Chorografia do Maranhão: Domingos Santos

[O Imparcial, 16 de março de 2014]

Violonista sete cordas do Instrumental Pixinguinha, o “miritibano” Domingos Santos é o 28º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando Domingos da Silva Santos nasceu, em 3 de julho de 1955, Miritiba já passara a se chamar Humberto de Campos, em homenagem ao escritor maranhense nascido ali. Miritibano, como se chamavam os que nasciam na cidade, dá nome à faixa de abertura de Choros Maranhenses [2005], disco de estreia do Instrumental Pixinguinha, do qual é titular do violão sete cordas.

O músico deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Sala Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], em que dá aulas na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Filho do saxofonista e comerciante Raimundo Nonato Amaral dos Santos e da dona de casa Maria José da Silva Santos, o músico é bacharel em Geografia, mas nunca atuou na área. “A música bateu mais, não foi preciso andar atrás de emprego, me agarrei com ela”.

A seu lado, dos outros professores da EMEM com que forma o Pixinguinha, e de outros mestres já saudosos, seu falecido pai figura na lista de compositores de Choros Maranhenses. Seu grupo gravou Não se esqueça de mim.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo em casa, familiar, era propício à música? Eu morava numa casa de festa. Papai era músico. Ele tinha uma orquestra que tocava as festas de Humberto de Campos, das redondezas, não era só da cidade. Eram bateria, banjo, tuba, trombone, saxofone, trompete e pandeiro. Tocava a região inteira lá.

E o que se ouvia em casa? Papai tocava choro. Na verdade a gente não tinha nem rádio. A gente só escutava as festas. Mamãe fazia essa festa de Santo Antônio, lá o pessoal amanhecia. Amanhecia tocando choro, cantando.

Teu pai além de tocar era professor de música? Ele deu aulas para alguns lá. Já morreu com 94 anos, até 80 e pouco ainda andou dando aula para uma criançada lá. Nada foi assim pra diante.

A vida dele era só música ou ele tinha outra profissão? Ele tinha um comércio. Lá, Humberto de Campos, era uma região muito pobre, a história é farinha e peixe, só isso [A pedido do flautista Paulinho Oliveira, também professor da EMEM, Domingos Santos conta uma história:]. Eu estudava aqui na Escola de Música, tinha um professor de piano que falava assim pra mim: “rapaz, faz de conta que tu estás pegando uma laranja”. E eu: “rapaz, lá no interior só tem manga” [risos dos chororrepórteres e do entrevistado]. Mamãe fazia remédios caseiros, e comprava remédio em São Luís e revendia lá.

Teu pai era saxofonista? Saxofonista. Tocador mesmo! Lia partitura que era uma beleza. Inclusive quando o Pixinguinha, depois que acabou, a gente fez uma nova formação, eu, Marcelo [Moreira, violonista], Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Paulinho, a gente foi tocar na festa de Cururupu, e ele estava lá e tocou com a gente.

Com que idade você veio para São Luís? Eu vim fazer o ginásio no Liceu, em 1973.

Vocês são quantos irmãos? Nós somos nove. Morreu uma. São quatro homens e cinco mulheres. Aí morreu uma.

Quando teu pai ia fazer festas, você garoto, acompanhava ele nessas festas? Não. Eu vim acompanhar depois, nas rezas lá de casa. Tinha as ladainhas, aí eu passei a tocar. Ele tocava as ladainhas lá com esse grupo. Depois de muito tempo é que eu comecei. Eu tenho a [gravação da] ladainha tocada com eles, com essa formação. A gente estudava música lá em casa e outro dia descobrimos que papai tinha um violão dentro do guarda roupa. Alguém comprou no comércio, não tinha dinheiro para pagar e deu esse violão. E ele tocava um pouco de violão também. Aí ensinou um acorde para outro irmão meu, eu aprendi, ele que já me ensinou. Aí eu comecei a tocar. Passei a tocar no Ginásio Bandeirante, na época, festas de dia das mães, dia das crianças. Lá também funcionou o Clube Alvorada de Leôncio Rodrigues, e ele fazia show de calouros. E eu passei a tocar nesses shows, com 12, 13 anos.

Foi essa a idade com que você começou a tocar em ladainhas? Com 12, 13 anos eu comecei a estudar música com papai. Depois, com uns 13 anos, a gente descobriu que ele tinha um violão, ele sabia um pouco de violão, começou a ensinar pra gente, e a gente começou. Aí passamos a tocar, só de ouvido. Engraçado que o primeiro solo de violão que eu fiz, eu aprendi com minha vó, que tocava violão. Meu avô também tocava, a parte materna toda tocava.

Você vindo dessa linhagem musical, teu filho seguiu na música? Meu filho mora com a mãe dele, não mora aqui. A gente inclusive tem pouco contato.

Você vindo dessa tradição de família musical, seu pai tocava sax. Como é que você optou pelo violão? É por que todo mundo lá em casa tocava um pouquinho. Foi a época em que eu vim para cá para São Luís. Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] morava na casa da minha tia, na Rua do Ribeirão [Centro], era muito amigo de Viriato Gaspar [poeta maranhense radicado em Brasília], que é meu primo. Em 1981 eu vim estudar na Escola de Música. Aí eu participei em 1985 do Festival Viva [de Música Popular do Maranhão], Fátima Passarinho, que tem esse nome por causa da música [Canto de Passarinho]. Na época Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva] botou como se fosse minha e do irmão dele, ele participou com várias músicas e só podia parece que duas [pelo regulamento]. É minha e de Gerô, poucas pessoas sabem disso. Inclusive a gente participou de festival na UFMA, há poucos dias eu estava folheando uma revista e olhei uma música, minha e de Gerô, que eu nem sei como é, a melodia eu não lembro.

Essa música que Fátima [Passarinho] defendeu no [Festival] Viva, você tocou? Toquei no Festival. Na gravação é [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu que toca.

Quem foram teus principais mestres? De música foi papai. Partitura musical. Mas professor de violão mesmo foi Marcelo. Só tinha ele na Escola de Música quando eu cheguei.

Quando você deu o salto do seis cordas para o sete cordas? Foi uma necessidade. O Instrumental Pixinguinha, na primeira formação, era Carbrasa [percussionista], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Marcelo, eu, Paulinho [flautista] e [o bandolinista César] Jansen. Era a primeira formação, ensaiamos seis meses para tocarmos dois shows [a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, maestro e compositor gaúcho]. Depois teve a gravação do disco de Rosa Reis, Estrela, música de Joãozinho [Ribeiro, compositor]. Aí começou uma história que Marcelo disse que o bandolim de Jansen estava desafinado, a flauta de Paulinho estava desafinada, tinha que refazer. Aí Jansen entregou a partitura dele para Marcelo. Inclusive Marcelo fez no violão a parte do bandolim nessa gravação de Estrela. Ah, esqueci do nome de Biné [do Cavaco], tocava cavaquinho. Aí acabou o grupo. Paulinho não foi refazer, Rosemary [Fontoura, pianista] fez no teclado, Jansen não foi refazer, Marcelo fez no violão.

Quem é o grande violonista que mais te inspira? Eu, na verdade, passava o ano todo esperando Turíbio e João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] virem tocar aqui. Eram só eles quem tocavam aqui. Eu não conhecia outra pessoa. Tudo o que eu aprendi de violão foi com Marcelo. Marcelo é um cara… mas eu fiz curso com João Pedro, com Joaquim, com Turíbio, e viajei. Eu fiz cursos em Londrina, em Brasília, com Eustáquio Grilo, aqueles cursos de verão, e Henrique Pinto. E as outras coisas é assistindo mesmo por aqui, o que aparece.

Teu pai, além de músico, instrumentista, mestre de banda, também era compositor. Papai tem cento e poucas músicas. Eu vou editar, até falei com Zezé. É um acervo significativo, muita música. Uma vez eu fui para Pindaré, fui tocar com Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Papai tocava suas próprias músicas em festas. Ele tocava forró, tocava samba. O pai de Osmar [José Furtado, saxofonista] passou uma meia hora tocando uma música. Aí ele perguntou: “e o senhor não termina essa música?” Aí ele disse: “não, rapaz, acabou a música e eu fui inventando”. Outro dia Maurício Carrilho [violonista] veio aqui e disse que Pixinguinha fazia isso. As músicas tinham a primeira, a segunda e a terceira parte, e geralmente ele improvisava outra música. Papai faliu o comércio dele por que ele levava músicos para lá e ficavam tocando, eles tocavam dentro do comércio, faliu o comércio dele. As primeiras pessoas com quem eu toquei, aqui em São Luís, na noite, foi com Hamilton Rayol [cantor] e Antônio Vieira [compositor e percussionista]. Eu estudava com Hamilton na Escola de Música, a gente estudava na mesma turma. Um dia ele me viu tocando violão, Fernando Cafeteira [violonista] viajava e toda vez que ele viajava ele me levava. Era ali no Petisco, que era de Biné [Aranha], ali na Fonte do Ribeirão, tocando acústico.

Que linha predominava na composição de teu pai? Choro. E tinha música que tinha letra, letra dele.

E você compondo? Eu tenho 20 e poucas músicas. Eu faço choro e valsa, não sei fazer outra coisa.

A música de teu pai foi gravada pelo [Instrumental] Pixinguinha. Foi. Não se esqueça de mim. Essa música eu tenho uma gravação antiga, a gente tocando lá em Cururupu, ele mesmo tocando. Papai deixou de tocar por que mamãe morreu. Ele tava com 92 anos, não quis mais viver. Abandonou instrumento, perdeu a vontade de viver.

Dá para viver de música? Eu vivo de música. Eu não preciso de muito dinheiro para viver bem. O dinheiro que eu ganho dá pra viver legal. Eu dou aula aqui [na EMEM], eu dou aula particular, eu toco, não toco mais por que não quero. Carnaval, por exemplo, eu não quero mais tocar.

De que grupos musicais você já participou? O primeiro grupo foi quando eu fazia o bacharelado em Geografia, lá no grupo eu tocava cavaquinho, no Geosamba [risos dos chororrepórteres]. Eu abandonei total o cavaco, hoje em dia eu só pego. Eu participei do Amigos do Samba, do Cacuriá de Dona Teté e do Pixinguinha. Tinha dia que eu tocava nos três grupos no mesmo dia. O em que eu passei mais tempo foi o Pixinguinha.

O que significa esse grupo para você? Significa tudo. Na verdade eu sou o único componente da primeira formação, que fiquei. Tem uma pergunta que eu não respondi, né? O negócio do violão…

Sim, o pulo do violão de seis para o sete cordas. Quando a gente terminou os dois shows, acabou a história da primeira formação. Aí nós tentamos fazer, éramos eu, Zezé, Paulinho e Paulo Akomabu, tocou pandeiro na segunda formação. Sempre foi complicado pandeiro e cavaquinho. Era Athos [Lima] no cavaquinho, mas ele dormia até 12 horas e não tocava de manhã. Depois ele virou roqueiro. Quando a gente ia tocar de manhã, a gente ia sem cavaquinho. Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] também tem essa história. Uma vez eu pedi uma corda do violão sete cordas, Ubiratan mandou um recado por Paulinho. Aí eu liguei para ele, ele dormindo, a mãe dizia que ele não estava. Aí ele me disse: “rapaz, quando tu vier do pagode tu me liga”, era de madrugada, nessa época eu tocava num pagode.

O Pixinguinha já tem mais de 20 anos e demorou bastante a gravar o disco de estreia. Não há vontade do grupo de gravar um segundo disco? Já teve essa ideia, essa história. Nesse livro de Zezé [Choros Maranhenses – Caderno de Partituras, organizado pelo músico] era para ser feito, só que alguns componentes, Juca [do Cavaco], por exemplo, é um cara que não gosta de gravar. Eu não sei por que, ele é um cara que saca muita coisa de choro, é um cara que lê muito.

Além do disco do Pixinguinha e do de Rosa Reis, há outros discos que têm teu sete cordas? Toquei no de Zeca Tocantins [Terreiro de Todo Canto].

O que significa o choro para você? A melhor música brasileira. Eu quando chego em casa, eu não digo que é choro, é a música instrumental. A música instrumental é muito bacana.

Que nomes você admira nesse meio? Eu tenho admiração pelo Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], ontem encontrei-o, fazia tempo que não o via, é um baita dum flautista. Os violões vocês sabem, a primeira vez que eu vi Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] tocar eu fiquei admirado, os baixos que ele faz, não aprendeu com ninguém, aprendeu com Dino [o violonista sete cordas Horondino José da Silva, do Conjunto Época de Ouro]. Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] toca muito bem, Solano. A nossa música instrumental melhorou demais.

Isso deve-se a quê, esse avanço de grau, de qualificação? Ao estudo. Antigamente a gente não via o choro tocado bem aqui. O pessoal só olhava a televisão. Maurício Carrilho está vindo por aqui, sempre, na Escola. A gente conhecer as outras pessoas, a gente aprende olhando os outros tocarem.

Você acha que a internet também contribui para isso? Eu acho que tudo contribui, Youtube, aquela coisa toda.

Você é refratário à tecnologia? Você baixa música? Eu não sou muito da tecnologia, mas eu acho que é importante. Baixo. Até pouco tempo eu não sabia. Eu tenho um sobrinho que é craque, me ensinou.

Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A história do Radamés, aquele divisor, dali pra cá todo mundo passou a estudar. Antigamente era um solista e os outros acompanhando, também é bonito. Eu escuto umas coisas modernas, acho legal, mas o choro, eu quando escuto Vibrações [o disco de Jacob do Bandolim], com aquele [conjunto] Época de Ouro, eu fico arrepiado.

Há quem diga que é o melhor disco de choro da história. É uma das gravações que eu mais gosto, aquela gravação deles. O lado moderno eu acho bonito também, não pode ser todo tempo do mesmo jeito. Sem a tradição o moderno não existiria.

Você se considera, a si e ao Pixinguinha, moderno, tradicional ou as duas coisas? Eu me considero tradicional. Eu quando vou escrever uma música é muito romântico. Hermeto [Pascoal, compositor e multi-instrumentista] durante um ano escreveu uma música por dia. Eu passei um tempo com um caderno de partituras, tinha uma ideia, anotava. Tenho uma porrada de músicas que, se eu quisesse fazer hoje a segunda parte, eu podia fazer.

O que te inspira para compor? Às vezes eu penso numa música, eu acordo, naturalmente. Eu penso num tema e vou desenvolvendo ele. Qualquer coisa.

Como você observa o choro no Maranhão hoje? Se o Clube do Choro não tivesse parado estaria melhor. O projeto Clube do Choro [Recebe] deu um pontapé inicial na história. Se não tivesse, não tinha hoje um monte de garoto tocando choro.

Dessa gurizada quem te chama a atenção? Tem um monte de gente tocando bem. Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013].

Onde o Pixinguinha está tocando hoje? Só aqui na Escola. Temos viajado por projetos da Escola para o interior.

O que você ainda sonha em fazer com a música? Um cd com minhas músicas.

[O músico posa para fotos tocando, com arranjo de choro, Essas emoções, do recém-falecido Donato Alves, do Boi de Axixá] Você acha que o nosso repertório de música popular pode ser chorificado? Pode. Eu mesmo estou procurando isso. Nem tudo poderia virar choro, mas o lado instrumental sim, os arranjos para violão.

Você acha que ajuda o músico de choro tocar música popular e vice-versa? Acho que sim. O instrumentista tem que tocar a música popular. Tem muita música bonita, muita toada de bumba meu boi.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

13 comentários em “Chorografia do Maranhão: Domingos Santos”

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