Obituário: Moema de Castro Alvim

Dona Moema, clicada pelo blogueiro, durante entrevista que me concedeu em 2006
Dona Moema, clicada pelo blogueiro, durante entrevista que me concedeu em 2006

 

Fui pego de surpresa pela notícia do falecimento da amiga Moema de Castro Alvim (22/8/1942-17/10/2014), professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e sebista. Internada em decorrência de um problema na vesícula, veio a falecer, após 11 dias, vítima de infecção generalizada.

Foram mais de 20 anos de convívio, desde que, ainda menino, mudamos para a Rua de Santaninha (Centro) e comecei a frequentar seu Papiros do Egito, à época localizado na Rua dos Afogados – antes funcionou na Rua do Egito, daí o nome, e hoje está na Rua Sete de Setembro.

Lá adquiri meus primeiros vinis dos Beatles (e depois, grande parte de minhas modestas biblioteca e coleção de discos) e visitá-la era sempre um bom papo, exceto quando acabávamos por enveredar por política e eu silenciava por achar que não valia a pena arranhar a amizade – nascida em Pinheiro, ela admirava o conterrâneo José Sarney como político, no que divergíamos completamente.

Em uma ocasião entrevistei-a para um trabalho de faculdade, um texto para a disciplina Jornalismo em Revista, ministrada pela professoramiga Larissa Leda. Era sobre os sebos de São Luís. A equipe obteve uma boa nota com o trabalho, mas a entrevista que me concedeu dona Moema, como sempre a chamei, é ínfima percentagem do muito que conversamos, sobre tudo, nestas mais de duas décadas de convívio, compras e cadernos de fiado.

Vez por outra ela me apresentava a algum/a cliente e sempre destacava o fato – e só então me dava conta disso – de que eu nunca vendia livros ou discos lá; apenas os comprava.

Sua atividade de sebista começou para fugir de empréstimos sem futuro: aposentada da UFMA, colegas e alunos/as costumavam pedir-lhe livros de sua coleção pessoal, que quase sempre não voltavam. Para evitar aborrecimentos e perdas de amizades, montou o sebo.

Já há algum tempo o Papiros do Egito era somente um hobby, algo para ocupar a cabeça e não sucumbir aos males da idade. Moema partiu aos 72 anos. Ela se indignava com uma equação que não fecha: “nos últimos anos quantas faculdades se abriram em São Luís? E quantas livrarias fecharam?”, perguntou, me fazendo refletir sobre o assunto. Condenava o uso indiscriminado de xerox nos cursos universitários.

Com o movimento fraco do sebo, dedicava-se ultimamente a seu blogue e ao facebook, onde debatia com amigos e admiradores assuntos os mais diversos, de literatura a política, além de comportamento e história. Neste último tema ocupava-se em pesquisar a de sua cidade natal. Diversas vezes me contou entusiasmada de descobertas acerca de fatos e personagens do município da baixada, de cuja Academia de Letras, Artes e Ciências era membro.

O falecimento de dona Moema é dolorido golpe, sobretudo por que prevejo-o duplo: com ela deve morrer também o Papiros do Egito, um dos maiores e mais longevos sebos de São Luís. Sobre isso, espero estar enganado.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

14 comentários em “Obituário: Moema de Castro Alvim”

  1. uma grande perda para nossa cidade foi uma grande amiga com quem pude muitas vezes trocar ideias e informações sobre são luis sobre nossa cultura alem das compras de vinis e livros que eu fazia em seu sebo que foi lugar onde conheci muitos amigos que hoje fazem parte do nosso dia a dia dentro da musica e dos discos de vinil

  2. Lamento não ter tido oportunidade de travar conhecimento com a professora Moema de Castro Alvim. Deixou-me feliz descobrir que tínhamos algo em comum.

  3. Sem. ..palavras. ..muito obrigado. …sou filho dessa grande mulher. …Minha gratidão eterna por lindas palavras. .

  4. pierre, vi você no velório e sepultamento de minha amiga, sua mãe. em momento de grande dor para nós dois, preferi não importuná-lo, receando inclusive que você não lembrasse de mim. falei rapidamente com fransoufer e conversei um pouco com josilene. força, amigo! forte abraço!

  5. Ontem, estava no Sebo Bonanza, olhando uns livros e conversando com a proprietária, quando eu disse que tinha que ir no Sebo da Dona Moema, pois já tinha ido umas quatro vezes e sempre encontrava o estabelecimento fechado, Para a minha triste surpresa, ela comunicou-me sobre o falecimento dessa pessoa, que no pouco tempo de convívio, aprendi a ter um carinho e um respeito enorme. Foi lá que adquiri meus primeiros exemplares de Josué Montello e outras preciosidades. Conhecia há tempos o Sebo Papiros do Egito, mas só no ano de 2013 tive a oportunidade de frequentar com mais assiduidade e conversar com Dona Moema sobre sua carreira como Professora Universitária, sobre o cenário cultural da cidade, sobre Sebos e principalmente, sobre livros. Eu evitava falar também sobre política pois não achava necessidade de discutir um assunto que para mim, é desgastante, mas sobre literatura e sobre as pessoas não darem valor aos livros, isso ela conversava e muito comigo, e aprendi muito nessa conversas. Depois que saí do Sebo Bonanza, descendo a rua do lado da lotérica, que ia em direção à Praia Grande, fiquei pensando como a vida é muito sutil, pois mal temos a sorte de conhecer uma pessoa agradável e rica em conhecimento, e do nada ela vai embora. Fiquei pensando e lembrando daquelas conversas com Dona Moema. A vida é passageira, todos nós sabemos, mas nunca queremos que essa passagem seja rápida… hoje procurando notícias sobre o falecimento dessa pessoa encantadora encontrei sua página. Ela se foi em 2014, e eu semana passada me cobrando quando ia lá novamente pois das últimas vezes que encontrei fechado, achava que tinham vendido, pois já estava à venda a um tempo. Pensei que estava descansando, ou em férias com a família, achei um monte de coisa mas nunca que ela tinha ido pra sempre. O que eu mais vou lembrar de Dona Moema é do jeito simples que ela sempre me atendia e de ver ela sentadinha ali, em frente ao notebook dela, navegando pelas páginas da internet, as mesmas páginas que me confirmaram essa triste notícia que custei a acreditar quando me falaram.

  6. Após todos esses anos soube somente hoje do falecimento de d. Moema. Isso por que​ vim ao cemitério parque da saudade para o enterro de uma amiga e coincidentemente fui descansar na sombra de uma árvore e tive esta triste surpresa ao ler a lápide de seu jazigo. Frequentava o sebo e lembro que certa vez ela me ofereceu até almoço por que passei praticamente o dia inteiro de sábado no sebo lendo diversas obras. Na época estudante e sempre com pouco dinheiro, comprava sempre alguma coisa para compensar todo o conhecimento que adquiria naquele dia. Ela percebia e ficava feliz com a presença de jovens em seu sebo.
    Hoje fica a saudade é saber q aquele belo espaço cultural não existe mais.

    1. grande lindomar! viva moema! o sebo segue abrindo, das 10h às 17h, sob a batuta de josilene, que aprendeu tudo de sebo com dona moema. abraço!

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