O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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