A divindade (de) Maria Bethânia

 

A palavra quintal nos faz imaginar um grande espaço de chão de terra, talvez algumas árvores, alguns varais com roupas estendidas, vez por outra amigos reunidos em uma farra.

Meus quintais [Biscoito Fino, 2014], disco novo de Maria Bethânia, traduz bem isso. Com os dois pés firmes no chão brasileiro e a voz que vem encantando o país há quase 50 anos, a baiana nos brinda com um disco diverso e bem acabado, um primor, com a qualidade que marca sua produção, em especial a mais recente.

Das 13 faixas – incluindo a extra Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), até então inédita em sua voz e talvez a única que destoe do restante do conjunto – quatro falam em indígenas: Xavante (Chico César), Uma Iara/ Uma perigosa Yara (Adriana Calcanhotto, com texto de Clarice Lispector editado por Bethânia e Fauzi Arap), Povos do Brasil (Leandro Fregonesi) e Arco da Velha Índia (Chico César). Além dos pés fincados no terreiro, a cantora revisita as raízes do Brasil profundo.

Há samba, chula, Folia de Reis (título de uma das quatro músicas de Roque Ferreira que ela grava neste álbum novo), bossa nova e uma emocionante homenagem a Dona Canô – é o primeiro disco lançado por Bethânia após o falecimento da mãe – com a regravação de Mãe Maria (Custódio Mesquita e David Nasser).

Um de seus compositores prediletos, entre os mais gravados em sua mais recente safra discográfica, o baiano Roque Ferreira assina ainda Casa de caboclo (parceria com Paulo Dafilim), Candeeiro velho (com Paulo César Pinheiro) e a dobradinha Imbelezô eu/ Vento de lá.

Nome ausente da ficha técnica é o de seu maestro há muitos anos, Jaime Alem. Jorge Helder (contrabaixo) assina com ela a criação geral do disco. Outros músicos que comparecem são André Mehmari (piano), João Gaspar (violão e guitarra portuguesa), Marcelo Costa (percussão), Maurício Carrilho (violão), Toninho Ferragutti (acordeom), Luciana Rabelo (cavaquinho), João Lyra (viola) e Celso Silva (percussão), entre outros, além dos músicos do Tira-Poeira, responsáveis pelo arranjo de Lua bonita (Zé Martins e Zé do Norte): Fábio Nin (violão sete cordas), Pedro Franco (violão) e Henry Lentino (bandolim).

Outro nome que volta a comparecer é o do falecido compositor Paulo Vanzolini, autor do megassucesso Ronda (gravado por ela em Álibi, de 1979): Moda da onça é um tema folclórico recolhido por ele.

Embalando tudo um belo encarte onde se vê que a arte de Bethânia não se encerra em seu cantar – o que já bastaria. Além de fotografias de flores, desenhos de onças, a escultura de uma índia, um retrato da cantora com sua mãe emoldurando o poema “o vento que fala nas folhas/ contando as histórias que são de ninguém/ mas que são minhas e de você também”, há entalhes produzidos pela cantora.

Dory Caimmy e Paulo César Pinheiro, autores de Alguma voz, faixa que abre o disco, dão a pista: a música fale em vozes da fonte, do rio, do vento e do mar até chegar à voz de Deus. Ouvir Bethânia é sempre uma experiência próxima do divino.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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