. Comecei a acompanhar o Pixinguinha onde eles iam, nos bares, na praia. Aí eu procurei ver uma oportunidade de estar dando canjas, pedia pra Lazico, nas primeiras oportunidades que não dava para Lazico eu já estava lá tocando.

Teu interesse por choro começa com esse curso de verão em Brasília ou já existia antes alguma relação tua com essa música? Eu acho que começa lá, quando eu vi os mestres, a forma como os vi tocando, eu me encantei. Foi muito forte. Raimundo ainda me levou, a gente saiu, e numa dessas, tinha acabado um concerto, “vamos ali que o cara vai estar lá”, o Henrique Cazes. Ficamos nós três, eu gravei a conversa toda, até hoje eu tenho pena dessa fita, que eu perdi. Só eu, ele e Raimundo. Ele começou a falar de Pixinguinha, do choro, de várias pessoas, contou várias histórias.

O Cazes, então, teve um papel importante nessa tua aproximação com o choro. Isso, com certeza!

Além do Pixinguinha, da Big Band e do Metal e Cia., você participou de outros grupos musicais? Não. Depois eu comecei a fazer uns trabalhos com [a cantora] Rosa Reis e MPB, bares, acompanhando cantores, comecei a ser conhecido. Até hoje toco com [a cantora] Laura Lobato, principalmente confraternizações, casamentos. Chegamos a tocar uma temporada num shopping, outra no Zanzibar [bar na Av. Litorânea, extinto] na época.

Você também fez o caminho de entrar na Escola como aluno e depois se tornou professor. Como é que se deu essa transição? Como foi que você se tornou professor da Escola? Exato! Professor eu só vim ser de fato quando eu entrei como concursado, em 2000. Eu sempre estive por ali, participando com os grupos. O Mestre Tomaz me levou para o Convento das Mercês, estavam iniciando um trabalho com os meninos, tinha uns meninos de percussão, ele era o maestro da banda, e eu fui, estava precisando. Foi o meu primeiro trabalho como professor, carteira assinada. Quando eu vinha do Convento das Mercês pra Escola de Música na Rua de Santo Antonio, eu passava aqui atrás [nos fundos da EMEM, na Rua do Giz], era a época em que estavam reformando este prédio. E eu dizia para mim mesmo que quando a escola viesse pra cá, eu tinha que ser professor aqui, meio que profetizava que ia ser professor. Era meu caminho todos os dias. Meus colegas também haviam se tornado professores, Fernando, Java, eles me incentivavam muito. Depois teve outra oportunidade, eu fui para Curitiba. Lá eu conheci o Bolão [Oscar Bolão, baterista e percussionista], já foi totalmente divisor de águas. Também tive a oportunidade de conhecer o Luiz Otávio Braga [violonista], um cara muito bacana mesmo! Dei sorte de chegar nos lugares e não ter pandeiro, “ah, você é pandeirista, chega aqui”. Aí teve o concurso, quando eu vim de lá eu já vim pensando, comecei a me preparar. Eu tava numa fase, ou seria professor ou ia desistir de música, foi uma fase complicada. Todo mundo estava buscando uma, digamos, estabilidade.

Você participou de um capítulo muito importante da música do Maranhão, que foi a gravação do disco do Instrumental Pixinguinha [Choros Maranhenses, 2005], o primeiro disco exclusivamente de choro gravado por aqui. O que isso significou para você? Pra mim, na época, foi oportunidade. De estar registrando um trabalho, era o primeiro cd maranhense de choro, de compositores maranhenses. Na época eu não sei se eu tinha noção do que eu estava fazendo, da importância. Hoje eu vejo isso. Foi um momento muito importante pra gente.

Quase 10 anos depois do lançamento do disco de vocês, os membros do Pixinguinha têm conversado, pensado sobre o lançamento do segundo cd? Tem-se pensado, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tem falado. Teve uma fase que eu tava meio, “rapaz, tu está no Pixinguinha, não tá, como é?”. Cada um estava para um lado, independente, fazendo trabalhos. Sempre que tem um projeto é preciso reunir, o disco está ainda mais como um projeto, pelo menos para mim.

Você relatou que o choro veio depois do curso de verão em Brasília. Hoje você se considera um chorão? Pergunta difícil! [risos]. Primeiro eu teria que saber o que é um chorão, o que é ser chorão. Por que hoje na verdade eu faço de tudo, eu toco de tudo. Pra ser chorão, seria um cara que está participando de todos os movimentos, tudo o que é movimento estar lá, participando ativamente. Eu sou um músico que adquiri habilidades de tocar em qualquer estilo. Eu toco em big band, orquestra de jazz, MPB. Mas tenho um respeito muito grande pelo choro, foi onde encontrei maior oportunidade de trabalho. Como músico, foi o choro que me deu isso. Eu sempre tive medo do rótulo. Tipo: se o cara é roqueiro, ele pode tocar samba, mas ninguém vai chamá-lo para tocar, por que acha que ele só sabe tocar aquilo.

Qual a importância do choro? É uma música nossa, talvez onde a gente possa ter tudo o que a gente precisa para se desenvolver como músico. Em todas as áreas. Para desenvolver os ouvidos, você vai ouvir as mais lindas melodias, as mais lindas harmonias criadas, deixadas aí, permanecendo por mais de século, música com qualidade. O choro é uma escola. Todo músico, dentro do Brasil, que quer ser músico, tem que passar pelo choro. É uma fonte, uma fonte que hoje está vindo gente de todo lugar do mundo querendo beber dessa fonte.

Se ela é tudo isso, por que ter medo de se assumir como chorão? Exatamente por isso! [risos]

O choro praticado no Rio tem como base rítmica o samba. A ida dos nordestinos para o Rio de Janeiro levou outros ritmos que foram incorporados nas rodas de choro, como o baião, o calango, o frevo. Você acha que os ritmos do Maranhão, tão ricos e tão plurais, podem ser incorporados nas rodas de choro? Com certeza! Se você observar no disco do Instrumental Pixinguinha, tem uma levada naquela música [Candiru, faixa que abre o disco] do Zezé Alves [parceria com Omar Cutrim] que tem uma levada de lelê [imita com a boca a batida do pandeiro].

Mas isso ainda é muito tímido por aqui. É. O choro é uma música muito aberta, cabe tudo o que você colocar. Você pode botar o maracatu, o samba, o baião, ele pega de tudo. O choro na verdade é uma forma de tocar. Falta se assumir, “esse é meu ritmo” e colocar lá.

Raimundo Carrero e a obsessão pela literatura

O senhor agora vai mudar de corpo. Capa. Reprodução

O senhor agora vai mudar de corpo [Record, 2015, 111 p.], a frase-título abre o novo livro do pernambucano Raimundo Carrero, em que ele narra as aventuras da internação após um acidente vascular cerebral.

A ficção baseada em experiência real – o autor sofreu um AVC que o deixou com o lado esquerdo do corpo paralisado – remonta a amizade de Carrero com o escritor Ariano Suassuna e sua relação com o Movimento Armorial.

Uma das obsessões do Escritor é Dostoievsky, um dos autores de sua predileção, e a literatura como um todo. Outras referências aparecem ao longo do texto, como Kafka, que justifica mesmo o suicídio de um amigo-personagem.

Escrita em terceira pessoa, a novela apresenta como principal obsessão do autor-protagonista o corpo e suas relações – Cristo, sombras, fezes, luz etc. –, que dão nome aos capítulos (cenas) e as inevitáveis consequências da velhice, diante das dúvidas cruéis pós-AVC: conseguirá o Escritor continuar escrevendo? Estará ficando abobalhado? Tem motivos para temer a morte? À noite as aranhas tecem a negra mortalha com que será conduzido para a morada eterna, pensa.

Perguntas e pensamentos que povoam a cabeça do protagonista, sempre acompanhado de sua esposa, médica, em quem tem plena confiança, com quem dialoga permanentemente buscando a calma e o equilíbrio necessários para superar a situação – fora da literatura, Carrero ainda busca a cura completa.

“O corpo é a única certeza que nos acompanha desde o nascimento até a morte”, a justificada epígrafe de Clarice Lispector. No caso de Raimundo Carrero o corpo é a própria literatura.

Ian Ramil mostra personalidade e talento em disco de estreia

Ian. Capa. Reprodução

 

A música está no DNA de Ian Ramil. Filho de Vitor Ramil, sobrinho de Kleiton e Kledir, ele consegue mostrar uma voz própria em seu disco de estreia, assinado simplesmente Ian [2014], completamente autoral – a dispensa do sobrenome no título do álbum talvez seja uma tentativa de minimizar a responsabilidade pela herança da família musical.

O álbum tem produção de Matias Cella, que pilota vários instrumentos – contrabaixo, ukelele, guitarra, escaleta, violão, bongô. Outro instrumentista que comparece é o percussionista Marcos Suzano – que dividiu um disco, Satolep sambatown (2007), com o pai do estreante. O próprio Ian Ramil toca violão, guitarra e cuatro – espécie de violão de quatro cordas, originário da Venezuela, popular em alguns países da América latina. A voz do tio Kleiton pode ser ouvida em duas faixas, nos coros de Rota e Over and over.

Ao contrário do pai, que em discos como délibáb (2010) e Foi no mês que vem (2013), aproxima-se de países e artistas vizinhos, Ian Ramil canta em português e inglês, aproximando-se, em determinados momentos, de nomes como os mato-grossenses do Vanguart. Ian foi gravado em Buenos Aires e vem embalado em belo projeto gráfico de Virgílio Neto.

Outras influências, ele confessa no encarte do disco: Beatles em Nescafé (“Eu cuspo nescafé/ e você chora leite de manhã/ amarro o meu sapato/ e tu veste o sutiã/ (…)/ cadê o nosso amor? me diz onde/ vou correndo pegar o bonde/ que linha liga o teu coração ao meu?”) e Jorge Ben (assim mesmo, sem o Jor posterior) em Entre o cume e o pé (“eu já não sou infantil/ só quando eu quero/ quando convém eu brinco e pulo/ se desconvém eu sério”).

Transe aborda o amor entre metáforas gastronômicas e geográficas (“que que eu faço?/ me afogo em ti!/ eu posso logo ser um peixe?/ ou quer primeiro um puta barco de sushi?/ me diz pra gente se entender/ te pego em casa e digo: linda eu vejo o sol no teu olhar/ só pra nadar a noite nesse rio”) em faixa pontuada pela tuba de Santiago Castellani.

Entre o serrote de Diego Galaz e a guitarra de Ian Ramil, o personagem de Ímã ralo equilibra-se entre dois extremos: “às vezes ele pensa que é um ímã/ é que todo o mundo parece que quer colar/ em outras ele acha que é o ralo/ onde aquele mundo todo quer escoar/ (…)/ a personalidade desse cara é uma piada/ atraindo e escoando o que ele é”, diz a letra. Nela, Ian explora algumas possibilidades vocais, ele mesmo equilibrando-se entre a aproximação ou o distanciamento do conforto oferecido pelo sobrenome da família. Personalidade e talento ele prova ter de sobra neste consistente disco de estreia.

Confiram Ian Ramil em Suvenir.

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

Um show de responsa: vai chover pedra!

Luciana Simões volta às origens regueiras em show dedicado ao roots; apresentação acontece nesta quinta, no Amsterdam

Divulgação
Divulgação

 

O início da carreira de Luciana Simões remete ao ritmo internacionalmente popularizado por Bob Marley. Ainda menina ela estourou como vocalista da banda maranhense Mystical Roots, que alcançou relativo sucesso fora do estado. O reconhecimento chegou a alçá-la ao posto de vocalista da Natiruts.

Em 2007, com o marido Alê Muniz, lançou o primeiro disco do duo Criolina, formado pelo casal. Dois anos depois foi a vez de Cine Tropical, sucesso de público e crítica, um disco dançante, cujas faixas emulam gêneros cinematográficos.

Enquanto a dupla grava o terceiro disco, Luciana resolveu dar um passeio fora do estúdio e prestar reverência a mestres do gênero a que se dedicou no início da carreira. O nome do show já dá pistas do que será a noite: Bota teu capacete, regueiro. Acompanhada de Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Beavis (teclado), Daniel (trombone) e Hugo Carafunim (trompete), ela desfilará um repertório de clássicos do roots reggae.

O show acontece nesta quinta-feira (9), às 22h, no Amsterdam Music Pub (Lagoa). Os ingressos individuais custam R$ 15,00 (pista) e a mesa para quatro pessoas R$ 80,00. A abertura fica por conta do DJ Misk Brown.

Através de uma rede social, ela conversou com o blogue.

A quantas anda o terceiro disco do duo Criolina? Está em fase de gravação. Em menos de um mês será lançado um EP intitulado Latino americano, com quatro faixas, juntamente com o clipe, captado através do Catarse [site de financiamento coletivo, que arrecadou o dinheiro que viabilizou a realização do clipe], da faixa-título.

Uma das máximas do DJ Neto Miler diz que “reggae é espiritual”. Você concorda com ele? Acredito na espiritualidade que o reggae traz, sim. A música é um veículo condutor das energias. O próprio ritmo já nos convida a mergulhar no íntimo e a expressar nosso contentamento através da dança ou da meditação. A história do reggae na ilha é antiga e cheia de teorias, mas acredito haver uma herança africana que nos atrai para o reggae. Rodei o Brasil cantando reggae e posso dizer que nunca vi essa relação das pessoas com o reggae como vejo aqui em São Luís.

Voltar às origens e ao reggae roots é recarregar as baterias? O que mais você faz para manter as baterias sempre carregadas? Para manter as baterias carregadas tenho que me alimentar do que me desperta interesse. Acho que o olhar curioso me faz ver a beleza das coisas. A música é uma fonte de descobertas que nunca seca. As histórias por trás das músicas também me encantam. O que significa um movimento musical ou uma música [risos].

O que o público pode esperar desta tua apresentação solo, em termos de repertório e energia? O público pode esperar uma entrega porque a saudade de cantar reggae é grande. O reggae que gosto de ouvir e de cantar vem do rhythm’n blues. É old school. Das antigas. Nem na Jamaica se toca mais. Só aqui mesmo que ouvimos essas pérolas. Artistas como [os cantores jamaicanos] Gregory Isaacs, que nos trouxe o lovers rockers, Hugh Mundell com o dub, Dennis Brown, Alton Ellis, Ken Boothe e tantos outros. Vai ser uma noite de entusiasmo, de recordação, de reencontro. Lancei um post e estou colhendo as músicas que as pessoas querem ouvir [em uma rede social, a cantora recebeu sugestões de fãs para compor o repertório].