Um bonito filme sobre o amor

Ao ver Praia do Futuro, novo longa de Karim Aïnouz, espectadores precisam enxergar além de rótulos

Rodado entre o Brasil e a Alemanha, Praia do Futuro [2014, drama, 90min.] não é um filme gay ou homossexual e erra quem tenta rotulá-lo. Como erram os que deixam a sala após a primeira cena de sexo entre Donato (Wagner Moura) e Konrad (o alemão Clemens Schick).

O filme é antes uma obra sobre o amor e seus encontros e despedidas. E sobre as rupturas que a vida – e o amor – exige.

Nem tudo está dado, de cara. O cinema de Karim Aïnouz exige do espectador. Talvez os que deixam a sala ao ver dois homens, másculos, se beijando, se pegando pra valer, não mereçam a grandeza de sua obra.

O roteiro é bom, a fotografia valoriza a paisagem e os personagens. Praia do Futuro é um filme bem feito, que força os espectadores a enxergar para além de rótulos. As cenas de sexo são merecedoras de atenção para além da polêmica: plasticamente aliam a “violência” e a “brutalidade” tipicamente masculinas e a “doçura” e a “delicadeza” tipicamente femininas. Mas dizer isso ainda não as traduz perfeitamente, já que estamos justamente falando em fugir de rótulos.

O diretor brasileiro radicado em Berlim é um provocador. Realiza um belo filme e põe em xeque a onda conservadora que toma de assalto o país através de figuras nefastas como os deputados Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, para ficarmos apenas nestes e nos reaças que repercutem suas vozes e têm as suas repercutidas, em retroalimentação danosa. Praia do Futuro não empunha bandeiras em prol de nada, não é panfletário, mas apresenta muitas questões, quem tiver bons olhos e ouvidos perceba.

Donato é um militar – ironia fina, lembremos do sucesso avassalador de Tropa de Elite 1 e 2, estrelados justamente por nosso protagonista – do Corpo de Bombeiros cearense, que dá expediente na praia fortalezense que batiza o filme. É homossexual, mas disso só saberemos depois. Após sua primeira perda como salva-vidas – não consegue resgatar o amigo motoqueiro de Konrad – entrega-se a uma paixão avassaladora, deixando para trás a família, o emprego, o Brasil.

Chega a Berlim para uma temporada, desiste de voltar. Arruma trabalho. E tempos depois é surpreendido pela chegada do irmão, para quem Donato é(ra) um herói – o Aquaman. Ayrton (Jesuíta Barbosa) parte para a Alemanha em busca de notícias e para levar uma: a da morte de sua mãe, há cerca de ano e meio.

Donato parte – mas eis outra coisa que o filme não diz, não diretamente – para se livrar da culpa (a primeira falha contabilizada), da opressão (quer ambiente mais opressor que o militar?) e em busca de um sonho, de um amor verdadeiro. Piegas? Não nas mãos de Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã [2001] e O céu de Suely [2006], entre outros.

Em tempo: vi o filme domingo passado (25) à noite, no São Luís Shopping. Comprei o ingresso com cerca de uma hora de antecedência. Não rolaram perguntas sobre a minha vontade de ver o filme nem o carimbo de “avisado”, como supostamente ocorre em algumas salas, conforme fotografias e relatos viralizados em redes sociais. Vi gente levantar e ir embora após a primeira cena de sexo entre Donato e Konrad. Vi mais gente levantar e ir embora após outras cenas de sexo. Deixaram de prestigiar um ótimo filme de um cineasta que já conta ótimos serviços prestados à sétima arte nacional.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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