Chorografia do Maranhão: João Soeiro

[O Imparcial, 30 de março de 2014]

Professor de violão popular da EMEM e músico de igreja, o violonista João Soeiro é o 29º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.

Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.

Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.

O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.

Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.

Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.

Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.

E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.

Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.

Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.

Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.

Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.

Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.

E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.

Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].

Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.

E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.

Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o show Noel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.

E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.

Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.

Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.

Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.

A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.

Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…

Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.

Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.

Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

5 comentários em “Chorografia do Maranhão: João Soeiro”

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