Outro talento de Luciana Rabello

Candeia branca. Capa. Reprodução
Candeia branca. Capa. Reprodução

 

Que Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro têm um dos casamentos mais férteis da música brasileira ninguém duvida. Mas parece não haver prova maior que Candeia branca [Acari Records, 2013], seu segundo disco, lançado recentemente pela cavaquinista.

Ela, militante do choro desde menina, quando no início da adolescência dividiu grupo e disco com o irmão Raphael, exímio violonista sete cordas, Os Carioquinhas no Choro (1977). Desde então se tornou uma espécie de guardiã, sacerdotisa, embaixatriz do mais brasileiro de todos os gêneros musicais, sempre muito requisitada, presente em vasto número de fichas técnicas de shows e discos de artistas os mais diversos.

Ele, um dos mais produtivos – se não o mais – compositores do Brasil, dono de lavra que já ultrapassa dois mil títulos, sozinho ou em tantas parcerias, gravado e regravado por diversos nomes, profundo conhecedor do Brasil profundo, versátil como só um craque de tamanho talento pode ser.

Não se poderia esperar outra coisa, pois, de Candeia branca, o disco. Adjetivos não faltam – nem bastam – para classificá-lo: excelente, sublime, único. Das 14 faixas, 13 são assinadas em parceria pela dupla: músicas de Luciana Rabello, letras de Paulo César Pinheiro.

A exceção é Teu amor, apenas dela, dedicada a ele: “Deus quando uniu minha alma à tua/ me deu também de presente a paz/ e a tua poesia traçou o caminho/ pro samba que eu faço/ quem pode ser mais feliz que eu?/ quero viver sempre ao lado teu!”, derrama-se na letra.

A grande novidade é que Luciana Rabello não se limita a tocar cavaquinho (e violão em Luz fria), nem a produzir o disco e/ou cuidar da burocracia da Acari por que lança o disco, a gravadora que dirige com Maurício Carrilho (que toca violão no álbum), o que não seria pouco. A surpresa é que Luciana Rabello solta a voz, para deleite de fãs que já a acompanham há algum tempo e/ou novatos, bem vindos sejam!

O disco abre com um tema batido, a origem do samba, sobre o qual o casal consegue jogar originalidade ao tentar responder a pergunta título da primeira faixa, De onde veio o samba: “Mas de onde é que veio o samba?/ Seu Doutor perguntou:/ Veio do Rio de Janeiro ou Salvador? Eu respondi no contrapé/ Vou lhe dizer de onde é que é/ foi dos quadris de uma mulher/ que veio o samba/ Mas sempre ouvi dizer que o samba…/ Seu Doutor insistiu,/ Veio da África direto pro Brasil/ Eu resolvi dar nome aos bois/ Brasil e África amaram-se os dois/ do casamento é que depois/ nasceu o samba”, teorizam.

Em Candeia branca predominam diversas vertentes de brasilidade: o samba (em diversas variações), o choro (praia da artista, permeia todo o álbum), o maculelê (Seu Catirino) e a ciranda (a faixa-título). Além da parceria do marido, Luciana Rabello é escoltada por velhos parceiros, fiéis escudeiros de trincheira comum: Marcus Thadeu (percussão), Celsinho Silva (percussão), João Lyra (violão, viola), Paulino Dias (percussão), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Glauber Seixas (violão), Cristóvão Bastos (piano e arranjo em Luz fria e Um triste olhar), Pedro Paes (clarinete), Dori Caymmi (violão, voz e arranjo em Flor d’água), Ana Rabello (cavaquinho em Flor d’água) e Oscar Bolão (percussão em Queda de braço), entre outros, além do já citado Maurício Carrilho.

Todas as músicas são inéditas, exceto Enigma, já gravada por Amélia Rabello, irmã de Luciana, em A delicadeza que vem desses sons [Acari Records, 2011]. Mas Candeia branca soa completamente novo, quiçá por nos apresentar esta outra vertente de Luciana Rabello, que agora se mostra competente e talentosa, além de ao cavaquinho, ao microfone.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

8 comentários em “Outro talento de Luciana Rabello”

  1. Obrigada pela boa nova, Zema Ribeiro. Vou pedir ao meu filho para adquirir no Rio. Sou fã de Luciana e do Paulo Cesar.Esse disco é um motivo para aumentar a alegria da vida. Um forte abraço.

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